Pelo Mundo

Para Biden e Harris, derrotar Trump é só o começo

A estrada para o trumpismo durou décadas. A estrada de volta não será fácil.

17/11/2020 13:13

(David Rothenberg/The New York Times)

Créditos da foto: (David Rothenberg/The New York Times)

 
“Eu falo a senha primordial... dou o sinal da democracia”, escreveu Walt Whitman em “Song of Myself”. “Por Deus! Não vou aceitar nada que todos não possam ter a contrapartida nos mesmos termos.”

Um dos nossos maiores poetas buscou as formas mais profundas da democracia, onde pessoas são completamente livres para partilhar sua humanidade mais completa. Whitman cantava infindáveis músicas de renascimento e renovação, na natureza e na sociedade humana. Quase no final do mesmo poema, ele suspirou seu epitáfio: “Eu me deixo no solo para crescer da grama que eu amo,/ Se você me quer novamente, procure por mim debaixo das solas de suas botas”.

Como característica mística, a ideia de renascimento tem um histórico profundamente fértil nessa terra. Estadunidenses – sua nação, sua cultura multiétnica, sua política – nunca pararam de renascer, mesmo com os significados conflitantes invocados por esse conceito. Admiramos segundas e terceiras oportunidades; enfrentamos ao menos duas reconstruções da nossa Constituição e das nossas relações raciais. Revivemos de uma Guerra Civil colossal. Confrontamos uma Grande Depressão e refizemos a ideia do governo moderno. Lutamos a maior guerra na história em dois fronts globais e ganhamos ambos. Celebramos, ao menos alguns de nós, o sonho das multitudes assimiladas em um tipo de “de muitos, um”, vivendo com as crenças nos direitos naturais.

Mas como todos os mitos profundos, esse sempre sobreviveu ou cresceu contra a corrente da experiência e se sustentou em resposta ao poder de seus muitos inimigos. Suprima os votos dos estadunidenses, e os veja irem votar em números heroicos.

Com a vitória de Joseph Biden e Kamala Harris, eles – e o resto dos cidadãos – encaram uma tarefa histórica de renascimento nacional. O desafio da reparação de todos os danos deixados pelo trumpismo pode ser trabalho não somente de uma temporada política, mas de uma geração.

Primeiramente, essa tarefa exige uma conscientização de quanto tempo durou o processo de concretização do desastroso trumpismo e quantas pessoas e forças abriram caminho para tal. E em segundo lugar, exige uma confrontação direta com o fato de que para reconstruir um sistema político e societário, devemos admitir que estão quebrados. Institucionalmente, os EUA estão quebrados.

Uma pequena lista das nossas instituições quebradas pode parecer dolorosa e avassaladora: a presidência; o senado; a Supremo Tribunal; agências do governo que comandam tudo desde forças de segurança até justiça criminal até o meio-ambiente e a saúde pública; o sistema eleitoral, incluindo o Colégio Eleitoral; os veículos de imprensa; nossas parcerias globais como a OTAN; e, finalmente, nossas escolas públicas e universidades – locais que deveriam reimaginar vidas.

Alimentando esse declínio e desconfiança estão não somente ideologias conflitantes sobre o propósito do governo, como também hostilidade em relação à ideia de que os fatos e a verdade, bem como o respeito pelo conhecimento científico e humanístico, estão na base de uma democracia em pleno funcionamento.

Essa realidade preocupante, no entanto, é compensada pelo espírito da nossa nação – como demonstrado pela incrível participação eleitoral nessa eleição. E esse espírito, junto com o reconhecimento de que estamos quebrados, pode nos ajudar a encontrar a vontade para sair desse pesadelo nacional. Todos os renascimentos vêm de realidades de mortes, novos começos vêm de términos. A estrada para o trumpismo durou décadas; a estrada do trumpismo para uma nação melhor é igualmente longa.

É válido reler dois importantes livros de história cultural para explorar as raízes do trumpismo do final do século 20 e início do século 21. Juntos, eles mostram como o trumpismo era um sintoma, ao invés do criador, da nossa polarização e da nossa política. Ele não inventou o racismo utilizado, mas o aperfeiçoou em seu mundo plutocrático.

No livro “The One and the Many: America’s Struggle for the Common Good”, o teólogo e historiador Martin E. Marty apontou que o ditado “de muitos, um” colapsou em “uma controvérsia quase esmagadora”.

No final do século 20, o professor Marty argumentou que os estadunidenses tinham entrado em guerras culturais que renderam histórias. Ele viu o país dividido entre “totalistas” e “tribalistas”. Os totalistas eram as pessoas que se sentiam deixadas para trás, deixadas de lado pelas elites, e que ansiavam por uma história de “totalidade” em relação à nação estadunidense. Esse pessoal se sentia atacado pela mídia de massa e não queria ter nada a ver com complexidades e identidades conflitantes.

Os tribalistas, que podem defender raça, gênero, etnicidade ou religião, exigiam que sua história fosse a fonte da coesão de grupo contra alegações de qualquer papel unificador. O professor Marty viu os estadunidenses recuando para o “separatismo” por escolha própria, e se preocupou, com Reinhold Niebuhr, que “a fonte principal da desumanidade do homem em relação ao próximo pareça ser os limites tribais do seu senso de obrigação com o próximo”.

Em “Age of Fracture,” o historiador Daniel T. Rodgers estudou brilhantemente as grandes ideias e debates na cultura política das últimas três décadas do século 20 até os ataques no 11 de setembro. O Sr. Rodgers viu uma cultura na qual a noção de “natureza humana” havia mudado do momento de estresse pós-2ª GM sobre “contexto, circunstância social, instituições e história” para uma ênfase dos anos 90 em “escolha, agencias, performance e desejo”.

Os “baby boomers”, na esquerda e na direita, agora lideram o país, mas herdaram uma política moldada pelo “reaganismo”, que se encantou com a mitologia de “city on a hill”, mas buscou votos alimentando ressentimentos e ódios filhos de amplas mudanças provocadas pelos anos 60. Ronald Reagan evitava explicitação, mas sua legião de seguidores acreditava que os direitos civis, feminismo e vários movimentos de liberação tinham ido longe demais. O senso de sociedade enquanto “coletividades imaginadas” encolheu, disse o Sr. Rodgers. Os estadunidenses estavam se fragmentando em enclaves de pensamento cada vez mais divididos. “O último quarto de século”, ele escreveu, “foi uma era de desagregação, a grande era da fratura”. O país pode ter se unido logo após o 11 de setembro, mas logo se quebrou em campos políticos já formados e cada vez mais tenazes.

A presidência do Sr. Trump é resultado de uma longa história da descida do Partido Republicano em direção à falência moral, mas também de uma cultura conduzida pela alienação das mídias sociais envolvendo a todos nós. A presidência de Barack Obama foi um progresso impressionante, mas a reação amarga em relação a ele na direita veio de recintos de mídia, think tanks, nacionalismo racial e organização corporativa.

Para superar a cicatriz deixada por Trump, entalhada em nossa consciência, é preciso liderança com um senso de história, o conhecimento de que a linda visão do pluralismo estadunidense é, às vezes, não tão potente quanto a arma política do ódio.

Se há de existir um renascimento desse experimento estadunidense, nossos líderes deveriam levar em consideração que já aconteceu antes, mas nunca sem sangue, sacrifício, transformação social e embates políticos épicos. Inúmeros imigrantes europeus acharam lares aqui, mas nunca sem trabalhar ou sem encarar os ventos contrários do preconceito. Os indo-americanos enfrentaram duas grandes leis segregacionistas e ataques assassinos em minas e nas ruas no Oeste no século 19. Os mexicanos-americanos enfrentaram discriminação, deportação, linchamento e todo tipo de ódio ao longo da fronteira sulista bem antes de o Sr. Trump berrar sobre um “muro” para manter longe seus descendentes.

Os nativo-americanos no século 19 e no oeste moderno lutaram contra a colonização branca, soldados estadunidenses, desastres ecológicos, fome e passeatas forçadas, genocídios periódicos e escolas “civilizatórias”. Cerca de quatro milhões de escravos afro-americanos conquistaram a emancipação na vitória e no horror da Guerra Civil, e, com isso, incitaram uma segunda inauguração dos Estados Unidos nas três grandes emendas constitucionais da Reconstrução. A liberdade negra fez muitas outras liberdades possíveis – para mulheres, gays e lésbicas, e para os deficientes – mesmo se foram necessárias gerações.

Todos esses grupos são estadunidenses, e não somente continuam aqui, como também suas histórias trágicas e de sucesso agora definem a história nacional e como a comemoramos. Seu pluralismo é a essência da nossa democracia, e juntos são o eleitorado estadunidense.

Talvez a metáfora de renascimento mais famosa na história dos EUA surgiu quando Abraham Lincoln foi à devastada cidade de Gettysburg, Pa., em novembro de 1863 e explicou a Guerra Civil. Lincoln discursou em um cemitério inacabado construído para lidar com as impressionantes 7.000 mortes da recente batalha de três dias, e outros 33.000 feridos e mais de 10.000 desaparecidos ou capturados.

Com uma concisão impressionante, Lincoln disse aos seus compatriotas que a velha república havia morrido naquele e em outros campos de batalha. E de todo aquele sacrifício, argumentou Lincoln, o povo estadunidense – a “nação” – poderia experienciar um “novo renascimento da liberdade”. O governo popular ainda pode ser salvo, a liberdade humana construída por novas definições, e até mesmo o ideal mais desafiador de todos, “igualdade”, pode ser inaugurado em uma nova história. A primeira república estava morrendo diante de seus olhos; à um custo horrível, uma nova ainda poderia ser alcançada.

O grande abolicionista Frederick Douglass criou muitas metáforas de renascimento impressionantes em 1863 e 1864 para explicar e justificar a amplitude da guerra. No mesmo período que Lincoln entregou sua mensagem anual ao Congresso no final de 1863, Douglass estava viajando pelo país entregando seu discurso de “Missão da Guerra”. Lincoln declarou que “a política de emancipação” “deu ao futuro um novo aspecto”, uma mudança sinalizada em relação à sua retórica de apenas um ano antes. O presidente imaginou uma nação refeita: “o lar da liberdade desenredada, regenerada, ampliada”.

Em seu discurso, Douglass disse que o corpo político dos EUA nunca esteve saudável enquanto existia a escravidão. Sua linguagem era de estremecer, mas esperançosa. Ele chamou a Confederação de “um horror solitário, sem paralelos na história da nação”. Os Confederados tinham que ser encarados e derrotadas, mesmo que a batalha fosse “longa e sanguinária”. A história de renascimento de Douglass voou como uma versão abolicionista radical do Discurso de Gettysburg; mas o argumento era o mesmo. A guerra havia entregado ao país uma “constituição quebrada”, demandando uma refundação legal e política. Ele acreditava que era o “destino manifesto” da guerra “unificar e reorganizar as instituições desse país”, e tal objetivo deu à missão um “significado sagrado”. A missão da guerra, exclamou Douglass, era “regeneração nacional”.

Esperamos que o renascimento após o trumpismo não venha com sangue, mas sim com a reforma legal, o ativismo pacífico e a política. Mas nossa história deveria nos preparar para saber que já estivemos aqui antes, e que nenhuma regeneração surge sem disputas. Acima de tudo precisaremos reviver a ideia de que a verdade importa. “Porque a verdade”, escreveu o filósofo John Dewey, “ao invés de ser uma virtude da burguesia, é a fonte do progresso humano”.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares



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