Pelo Mundo

Pandemia do coronavírus revela quão devastadora é a ganância da indústria de seguros

Lembre-se: seguradoras estão no mercado para lucrar. Ponto.

20/03/2020 19:15

Gail Boudreaux, CEO da Anthem, Mike Pence, vice-presidente dos EUA, o presidente dos EUA Donald Trump, David Wichmann, CEO do UnitedHealth Group e outros ouvem um participante falar à imprensa após uma reunião sobre o coronavírus, o COVID-19, com membros do setor de seguros na Sala Roosevelt da Casa Branca, em 10 de março de 2020, em Washington, DC (Brendan Smialowski/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: Gail Boudreaux, CEO da Anthem, Mike Pence, vice-presidente dos EUA, o presidente dos EUA Donald Trump, David Wichmann, CEO do UnitedHealth Group e outros ouvem um participante falar à imprensa após uma reunião sobre o coronavírus, o COVID-19, com membros do setor de seguros na Sala Roosevelt da Casa Branca, em 10 de março de 2020, em Washington, DC (Brendan Smialowski/AFP via Getty Images)

 

Palavra sábia: durante essa crise do coronavírus, fique de olho em todos os movimentos da velha indústria: das seguradoras de saúde. Por trás das relações públicas, elas vão fazer de tudo para negar tratamento e manter lucros enquanto fazem parecer que são as heroínas.

Não se deixe enganar pela campanha da indústria para nos fazer pensar que é uma boa cidadã corporativa verdadeiramente interessada na nossa saúde e bem estar. Acredite em mim, alguém que já esteve dentro: se importa mesmo com os lucros.

Isso não poderia ficar mais evidente do que na rapidez com a qual o grupo comercial da indústria, Planos de Seguro Saúde da América (AHIP), corrigiu o presidente Trump, na semana passada, quando ele disse que as seguradoras “concordaram em abrir mão dos co-pagamentos nos tratamentos do coronavírus”.

Você pode ter certeza que o comentário de Trump enviou ondas de choque pela indústria. Dentro de algumas horas, o AHIP, maior grupo de lobby e relações públicas da indústria, divulgou uma declaração deixando claro que esse não era o caso, que eles somente abririam mão dos co-pagamentos dos testes.

Sim, somente para os testes; tratamento, não. Para muitos, o tratamento será consideravelmente mais caro do que os testes. Se as seguradoras aliviarem os gastos de próprio bolso dos seus segurados, analistas de Wall Street e seus acionistas ficariam apopléticos.

A minha antiga empresa Cigna diz que vai cobrir os custos dos testes para o COVID-19 – mas não menciona abrir mão dos co-pagamentos ou deduções dos “tratamentos”. Observe a escolha de palavras aqui. Isso não é um erro. A Cigna e outras seguradoras não vão ganhar dinheiro com os testes, ou ao menos chegar a um ponto de equilíbrio. Isso porque o governo federal parece pronto para cobrir todos os custos com os testes, o que sugere que um reembolso significativo dos custos dos testes está vindo em direção às seguradoras.

Aqui está mais uma linguagem cuidadosa da indústria: a UnitedHealthcare diz, “sua saúde é importante para [eles]” e é sua “prioridade” principal. Mas se você pegar esse coronavírus, boa sorte com os gastos do seu próprio bolso.

Uma das métricas mais observadas pelas operadoras de planos de saúde é “a proporção de perda médica”. Quanto mais as seguradoras pagam pela assistência, maior é a proporção. (É chamada de proporção de perda médica porque as seguradoras consideram uma perda quando pagam indenizações). Como parte do Obamacare, as seguradoras têm que gastar ao menos de 80 a 85% das bonificações em assistência médica. Então, a maioria tenta manter a proporção nesse nível. Se aumentar significativamente, os acionistas correm para a porta. Por quê? Quando as seguradoras pagam mais indenizações, é menos lucro para as seguradoras.

Lembre-se: seguradoras estão no mercado para lucrar. Ponto. E elas se saem melhor quando você não precisa delas ou não lembra que elas existem. Mas quando uma crise como essa surge, elas ficam com medo. Por quê? Porque pessoas como você vão ver o que essas seguradoras realmente fazem e o que não cobrem.

Como ex-executivo de seguradora, deixa eu te contar: a estratégia de mover os estadunidenses para planos altamente dedutíveis foi ótima para os acionistas e executivos. Mas está forçando milhões de estadunidenses a renunciar assistência, fazer vaquinhas ou decretar falência devido a contas terríveis.

Essa pandemia vai, finalmente, revelar para muitos de nós como a ganância das seguradoras pode ser. Tragicamente, alguns cidadãos, provavelmente, vão morrer porque legisladores entregaram as chaves do nosso sistema de saúde nas mãos de corporações movidas pelo lucro.

Isso tem que, finalmente, acabar.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares

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