Pelo Mundo

Palestinos aprovam discurso de Abbas na ONU

24/09/2011 00:00

Eduardo Febbro

Créditos da foto: Eduardo Febbro
“Em todos esses anos, é a primeira vez que ouço Abbas fazer a defesa dos palestinos.”

A afirmação de Shalinan Yasin, opositor confesso do presidente da OLP/ANP, dá a medida de como os palestinos da Cisjordânia receberam o discurso de Mahmoud Abbas diante da Assembleia Geral da ONU. Milhares de pessoas reuniram-se em torno dos telões colocados no centro dos 10 distritos da região, onde aconteceram as manifestações de quarta-feira, para acompanhar a fala de Abu Mazen (antigo codinome de Abbas).

Carregando bandeiras e cartazes, entoando hinos patrióticos e dizendo palavras de ordem, a multidão começou a chegar logo após as passeatas que ocorrem todas as sextas-feiras nas vilas. E a animação era geral.
Nas vilas, amigos juntaram-se em torno das televisões dos mercadinhos, sintonizadas na Al Jazeera. A Palestina parou para ouvir o que Abbas tinha a dizer. A aprovação ao discurso vinha em forma de aplausos e gritos de alegria. Até Shalinan, para quem Abu Mazen “não é nada confiável”, aplaudiu-o diversas vezes. “Parece que ele está querendo mudar de imagem, que é muito negativa. Tomara que mude também de atitude”, comentou o palestino, que, aos 40 anos, só conheceu a ocupação.

“Quem mora em outros países não tem ideia de como é a vida na Palestina. Não temos liberdade para nada, nem para ir a cidades vizinhas. É muro aqui, checkpoint ali, e para tudo se necessita permissão”, ele desabafa. “Sou professor e tenho um mercado. À noite, acordo a qualquer ruído, e fico com medo de que sejam os soldados israelenses, tentando abrir a porta e destruir meu negócio. A gente não descansa nem quando dorme.”

Shalinan nunca viu o mar e sempre sonha com ele, que só conhece por fotografias. “Sonho que mergulho, dou braçadas, despreocupado, feliz”, conta. “Nós precisamos de um Estado para afirmar nossos direitos até para coisas mínimas como essa”, acrescenta, com expressão triste. “Quando meu filho de 18 anos sai, não consigo dormir. Se ele demora, fico desesperado, imaginando que talvez os soldados o tenham prendido ou, pior, atirado nele”, diz, com o brilho de lágrimas nos olhos.

Para os palestinos, o discurso de Abbas na ONU, ao denunciar o que realmente acontece no país, foi importantíssimo. “Abu Mazen mandou uma mensagem clara para o mundo: não haverá paz sem respeito a nossos direitos e sem Estado”, comenta Mohamad Yasin, mestre em tecnologias hídricas e responsável pelo programa sanitário ecológico implantado em algumas áreas de Jericó.

Mais crítico, Raslan, também da família Yasin, vê uma contradição básica na fala e na atitude de Abbas: se ele foi à ONU porque as negociações de paz falharam, não faz sentido sugerir novas negociações. Mohamad objeta que sim, faz sentido, porque, caso a Palestina se torne um Estado, as conversas se darão entre pares, não entre potência ocupante e país ocupado. “Além disso, colonos e soldados não poderão entrar aqui quando bem entenderem, como acontece hoje. Se fizerem isso, invadirão outro Estado e estarão sujeitos não apenas às leis desse Estado como às penalidades internacionais”, comenta, lembrando a morte de Issam Kamal Badran, morador da vila de Qusra, perto de Nablus, na manhã do dia do discurso de Abbas. Issam foi vítima de duas balas atiradas por soldados israelenses, que entraram na vila depois que moradores da colônia Esh Kodesh, ilegalmente construída em terras palestinas, entraram em Qusra carregando bandeiras com a estrela de Davi. O exército israelense confirmou o uso de munição letal.

Colonos também atacaram a vila de Jalud, sul de Nablus, e atiraram pedras em carros palestinos no checkpoint de Zatara, na mesma cidade. Confrontos entre soldados e civis desarmados ocorreram no checkpoint de Qalandiya e em Nabi Saleh, vila onde a violência de colonos e soldados contra moradores é quase diária. Vários palestinos ficaram feridos.

“Quando tivermos um Estado, esses enfrentamentos tenderão a diminuir”, acredita Mohamad. Shalinan balança a cabeça. “E pensar que árabes e judeus viveram em paz por tantos séculos... Os árabes impediram que os europeus matassem um grande número de judeus. Nós os recebemos em todo o mundo árabe, principalmente quando fugiram da Alemanha nazista. Não consigo entender por que esses colonos nos odeiam”, comenta. “Nós não os odiamos. Só queremos que eles saiam das nossas terras, que foram roubadas pelos sionistas.”

Bem longe da Palestina, em Toronto, no Canadá, mas em contato via internet, Fida Burini, economista de 40 anos, também quer de volta as propriedades que foram tomadas de sua família, em Haifa. Apesar de ser favorável à solução do Estado único para palestinos e israelenses, com liberdade religiosa para todos, ela assistiu à fala de Abbas e a defesa à solução de dois Estados. E ficou surpresa com o que ouviu. “Foi um discurso brilhante, que mostrou com clareza que a liderança do país finalmente decidiu ir pelo caminho certo, enfrentando as políticas colonialistas e de apartheid de Israel e seu expansionismo ilegal”, diz ela. “O povo palestino espera por evidências sólidas de mudança, por uma nova ‘primavera palestina’, como Abbas a denominou. Isso exige tudo de que ele falou: transparência, responsabilidade, democracia e liberdade. Espero que continuemos unidos para conseguir tudo isso.”

Apesar da injeção de ânimo dada pelo discurso de Abbas, os palestinos se mostram cautelosos. Querem provas do que ele disse. “Não faz muito tempo e Abu Mazen apoiava Israel, servia a eles como policial. Basta ler os Palestine Papers, liberados pelo Wikileaks, para ver até onde eles foram, traindo a Palestina. Quero ver trabalho na base, unidade e reconciliação com o Hamas. Quero ver a Autoridade Palestina ao lado do povo, lutando com ele, formando um novo governo com ele”, declara Fida.

Quanto ao discurso do primeiro ministro israelense Benjamin Netanyhau, houve rejeição unânime. “Risível. Recheado das velhas mentiras dos sionistas”, resume Fida. “Não sei como a ONU permite que ele vá lá discursar, com todas as violações de direitos humanos que os sionistas cometem, com as resoluções da própria ONU que eles não cumprem, com o direito internacional que não respeitam. São criminosos e deviam estar na cadeia, não nas Nações Unidas”, desabafa ela.

Mohamad estende as críticas aos Estados Unidos. “Não estão interessados na Palestina, mas nas riquezas do Oriente Médio. Ao menos agora o mundo sabe que eles não são a favor nem da democracia, nem da liberdade. A máscara caiu.”

Logo após o discurso de Abbas, Muhammad Shtayyeh, da cúpula do Fatah, o maior partido político da Palestina, anunciou que o país já tem os nove votos necessários para receber o status de membro pleno no Conselho de Segurança. E espera que não haja veto, nem mesmo dos Estados Unidos. “O único órgão da ONU autorizado a admitir novos Estados é o Conselho de Segurança. Vamos aguardar a decisão do Conselho e então decidir os próximos passos”, declarou ele, sem confirmar se a Palestina recorrerá à Resolução 377 da ONU, pela qual a Assembleia pode tomar a decisão que o CS não conseguiu tomar por falta de unanimidade.

(*) A reportagem agradece a colaboração de Raslan Yasin na tradução do discurso de Mahmoud Abbas.

Conteúdo Relacionado