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Pedidos de Trump por ''Lei e Ordem'' em Kenosha: um supremacista branco na Casa Branca.

 

15/09/2020 15:48

(Reprodução/Democracy Now)

Créditos da foto: (Reprodução/Democracy Now)

 
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AMY GOODMAN: Vamos conversar com o professor Ibram X. Kendi da Universidade de Boston, diretor fundador do Centro de Pesquisa Antirracista da Universidade de Boston, colaborador no blog The Atlantic, autor de muitos livros, incluindo “Stamped from the Beginning: The Definitive History of Racist Ideas in America”, que ganhou o Prêmio de Livro Nacional na categoria não ficção, e “How to Be an Antiracist”.

Recentemente, milhares de pessoas se reuniram para a 57ª Marcha em Washington no National Mall para um evento organizado pela Rede Ação Nacional. Entre as pessoas que discursaram, estavam membros das famílias de vítimas da brutalidade policial. Esse é Jacob Blake Sr., o pai de Jacob Blake, depois o irmão de George Floyd, Philonise Floyd.

JACOB BLAKE SR.: Vamos entrar com processo hoje. Vamos processar o racismo sistemático. Vamos dar entrada agora. Culpados! Culpados! Culpados! Racismo contra todos nós. Culpados! Culpados! Racismo contra Trayvon Martin. Os consideramos culpados! Racismo contra George Floyd. Os consideramos culpados! Racismo contra Jacob Blake, Abdul Duwala. Culpados! Não vamos mais tolerar!

PHILONISE FLOYD: Eu queria que George estivesse aqui agora para ver isso. É por vocês que estou marchando. Estou marchando por George, Breonna, Ahmaud.

AMY GOODMAN: Vamos conversar com Ibram X. Kendi sobre a importância do que tem acontecido e a fala do presidente Trump sobre ir à Kenosha, Wisconsin, mesmo com a rejeição do governador de Wisconsin, Evers, e do primeiro vice-governador afro-americano, Mandela Barnes.

Você pode falar sobre os últimos acontecimentos, Professor Kendi, de Kenosha à Portland à convenção Republicana à questão da supremacia branca nesse país? Você usou a metáfora do câncer para descrever o que estamos enfrentando nos EUA hoje.

IBRAM X. KENDI: Os EUS estão enfrentando uma forma de câncer metastático, uma forma de racismo metastático, que, literalmente, se espalhou por todas as partes do corpo político. E como sabemos disso? Porque as desigualdades e injustiças raciais estão em todos os lugares a nossa volta. E vemos a dor decorrente desse racismo metastático. Vemos as pessoas que estão perdendo suas vidas.

E então temos um presidente que está alegando que isso não existe. Sabe, assim como Jacob Blake Sr. culpa os EUA, os estadunidenses, particularmente os estadunidenses como Trump, estão dizendo, “não, somos inocentes, antirracistas”. E, enquanto isso, muitas pessoas estão morrendo de Covid-19 por causa da administração, é claro, tentando ignorar a situação, enquanto muitos negros, pardos e indígenas estão morrendo em níveis desproporcionais. Enquanto isso, as pessoas dizem que não são racistas. Estão negando a existência dessa disseminação.

E o que acontece quando você nega a existência do câncer, da metástase do câncer, ou até da disseminação do racismo? Só vai piorar. E vemos o que estivemos testemunhando esse verão, só vai piorar até encararmos, admitirmos, reconhecermos que, de fato, temos o racismo que se espalhou por todas as partes do corpo político.

Mas então, temos as pessoas que têm consciência disso, mas não querem receber o tratamento, porque ele é doloroso e desconfortável. Sim, o tratamento será doloroso ou desconfortável, mas é a única coisa que vai nos dar, enquanto nação e enquanto povo, uma chance para viver.

AMY GOODMAN: Temos a situação em Kenosha onde um policial branco atirou à queima roupa em Jacob Blake sete vezes. Jacob Blake, cujo pai e avô também se chamam assim. Ele era um pastor conhecido em Chicago que liderava o movimento de desagregação habitacional em uma organização que ele ajudou a fundar chamada NOW, ele tem um complexo habitacional com seu nome, o Jacob Blake Manor. O jovem Jacob de 29 anos, agora paralisado, cresceu e frequentou a escola em Evanston, onde seu avô realizava seus trabalhos de direitos civis e ministério.

E então temos Kyle Rittenhouse, o jovem de 17 anos, que se entregou. Eu enfatizo isso porque ele estava nas ruas de Kenosha. Ele supostamente atirou em dois manifestantes do Black Lives Matter, os assassinou naquela terça à noite. Isso durante a convenção Republicana. Nem a administração Trump, nem Pence e nem Trump mencionaram isso. Ele estava ilegalmente portando uma arma longa, uma AR-15, pelas ruas com suas mãos para cima. A polícia não o parou, de acordo com muitos manifestantes. “Ele apenas assassinou as pessoas.” Agora ele foi acusado de homicídio intencional de primeiro grau. Mas ele dirigiu para Illinois e se entregou. Foi isso que fez ele parar. O que acha disso? Ele é membro de uma milícia branca, 17 anos, aspirante a policial.

IBRAM X. KENDI: Primeiramente, o fato de que ele é um aspirante a policial demonstra o tipo de pessoa, particularmente o tipo de homem branco, que é atraído pelo policiamento estadunidense. E então, a pergunta se torna: porque tantos homens brancos racistas e jovens que querem atirar, matar e se safar estão sendo atraídos pelo policiamento estadunidense?

Mas o que eu também considero fascinante é que é impossível para uma pessoa negra segurar uma AR-15 e andar em direção à polícia para longe de pessoas dizendo que ele acabou de atirar em alguém, e a polícia deixá-lo ir. Digo, isso seria impossível. Mas é possível com pessoas brancas, porque mesmo quando estão armadas, parece que estão desarmadas para os policiais. Mas quando pessoas negras estão desarmadas, estão armadas e perigosas. E eu acho que essa é fundamentalmente a doença das ideias racistas, que permite que muitas pessoas que estão desarmadas e que certamente não são perigosas morram, enquanto muitas pessoas que são brancas e perigosas e que estão armadas vão para suas casas e durmam em suas camas sem serem assediadas pela polícia.

AMY GOODMAN: Em resposta a Jacob Blake ter sido algemado à sua cama de hospital, você tuitou, “uma alegoria do que o racismo fez com as comunidades negras. Paralisadas econômica e politicamente. Lutando para se recuperar. Mas inexplicavelmente ainda acorrentadas”.

IBRAM X. KENDI: Como muitas pessoas, eu fiquei indignado. Jacob não havia cometido nenhum crime. Ele levou sete tiros nas costas. Ficou paralisado. E então, depois de tudo, ele foi acorrentado à sua cama como se ele fosse o criminoso. E, de novo, isso é parte do problema, é a vítima negra, a pessoa que estava desarmada e que foi alvejada nas costas sete vezes, que ainda é tida pelos EUA, pelo estado ou pelos policiais como a criminosa, e por causa da sua negritude. De fato, não importa. E é por isso que eu acho que as pessoas estão tão indignadas, porque a vida dele não importa. Mesmo depois de ser vítima de tiros e ficar paralisado, ele ainda é visto como alguém que é perigoso e que precisa ser acorrentado.

AMY GOODMAN: Como que tem sido o trabalho dos manifestantes antirracistas nas últimas décadas, nos últimos séculos – o que você acha que as pessoas deveriam estar fazendo agora nesse período absolutamente crítico, que alguns chamam de momento mais importante na história dos EUA, especialmente nessa eleição?

IBRAM X. KENDI: Bom, eu penso que ninguém deve se enganar com a retórica de lei e ordem vinda da administração Trump. Quando eles falam de lei e ordem, estão falando sobre a lei e ordem do racismo e da morte negra. É o que querem. E se você apoia a lei e a ordem, então você apoia a ordem da morte negra e do racismo.

Mas, mais importante que isso, deveríamos nos unir a organizações e apoiar organizações que estão desafiando o racismo, a política racista e a supremacia branca. Sabe, certamente deveríamos estar pensando seriamente sobre votar em pessoas que estão se esforçando para serem antirracistas. Para além disso, devemos achar uma maneira de sermos civicamente engajados.

Cada um de nós tem poder. Temos o poder de resistir. Temos o poder de resistir à política. Temos o poder de resistir aos legisladores. E uma das principais diretrizes que os ativistas antirracistas têm seguido por séculos, décadas, anos, meses, é que eles têm o poder, porque o poder racista tem tentado nos convencer que não temos poder, seja os escravizados ou pessoas que, hoje, estão tentando entender o que podem fazer em face a esse racismo destrutivo. Nunca pense que você não tem o poder. E para termos poder devemos nos unir, nos organizar, desafiando por meio da nossa força organizacional.

AMY GOODMAN: Você consideraria o presidente Trump um supremacista branco?

IBRAM X. KENDI: Ah, sem dúvidas. Digo, alguém consegue dizer que ele não é um supremacista branco, baseado no que ele diz e no que ele faz, e que ele não é racista? Se uma pessoa insiste em políticas que conduzem para a supremacia branca, então essa pessoa é supremacista branca.






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