Pelo Mundo

Para Trump, o coronavírus é apenas mais uma chance de se agarrar ao poder

O caos em resposta ao Covid-19 não é surpresa. Tampouco a inescrupulosa busca dos operadores por lucros e vantagens políticas o é

07/04/2020 12:02

Donald Trump fala na Casa Branca no sábado. (Patrick Semansky/AP)

Créditos da foto: Donald Trump fala na Casa Branca no sábado. (Patrick Semansky/AP)

 

O caos total na resposta dos Estados Unidos à pandemia de coronavírus - escassez de equipamentos para proteger os funcionários dos hospitais, fornecimento cada vez menor de respiradores e medicamentos críticos, uma confusão de fazer cair o queixo sobre na distribuição da ajuda de US$ 2,2 bilhões da recente lei do coronavírus - talvez seja previsível em uma nação que se orgulha do individualismo competitivo e odeia o poder centralizado.

Mas também é feito sob medida para Donald Trump, que passou a vida explorando o caos em busca de ganhos pessoais e culpando os outros pelas perdas.

"Eu não assumo a responsabilidade" pela baixa taxa de testes de coronavírus nos EUA, disse ele.

Na sexta-feira, quando perguntado se ele poderia garantir aos nova-iorquinos que haveria respiradores suficientes na próxima semana, quando se espera que as vítimas do vírus superem a capacidade dos hospitais da cidade, ele respondeu: “Não. Eles deveriam ter mais ventiladores”.

Trump disse aos governadores que encontrassem, por conta própria, os equipamentos para salvar vidas. Ele se recusa a criar um agente central de negociação, argumentando que o governo federal "não é um funcionário de expedição". Isso deixou estados e cidades disputando entre si, elevando os preços.

Andrew Cuomo, governador de Nova York, descreveu como os ventiladores passaram de 25 mil para 45 mil dólares: “como oferecemos US$ 25.000. A Califórnia diz: ‘Eu lhe darei US$ 30.000’ e Illinois diz: ‘Eu darei a você US $ 35.000’ e a Flórida diz: ‘Eu darei a você US$ 40.000. E então, a Fema [Agência Federal de Gerenciamento de Emergências] se envolve e começa a licitar!”

“E agora a Fema está concorrendo acima de 50! Então Fema está aumentando o preço. Que sentido isso faz? Nós mesmos estamos literalmente aumentando os preços."

O estado de Nova York está pagando 20 centavos por luvas que normalmente custam menos de cinco centavos, US$ 7,50 por máscaras que normalmente custam 50 centavos, US$ 2.795 por bombas de infusão que normalmente custam metade disso, US$ 248.841 por uma máquina de raios X portátil que normalmente custa entre US$ 30.000 e US$ 80.000.

Quem está embolsando tudo isso? Uma variedade de produtores, importadores, atacadistas e especuladores. As leis estaduais contra a manipulação de preços geralmente não se aplicam às compras do governo.

Parte desses ganhos podem estar chegando às campanhas eleitorais deste outono. O veterano arrecadador de fundos republicano Mike Gula e o operador político republicano John Thomas acabam de abrir uma empresa que vende kits de testes de coronavírus, equipamentos de proteção individual e outros “suprimentos médicos difíceis de encontrar para combater o surto”. Eles se autodenominam "a maior rede global de fornecedores de equipamentos médicos para a Covid-19".

Questionado sobre o modo como encontrou esse equipamento, Gula explicou: "Eu tenho relacionamentos com muitas pessoas".

Thomas acrescentou: "Na política - especialmente se você estiver em um nível suficientemente alto - você está a um telefonema de qualquer pessoa no mundo".

Enquanto isso, o genro de Trump, Jared Kushner - que está a um telefonema de qualquer pessoa - está administrando uma força-tarefa “sombra” de coronavírus que vem recrutando o setor privado e supervisionando o Estoque Nacional Estratégico de suprimentos médicos, tudo fora da vista do público.

"Deveria ser o nosso estoque - não deveria ser o estoque do estado", disse ele enigmaticamente na quinta-feira.

Ah, e não vamos esquecer a lei gigantesca sobre coronavírus que Trump assinou em 27 de março, que criou um fundo de US$ 500 bilhões que Trump e seu secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, distribuirão ao setor privado. A maior parte estará amparada nos US$ 4,5 trilhões em empréstimos subsidiados (ou seja, dinheiro de resgate) provenientes do Fed, também distribuídos pelo Tesouro.

Em uma declaração assinada, Trump disse que não concordaria com as disposições do projeto de lei para supervisão do Congresso - o que significa que a barganha será secreta. Quando a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, disse que formaria um comitê especial seleto para observar como o dinheiro seria gasto, Trump a acusou de "conduzir investigações partidárias no meio de uma pandemia", acrescentando: "Aqui vamos nós de novo … É uma caça às bruxas após a outra.”

Existe alguma dúvida de que Trump tentará usar esse dinheiro, bem como as negociações secretas de seu genro, para melhorar suas chances de reeleição?

Trump sofreu um processo de impeachment há apenas três meses e meio por acusações de abuso de poder e obstrução de investigações. Há oito meses, ele telefonou para o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, em busca de podres de Joe Biden e ameaçando suspender a ajuda militar para obtê-los.

Em junho de 2016, seu filho Donald Jr e Jared Kushner se encontraram com a advogada russa Natalia Veselnitskaya, depois que um intermediário russo entrou em contato com Trump Jr com a promessa de fornecer material que "incriminaria" Hillary Clinton e seria "muito útil para seu pai", acrescentando que isso fazia parte do "apoio" do governo russo a Trump.

Donald Trump considera as alegações de intromissão russa nas eleições de 2016 uma "farsa". Ele chamou seu impeachment de "embuste". Ele inicialmente chamou o coronavírus de "fraude".

Mas a verdadeira farsa é o compromisso de Trump com a América. Na realidade, ele fará qualquer coisa - qualquer coisa - para manter o poder. Na cabeça dele, a crise do coronavírus é apenas mais uma oportunidade.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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