Pelo Mundo

Papa Francisco foi o responsável por reconciliação entre Alberto Fernández e Cristina Kirchner

O diário britânico Financial Times, de conhecida linha editorial neoliberal, conta detalhes sobre o reencontro entre os dois amigos, mas também relata que os investidores estrangeiros se perguntam (com algum cinismo) qual dos dois governará o país caso a candidatura peronista triunfe em outubro

18/08/2019 16:49

 

 
O resultado das eleições primárias na Argentina, no passado dia 11 de agosto, com a vitória de Alberto Fernández por 47% dos votos contra 32% do atual presidente Mauricio Macri, foi iniciada bem longe da América do Sul.

Para ser mais preciso, o processo começou em uma reunião no Vaticano, em meados de 2018, e foi descrito pelo diário Financial Times como “o momento decisivo das quatro décadas de carreira do homem que muitos acreditam que será o próximo presidente da Argentina”. Naquela ocasião, Fernández visitou a Santa Sé, e teve um encontro privado com o Papa Francisco.

A história conta que Alberto Fernández organizou uma visita junto com dois amigos, ambos ex-ministros de governos progressistas sul-americanos: o economista chileno Carlos Ominami (o primeiro ministro da Economia do país após a ditadura de Pinochet) e o diplomata Celso Amorim.

No Brasil, a repercussão da visita se concentrou na missão de Amorim, que foi a de entregar ao sumo pontífice um exemplar do livro “A verdade vencerá” (Boitempo Editorial), sobre a luta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para provar sua inocência diante do processo de lawfare que enfrenta – o Papa também aproveito para enviar uma mensagem espiritual ao líder brasileiro, através de seu ex-chanceler.

Porém, mesmo na imprensa argentina, passou desapercebido o fato de que aquela visita registrou uma reunião especial na qual teriam participado somente Francisco e Alberto Fernández. A partir de uma fonte próxima ao atual candidato peronista, o Financial Times assegura que “o Papa convenceu Alberto a fazer as pazes com Cristina Kirchner”.

É importante lembrar que Alberto Fernández foi ministro Chefe de Gabinete do primeiro ao último dia do mandato presidencial de Néstor Kirchner (2003-2007), e conhecido como um dos seus ministros mais leais, razão pela qual se manteve no cargo durante os primeiros meses do governo de Cristina Fernández de Kirchner (Fernández é o sobrenome de solteira da ex-presidenta, por isso a imprensa argentina chama a chapa peronista de Fernández-Fernández, e não, eles não são parentes).

Em julho de 2008, depois de uma crise com o setor ruralista por um aumento no imposto aos produtos agrícolas, em que Alberto não conseguiu encontrar um consenso, ele acabou se vendo forçado a renunciar, e desde sua relação com o casal passou a ser de troca de críticas pela imprensa.

Segundo o Financial Times, “Francisco foi quem impulsou Alberto Fernández a dar esse passo decisivo em favor da unificação da oposição peronista, ajudando a pavimentar seu caminho de regresso ao poder”.

Semanas depois daquela visita, Alberto Fernández teve encontros, também privados, com figuras próximas à ex-presidenta e atual senadora. Em dezembro do ano passado, ele se deu finalmente a reconciliação, e ele passou a ter reuniões políticas com Cristina Kirchner, voltadas a construir uma aliança ampla do peronismo para as eleições deste ano – cujo objetivo inicial era tê-la como candidata à Presidência.

Essa recuperação das confianças do passado foi essencial para que Cristina decidisse mudar sua estratégia, e abrir mão de ser a candidata à presidenta, passando a ser candidata a vice, com Alberto Fernández encabeçando a chapa.

Contudo, a mesma matéria do diário britânico começa classificando Fernández como um “moderado”, mas depois, para ser mais fiel à sua linha editorial neoliberal, o rotula como um “populista, porém não radical”. A matéria também relata o temor dos investidores estrangeiros de que a Argentina não pague a dívida que o governo de Macri contraiu com o Fundo Monetário Internacional (FMI) caso os progressistas retornem ao poder. No entanto, afirma que “quem conhece o senhor Fernández assegura que o medo de que a Argentina volte ao tempo do isolamento econômico é exagerado”.

Além disso, o Financial Times também descreve o triunfo de Alberto Fernández como “um resultado inesperado”, e o explica devido “a uma inflação que supera os 50% e um desemprego que há tempos superou os dois dígitos”.

Finalmente, a matéria conclui que “Cristina Fernández de Kirchner tem o apoio de cerca de um terço da população, mas Alberto Fernández conseguiu, nas primárias, quase metade dos votos, o que mostra que sua imagem de homem de centro ajudou a conquistar votos da classe média, de pessoas que estão indignadas com o fracasso do atual governo na economia”.

*Com informações do Financial Times e do Infobae



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