Pelo Mundo

Pilotos dos vôos da morte mais perto do juri

12/11/2011 00:00

Um avião Skyvan, um doss modelos usados para lançar pessoas sequestradas vivas ao mar durante a última ditadura argentina.

Créditos da foto: Um avião Skyvan, um doss modelos usados para lançar pessoas sequestradas vivas ao mar durante a última ditadura argentina.
Três ex pilotos dos Skyvan dos quais se jogaram seqüestrados vivos ao mar durante a última ditadura podem compartilhar com Jorge “el Tigre” Acosta, Juan Carlos Rolón & Cia o banco dos réus do próximo julgamento por delitos de lesa humanidade na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). A Sala II da Câmara Federal portenha confirmou o processo com prisão preventiva dos ex-oficiais Enrique De Saint George, Mario Daniel Arru e Alejandro D’Agostino, identificados em uma investigação do Ministério Público Fiscal como pilotos do vôo noturno de 14 de dezembro de 1977 no qual teriam sido executadas as freiras francesas, as fundadoras de Madres de Plaza de Mayo e os familiares seqüestrados na Igreja da Santa Cruz.

Continua livre e impune na cidade de Necochea o superior dos aviadores, prefeito geral Hilario Ramón Fariña, ex-chefe da Divisão Aviação do Distrito Naval durante a ditadura, denunciado desde 1984 à Conadep como responsável de “jogar ao mar as pessoas seqüestradas e torturadas na ESMA dos aviões Skyvan”.

A resolução da Câmara Federal que confirma os processos ordenados pelo juiz federal Sergio Torres leva as assinaturas de Martín Irurzun e Eduardo Farah e incluem outros dois acusados: o advogado Gonzalo Torres de Tolosa, ex-defensor de seus companheiros da ESMA, denunciado pelo ex-capitão Adolfo Scilingo como quem lhe alcançava as pessoas adormecidas para jogar no mar, e o suboficial naval reformado Rubén Ricardo Ormello, que relatou sua atuação nos vôos nos anos 80 aos seus companheiros de trabalho. O ex-mecânico da Marinha trabalhou até o dia de sua detenção na companhia aérea Aerolíneas Argentinas, o mesmo acontecendo com Arru e De Saint George, que eram comandantes de vôos internacionais.

O capitão Emir Sisul Hess, que confessou seus crimes privadamente nos anos 90, é, no momento, o único imputado pela participação direta nos vôos que já está em mãos do Tribunal Oral Federal nº 5, o mesmo que condenou o primeiro grupo de 16 repressores da ESMA e que, em meados de 2012, deve começar o segundo processo oral e público. No final de setembro, a Câmara Federal confirmou o processo de Julio Alberto Poch, o ex-piloto que confessou seus crimes aos colegas da companhia aérea holandesa Transavia.

Do tempo que demore levar a julgamento e do critério de acumulação de causas que adote o tribunal, presidido pelo juiz Daniel Obligado, dependerá que Poch e os cinco acusados, que desde esta semana têm processo firme, sejam julgados a partir do próximo ano ou recém em um terceiro processo, que no ritmo atual não começaria antes de 2015.

De Saint George, Arru e D’Agostino foram indiciados por crimes de lesa humanidade na Procuradoria Geral da Nação a partir do estudo de 2800 planilhas de vôo dos Skyvan do Distrito Naval, realizados pela Unidade Especial, e de testemunhos de ex-suboficiais e civis que prestavam serviços para o Distrito Naval, obtidos pelo fiscal federal Miguel Osorio. Entre os que tinham “a faca e o queijo na mão” com os vôos da morte, segundo um ex-prefeito que declarou na causa, também estavam os oficiais Raúl Alberto Lanzi, que está radicado na cidade de Concepción Del Uruguay; Roberto Antonio Salinas, atual professor do Serviço de Aviação do Distrito Naval e Raúl Novo, ex-comandante da PA.

A impunidade de Fariña é difícil de explicar. Seu nome completo figura desde janeiro de 1984 em uma carta enviada ao presidente Raúl Alfonsín pela “oficialidade jovem e não corrupta do Distrito Naval” sobre camaradas que “atuaram na repressão anti-subversiva dentro e fora da ESMA”. Ele é indicado com todas as letras como “quem se encarregava de jogar dos aviões Skyvan ao mar as pessoas seqüestradas e torturadas na ESMA”.

Fariña conduzia a Divisão Aviação (DAV), que era integrada por apenas quatorze pilotos e uma dúzia de mecânicos. Entrevistado por Página/12, primeiro negou os vôos e depois relativizou: “De tudo o que se diz será cinqüenta por cento de verdade e outro cinqüenta de fantasia”. Sua imputação está nas mãos do juiz Torres, que instrui a mega causa da ESMA, e do fiscal federal Eduardo Taiano, que, consultado para esta reportagem, não lembrou ter pedido sua citação para prestar depoimento.

De Saint George, Arru e D’Agostino eram em 1977 oficiais graduados. Seus superiores imediatos eram Salinas, chefe da divisão Operações, “incondicional” segundo as qualificações de Fariña, e Roberto Zaldúa, chefe da divisão Logística. D’Agostino era chefe da subdivisão “serviços gerais” da DAV e chefe dos mecânicos e de manutenção no aeroporto Jorge Newbery. Dezessete dias após o vôo que o distingue dos pilotos dos Skyvan que continuam em liberdade, foi elogiado por Zaldúa pelo “domínio de suas reações emocionais” e porque “ainda em situações críticas se mantém sereno”. Em 2003 morreu o mecânico que participou do vôo noturno de 14 de dezembro de 1977, ajudante de primeira David “el Gallego” Fernández que, segundo seus superiores, tinha um “elevado conceito da correção e da fidelidade”.

Tradução: Libório Junior

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