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Plano de estímulo de Trump: ainda entendendo tudo errado

O presidente parece não saber o que está fazendo

22/03/2020 13:03

O presidente Donald Trump realiza uma conferência de imprensa anunciando que o vice-presidente Mike Pence liderará o esforço de combate à disseminação do coronavírus em Washington, DC, em 26 de fevereiro de 2020. (Yasin Ozturk/Anadolu Agency via Getty Images)

Créditos da foto: O presidente Donald Trump realiza uma conferência de imprensa anunciando que o vice-presidente Mike Pence liderará o esforço de combate à disseminação do coronavírus em Washington, DC, em 26 de fevereiro de 2020. (Yasin Ozturk/Anadolu Agency via Getty Images)

 

Donald Trump tem, consistentemente, decepcionado o país ao tratar do coronavírus. Devido à resposta deficiente de Trump na saúde pública, até o secretário do Tesouro Steve Mnuchin reconhece que estamos enfrentando o pior colapso econômico desde a Grande Depressão. Isso além da perspectiva de que dezenas de milhões de pessoas sejam infectadas com o coronavírus e centenas de milhares, ou até milhões, morram.

É animador que o governo Trump esteja tomando medidas para responder aos prejuízos econômicos, mas, pelo que foi divulgado, seu plano é mal elaborado. Em primeiro lugar, não ouvimos nenhuma discussão sobre o governo federal assumir um papel direto de prover os recursos necessários para lidar com a crise.

Isso significaria, por exemplo, que o Corpo de Engenheiros do Exército estabelecesse instalações hospitalares de emergência para abrigar o grande número de pacientes em urgência de cuidados. Isso também significaria aumentar o fornecimento de respiradores e outros equipamentos médicos, com o governo preparado para trabalhar diretamente com as fábricas aqui e em outros lugares para remover os obstáculos ao aumento da produção. Aparentemente, Trump disse aos governadores para encontrar esses equipamentos por sua própria conta.

Incrivelmente, os testes ainda não estão amplamente disponíveis e muitas pessoas em risco não conseguem realizá-lo. O governo também deveria estar treinando novos profissionais de saúde para realizar tarefas de execução mais simples, como fazer leituras de temperatura e pressão sanguínea, trocar de roupa de cama e limpar superfícies para o padrão necessário, para liberar tempo para enfermeiras e outros profissionais mais altamente treinados, que estarão extremamente sobrecarregados.

A peça central do pacote de estímulo de Trump, aparentemente, é enviar cheques da ordem de US$ 2.000 a cada adulto nos Estados Unidos. Esse pagamento pode ser útil para muitas pessoas que perderam o emprego ou tiveram um declínio em horas trabalhadas, mas não será eficaz como forma de estímulo para sustentar a economia durante a crise.

Na Grande Recessão, bem como em crises anteriores, enviar dinheiro para as pessoas foi uma boa maneira de impulsionar a economia, pois a maioria das pessoas gastaria a maior parte do dinheiro. É improvável que seja este o caso neste momento. A razão pela qual as pessoas não estão gastando é porque têm medo de gastar. Eles não querem ir a restaurantes, filmes ou fazer viagens de avião. E isso continuará sendo verdade mesmo se dermos a todos um adicional de US$ 2.000.

Por outro lado, à medida que as pessoas perdem seus empregos, dezenas de milhões de pessoas não terão dinheiro suficiente para pagar seu aluguel, sua hipoteca ou comprar comida. Para essas pessoas, US$ 2.000 não irão muito longe. É o equivalente a somente duas semanas e meia de salário para alguém que ganha US$ 20 por hora, aproximadamente o salário médio na economia. Sem outra assistência, essas pessoas correm o risco de perder sua casa ou apartamento.

Seria muito mais útil ter um pacote de estímulos focado em manter as pessoas empregadas. A Dinamarca fornece um modelo útil para essa política. O governo arcará com 75% dos salários dos trabalhadores em indústrias que sofram um colapso na demanda, como companhias aéreas ou restaurantes. A empresa deve pagar os outros 25%, para que o trabalhador receba integralmente.

Esse sistema tem a grande vantagem de os trabalhadores manterem vínculos com as empresas. Como resultado, quando o pior da pandemia tiver passado, as empresas poderão aumentar rapidamente a capacidade, em vez de precisar contratar e treinar uma nova força de trabalho. As porcentagens que cabem ao governo e aos empregadores podem ser diferentes para os EUA, do que aquelas que a Dinamarca está usando, mas o princípio é sólido.

Aparentemente, o governo Trump também quer socorrer o setor aéreo, e talvez outros também. O Congresso deve rejeitar tais propostas imediatamente. As companhias aéreas americanas gastaram 96% do fluxo de caixa livre na última década comprando suas ações de volta e 0% preparando-se para uma pandemia. Os contribuintes não devem ser convidados a ficar com a conta desse fracasso de liderança corporativa.

Se o tipo de suporte descrito acima não for suficiente para permitir que a indústria aérea sobreviva à crise, a rota de alívio deverá ser uma falência programada, como foi feito com a indústria automobilística na Grande Recessão. Isso significaria que os acionistas perderiam seu patrimônio. Os trabalhadores teriam seus benefícios, como pensões, associação ao sindicato e benefícios de assistência médica aposentados, protegidos.

Em troca do dinheiro do governo estar sendo usado para apoiar esse tipo de falência, outras condições devem ser impostas, como limites aos salários dos CEOs. O governo não deve subsidiar os níveis obscenos de desigualdade que vemos na economia hoje.

Deveríamos pensar em um pacote de estímulos que, antes de mais nada, fizesse de tudo para limitar a propagação do vírus e minimizar o sofrimento e as mortes das pessoas que contraem a doença. Segundo, deveríamos nos concentrar em minimizar a dor sofrida pelos trabalhadores que enfrentam a perda de emprego e renda sem terem culpa por isso. Por fim, deveríamos tentar reverter o tipo de corrupção que levou à enorme redistribuição, para os níveis mais altos, de renda das últimas quatro décadas. O plano Trump falha nas três áreas.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de César Locatelli

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