Pelo Mundo

Palestina: "Se nada mudar em setembro, haverá uma grande decepção"

21/09/2011 00:00

Eduardo Febbro - Direto de Jerusalém

A Praça de Al Manara, centro nevrálgico de Ramallah, brilhava com a agitação dos melhores dias. Sob as bandeiras das nações que já respaldaram um Estado Palestino independente, cerca de 20 mil pessoas saíram às ruas de Ramallah até a emblemática praça para apoiar o que, em todas as formas possíveis, diziam os cartazes: “Sim a um Estado, sim à liberdade, sim à integração plena às Nações Unidas”. Os palestinos nunca perdem o humor, inclusive nos piores momentos, nem com um sol que queima os lábios. A marcha foi organizada pelo movimento Palestino 194, nome explícito que se refere ao número que um Estado Palestino teria dentro da ONU. “Agora iremos até o final, pacificamente, como pede nosso presidente, resistência sem golpes nem morte”, diz Ahmad, um dos homens do movimento 194. Em uma das ruas que desembocam na praça, os manifestantes construíram uma imensa poltrona, muito parecida com as que se usam na ONU. Por enquanto, os protestos quase quotidianos se mantêm afastados dos pontos de passagem, das colônias e dos soldados israelenses.

Não restam muitas opções aos palestinos: vivem com um muro de 700 quilômetros e estão negociando há mais de 20 anos sem ter obtido outra coisa que não seja o aumento da colonização. Esse é o grande problema de toda negociação: desde os acordos de Oslo, o número de colonos israelenses se multiplicou por dois, chegando hoje à casa do meio milhão na Cisjordânia.

Não há convivência pacífica possível. Os colonos estão armados, são treinados pelo exército israelense e costumam fazer incursões provocadoras nas localidades palestinas. Os colonos, como boa parte da classe política, intelectual e da sociedade israelense, sentem-se ameaçados pela iniciativa de Mahmud Abbas nas Nações Unidas. Um locutor da rádio pública israelense lamentou-se dizendo: “O governo turco está contra nós, no Egito, a população está contra nós, e na ONU a maioria dos Estados que a integram também estão contra nós”. E agora vem o pôquer da ONU. O gabinete do primeiro ministro Benjamin Netanyahu já advertiu: “se os palestinos mudam não só as regras do jogo, mas também o jogo em si mesmo, Israel sabe como responder e poderá garantir seus interesses sem depender das limitações e das concessões oriundas dos acordos anteriores, incluídos os de Oslo”.

Os palestinos alegam que, no atual estado de coisas e com um processo de paz permanente bloqueado, Barack Obama na obscuridade e a União Europeia incapaz de superar suas divisões, não havia outro remédio. O governo israelense, por meio do chefe de sua diplomacia, Avigdor Lieberman, acusa os palestinos de “preparar um banho de sangue”. O Executivo fala, inclusive de uma espécie de “tsunami diplomático” se Mahmud Abbas levar adiante seu projeto.

Ghasan Khatib, porta-voz da Autoridade Palestina, tem outra análise quando lembra que todas as negociações realizadas nos últimos vinte anos tem sido sempre a favor de Israel e de Washington e que a consequência dessa dinâmica é o “caminho sem saída a que chegamos”. Os palestinos, porém, também estão divididos sobre a questão, tanto quanto alguns intelectuais e editorialistas israelenses que criticam o governo de Netanyahu, seu imobilismo, sua incapacidade de levar adiante uma iniciativa que reative o processo de paz e retire Israel do isolamento no qual está caindo.

Ari Shavit, editorialista do Haaretz, escreveu há alguns dias: “o governo israelense é incapaz de lançar uma iniciativa política que atenue a hostilidade árabe, turca e palestina. O governo pactua sua aliança com o Ocidente e queima os navios do mundo árabe”. Este editorialista fustiga o Executivo por sua cegueira na hora de antecipar as consequências que a Primavera Árabe e as demandas insatisfeitas dos palestinos poderiam acarretar para o país.

Kali Tafakji, ex-membro da delegação palestina que negociou os acordos de paz, argumenta que se não se apurar o passo “daqui a pouco não haverá mais nada o que negociar”. Os números dão razão a ele: fora quatro regiões que equivalem a apenas 40% da Cisjordânia, Israel controla todo o resto. Longe de ter sido suspensa, a colonização prossegue, como se pode constatar com uma rápida volta de automóvel. Mas as ilusões suscitadas pelo pedido de reconhecimento na ONU são escassas. A imprensa palestina teme que a ilusão que o gesto de Abbas desperta torne-se logo uma crua decepção. Akram Haniyeh, diretor do jornal Al-Ayyam, de Ramallah, adianta essa possibilidade: “se nada mudar depois desse mês de setembro, se a vida cotidiana não mudar de maneira substancial para as pessoas, haverá uma imensa decepção, um grande abatimento”.

É exatamente esse panorama que, de um lado e outro do muro, se insinua no horizonte como um muro maior, um caminho sem outra saída que “o caos”, segundo a expressão de Ghassan Khatib. O peso dos colonos é imenso ante qualquer possibilidade de concessão. Eles votam na coalizão de Benjamin Netanyahu e o chefe de governo não os abandona. Por eles, enfrentou Washington e não duvidará em fazer o mesmo contra o mundo inteiro.

Não é só uma questão política, mas também legal. Os governos do planeta e a própria Corte Internacional de Justiça consideram ilegal a situação dos colonos, incluindo a construção do muro. Se a Palestina obtiver ao menos o estatuto de Estado observador na ONU, poderia denunciar os colonos ante à justiça internacional. Isso os livraria de viajar, por exemplo, aos Estados Unidos, tal como fazem hoje. Yossi Alpher, especialista do processo de paz entre Israel e palestina, avalia sem rodeios a tática dos ouvidos moucos e de não negociação adotada por Benjamin Netanyahu: “foi um grande erro estratégico”.

Tradução: Katarina Peixoto

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