Pelo Mundo

Participação eleitoral, classes sociais e as táticas da esquerda

 

28/10/2020 18:51

(Reprodução/El Clarin)

Créditos da foto: (Reprodução/El Clarin)

 

O contundente resultado deste plebiscito de 25 de outubro no Chile constitui um marco político de grande importância. Ela lança luzes importantes sobre as posições que as diferentes classes sociais estão assumindo para enfrentar a crise do atual esquema de dominação burguesa no país.

Há comentaristas de esquerda que – com base nos números da abstenção, e de acordo com a análise da ciência política liberal – minimizaram os resultados.

Embora seja verdade que, apesar de ter aumentado a participação eleitoral, atingindo o maior recorde desde que existe o voto voluntário, esse aumento não resultou em uma participação significativamente superior à registrada no segundo turno presidencial de 2017.

No entanto, como as altas taxas de abstenção têm sido uma constante nas eleições chilenas desde que o sistema foi estabelecido, a novidade desse plebiscito não deve ser buscada, então, no grau de participação – elemento que, em última análise, também é irrelevante para determinar a natureza do poder político na sociedade capitalista, já que o poder da burguesia como classe dominante não surge do voto popular, que constitui apenas um mecanismo para resolver as diferenças entre suas frações.

Na verdade, a novidade desta vez está na mudança na composição experimentada pelo eleitorado, e não em seu número total. Assim, por exemplo, o aumento do componente juvenil foi uma das características que mais se destacou, e que foi decisiva para a esmagadora vitória obtida pela opção “Aprovo”, que determinou início do novo processo constituinte.

Mas o fato mais marcante foi a polarização social que a preferência por uma ou outra opção deixava nua. Nessa linha, o aumento da participação eleitoral nos distritos mais humildes se destacou de forma chamativa. De fato, nas comunas da Grande Santiago, observou-se uma correlação positiva entre a componente trabalho e o aumento da participação eleitoral, em comparação com o segundo turno presidencial de 2017. O caso mais notável foi o da comuna de La Pintana, na Região Metropolitana de Santiago. Em outras palavras, nas regiões onde há maior percentagem de pessoas da classe trabalhadora houve maior aumento da participação eleitoral, segundo dados do Servel (Serviço Eleitoral do Chile).

A classe trabalhadora constitui a maior classe social do país andino, com cerca de 45% do total da população, e portanto é a que tem maior peso nos extratos populares. Uma tendência semelhante foi observada em outra classe popular: a tradicional pequena burguesia, embora isto se deva à sua alta heterogeneidade – que vai do comércio informal itinerante a pequenos negócios estabelecidos, que não contratam trabalho assalariado. Nesse outro caso, a correlação é muito mais volátil. Esta classe está localizada, segundo as estimativas, dentro das três mais numerosas do capitalismo chileno (entre 18 e 20% da população total), e que com a atual crise econômica, deve certamente ter aumentado seu peso.

A classe trabalhadora vinha aumentando seus níveis de atividade desde o ano passado, principalmente em função da revolta social iniciada em 18 de outubro de 2019. Conforme afirma o COES (Centro de Estudos de Conflitos e Coesão Social do Chile), no Relatório de Greves Trabalhistas no Chile 2019, as paralisações aumentaram em 68% no país no ano de 2019, em comparação com o registrado em 2018, quebrando assim a tendência de queda ocorrida nos dois anos anteriores.

Nesse sentido, o aumento da participação dos trabalhadores no eleitorado mostra um posicionamento incipiente, mas claro, dessa classe diante da profunda crise política que a burguesia chilena atravessa.

O redesenho mais importante da arquitetura institucional do Estado nos últimos tempos no Chile está se aproximando, o que significará uma mudança iminente no regime político de dominação burguesa. Cabe à esquerda processar a ação política da classe trabalhadora na conjuntura diante da encruzilhada da burguesia. É essencial que ela esteja presente como ator autônomo e independente, com um programa próprio contra as diferentes alternativas que a burguesia tentará impor.

Essa missão não é fácil, ainda mais no estado atual em que se encontram as expressões mais radicais da esquerda chilena. A tática formulada em slogans como “não voto, organizo” ou “todo o poder às assembleias territoriais”, promovidas por alguns setores progressistas para o plebiscito deste 25 de outubro, revelaram ser estéreis e impotentes ao extremo.

As causas podem ser encontradas em dois erros fundamentais de avaliação da conjuntura realizados pelos que defenderam este tipo de “tática”. Em primeiro lugar, atribuem à burguesia uma unidade político-programática que atualmente ela não possui. Assim, os estrategistas por trás desse tipo de slogan colocam ênfase em todos os acordos alcançados pelos partidos burgueses, descrevendo maliciosamente o plebiscito e o processo constituinte como simples manobras planejadas para enganar o povo.

O fato é que, embora o processo constituinte surja de um acordo entre os partidos da burguesia, diante do cenário imposto pela mobilização popular, este não deixa de expressar as enormes vacilações e o vácuo programático que prevalece dentro da classe dominante para resolver suas próprias disputas. Prova disso é o oportunismo mais vulgar com que os partidos burgueses debatem cotidianamente e, em geral, o deplorável estado em que se encontram os aparatos ideológicos (Igreja, lideranças sindicais, sistema de ensino, etc.) de dominação burguesa, que os tornam incapazes de unir esta classe e arrastrar outros com eles. É por isso que até a saída atual é confiável, em comparação com a que foi imposta no plebiscito de 1988, que terminou com a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), quando aquelas instituições mostraram maior solidez.

Em segundo lugar, com este tipo de “táticas” pretende-se fugir por um mero exercício retórico da vontade à questão do Estado, lugar por excelência - gostemos ou não - do poder político e ponto de condensação das relações de força entre as diferentes classes sociais.

O que é relevante nesta área é que, apesar das vacilações dentro da burguesia chilena, do atrito entre os diferentes ramos do aparato estatal e alguns aparatos ideológicos que se deterioraram, finalmente, o próprio aparato estatal não foi quebrado – as forças repressivas continuam se aglutinando em torno do governo –, nem as classes populares conseguiram erguer ainda um contrapoder capaz de levar a cabo tal colapso.

*Publicado originalmente em 'Punto Final Blog' | Tradução de Victor Farinelli

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