Pelo Mundo

Para o Syriza, o mais difícil está por vir

A vitória do Syriza é paradigmática, pois se a troika conceder à Grécia o alívio de que necessita, outros em situação parecida poderiam exigir o mesmo.

27/01/2015 00:00

Mirko Isaia / Flickr

Créditos da foto: Mirko Isaia / Flickr

Sem tirar o mérito do triunfo conquistado pelo Syriza, o pior para a coalizão dirigira por Alexis Tsipras chega agora, quando terá que geri-la a partir da crua realidade do poder, e não das promessas.
 
Os gregos fizeram bem em ignorar as truculentas apelações ao voto do medo feitas pela Nova Democracia (a direita de toda a vida) e a partir dos padrinhos da troika, que deixaram o país à beira da ruína.
 
Foi mais do que lógica a reação cidadã a um sequestro que, com o falso nome de resgate e aplicando os dogmas da estabilidade orçamentária e de que as dívidas precisam ser pagas, empobreceu até o limite da sobrevivência grande parte da população, além de ter reduzido drasticamente salários e aposentadorias, tirando o emprego de um a cada quatro trabalhadores e desmantelando o Estado de bem-estar.
 
Se isso é Europa, mais de 36% dos gregos que respaldaram o Syriza disseram nas urnas que lhes deem a Europa. Ou melhor: que se entenda que existem limites que não podem ser ultrapassados... e que reflita, que mude de rumo, porque não interessa a ninguém que a Grécia jogue a toalha, que saia do euro, que quebre uma União Européia em cujo código genético estão, ou deveriam estar, conceitos hoje em crise, como integração, solidariedade, amplitude e consenso.
 
A chave deveria ser não exigir mais sacrifícios a um país exausto e empobrecido até o limite da sobrevivência. Massacrar mais os gregos, privar-lhes de qualquer esperança de recuperação, roubar-lhes seu futuro não apenas seria uma crueldade intolerável, mas sobretudo um erro, a constatação de que a União Europeia traiu sua mais genuína razão de existir.
 
Assistimos ao apaixonante ensaio geral de um choque desigual entre um trem e um vagão. O vagão é um pequeno país periférico com 2% do PIB da UE, mas nem por isso irrelevante: um laboratório das políticas de austeridade e do rigor orçamentário cujo pessoal entrou em greve contra o desigual convênio coletivo. O trem, um mastodonte colossal, tem uma maquinista com vontade de ferro, Angela Merkel, e em seus primeiros vagões, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. Se eles colidirem, o lógico seria que o vagão fosse atirado pelos ares, mas isso tampouco interessa aos que dirigem o trem e viajam nele. Ainda que o perigo de descarrilamento seja pequeno, seria possível sofrer danos importantes, custosos de reparar. Melhor para todos, pois, se o choque for evitado.
 
Após o rápido acordo com a direita nacionalista dos Gregos Independentes (ANEL), que com toda probabilidade foi gestado antes das eleições, o fato de faltarem deputados ao Syriza para ter maioria absoluta perdeu importância, pelo menos enquanto os dois sócios sigam em bons termos, o que não é certo no médio prazo, dadas as suas notáveis diferenças ideológicas. Dois foram os traidores do Tamayazo, que deu de presente a Esperanza Aguire a presidência da Comunidade de Madri.
 
Tampouco eram esses dois votos uma questão de pouca importância na Grécia. Basta recordar as três eleições em menos de um ano no final dos anos 80, quando disputavam o poder com unhas e dentes Andreas Papandreu (pai de Yorgos, penúltimo primeiro-ministro submetido pela troika) e Constantino Mitsotakis, representantes das dinastias socialista (PASOKO) e conservadora (Nova Democracia). O líder direitista ficou com 145 cadeiras (de um total de 300) em junho de 1989, e com 148 em novembro do mesmo ano. Não foi suficiente, e apenas na terceira, em abril de 1990, alcançou os 150 que, com um mínimo de apoio externo, lhe permitiu enfim governar sem grandes aflições.

Uma pergunta-chave: interessava ou não ao Tsipras ter maioria absoluta? A resposta não é tão óbvia quanto parece. O líder do Syriza, à medida que ficava mais evidente a grande possibilidade de ele chegar ao poder, foi moderando seu discurso com habilidade para que ninguém pudesse acusá-lo de uma súbita conversão após ver a luz e cair do cavalo a caminho de Damasco.
 
Ele seguiu um curso acelerado de pragmatismo para tranquilizar a coalizão de credores, especialmente a Alemanha e os países do Norte da Europa, que culpam o país em seu conjunto por corrupção, desperdício e incapacidade, levando-o à beira do abismo. Algo que o Syriza responde mais ou menos assim: "Não fomos nós, mas sim esses larápios do PSOK e da Nova Democracia. E, tal como estão as coisas, a Grécia está em frangalhos, ou vocês nos dão uma mão ou vai tudo por água abaixo, batemos com o trem e que seja o que Deus quiser. As duas partes devem ser flexíveis para chegarmos ao ponto de convergência. Nem nós somos tão radicais e nem vocês podem ser tão filhos da p.".
 
O problema de uma maioria absoluta do Syriza consistiria em que, sem necessidade de pactuar com ninguém para governar, as pressões da ala mais esquerdista (o movimento grupa sensibilidades muito diversas) teriam sido muito fortes para exigir que se cumprisse à risca um programa de máximos que tornaria muito difícil, ou impossível, um acordo com a Europa e com o FMI. Pelo contrário, após a prova de flexibilidade que o acordo com ANEL supõe, Tsipras poderá justificar algumas concessões imprescindíveis para tratar com os credores, alegando a necessidade de dialogar com seu sócio, por mais minoritário que este seja, e ainda que em sentido estrito não precise de seus 13 deputados, mas tão somente 2. O pacto, além disso, evita que o próximo primeiro-ministro tenha que se equilibrar na corda bamba e dota o governo de uma mais do que conveniente estabilidade.
 
Após a inevitável retórica de campanha, chega a Tsipras a hora do pragmatismo. Já percorreu parte desse caminho, como demonstra o fato de que sua vitória acachapante não prejudicou os mercados, que abriram ligeiramente em baixa, mas que quando estou fechando este texto, por volta do meio dia, inclusive chegaram no verde. Não é só o fato de sua vitória ter sido menosprezada. Tampouco que compensasse o anúncio de Mario Draghi, na semana passada, de uma compra massiva da dívida. É sobretudo que, nas últimas semanas, Tsipras multiplicou seus contatos e mensagens tranquilizadoras, em todos os níveis, o que lhe tirou a espada flamejante e o fez saltar do cavalo do Apocalipse no qual os profetas da austeridade e das cortes o pintavam.
 
O problema é que, se os poderes fáticos encarnados pela troika concederem à Grécia o alívio de que necessita às custas de modificar uma política que, até agora, defenderam como sem alternativa, isto é, se tratam como uma excepção este país de glorioso e ilustrado passado, outros em situação parecida (embora não tão extrema) poderiam exigir o mesmo trato. Como Portugal, Itália, certamente a Espanha, e sem excluir a França, onde o teórico social-democrata François Hollande renegou seu programa eleitoral para passar pelo aro manejado pela senhora Merkel.
 
Os paralelismos com a situação da Espanha são tão óbvios, e se repetiram tanto, que quase dá vergonha de apontá-los. Basta dizer que, no país europeu que tem o partido mais parecido ao Syriza, o que acontecer na Grécia nos próximos meses pode ter uma enorme transcendência nos numerosos processos eleitorais que marcarão 2015. Ainda que a Espanha não seja a Grécia – um clichê bombardeado por todo canto --, a sorte do Podemos, e com ela o rumo que o país seguirá nos próximos anos, não estarão alheios ao resultado da difícil prova de fogo a que Tsipras se submeterá. É certo que ele já se deu conta de que o pior está por vir.
 
 
*Ex-redator-chefe e ex-correspondente em Moscou do El País, membro do Conselho Editorial do PUBLICO até o desaparecimento da sua edição em papel.

 

Tradução de Daniella Cambaúva





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