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Polícia de Nova York ataca cinegrafista com spray de pimenta

Enquanto Frierson filmava, a polícia o borrifou spray de pimenta diretamente no seu rosto. Ele continuou a filmar enquanto lutava para chegar à calçada chorando em agonia pela dor

07/06/2020 15:47

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Créditos da foto: (Reprodução)

 

Enquanto a revolta nacional em defesa das vidas negras continua, manifestantes estão gravando vídeos da brutalidade policial nas ruas. Conversamos com Chris Frierson, um documentarista e cinegrafista afro-americano, que estava filmando um protesto do Black Lives Matter no sábado, no Brooklyn, Nova York, quando a polícia atacou os manifestantes.

Enquanto Frierson filmava, a polícia o borrifou spray de pimenta diretamente no seu rosto. Chris continuou a filmar enquanto lutava para chegar à calçada chorando em agonia pela dor. Em segundos, alguém pegou o braço dele e o guiou a voluntários médicos que vieram em seu auxílio. Nós transmitimos suas imagens e falamos sobre o incidente.

Amy Goodman: Esta é a reportagem da quarentena. Sou Amy Goodman, abordarmos agora a ameaça do presidente Trump de dar uma resposta militar aos protestos em todo o país e como a polícia já está usando armas de nível militar contra manifestantes.

Em um minuto, falaremos com o autor do livro “Distintivos sem Fronteiras: como a contrainsurgência global transformou o policiamento norte-americano”. Mas, primeiro, recebemos Chris Frierson, um documentarista e cinegrafista afro-americano, que estava filmando um protesto do movimento Black Lives Matter no sábado, no Brooklyn, Nova York, quando a polícia foi para cima dos manifestantes.

Enquanto ele filmava, a polícia jogou gás de pimenta diretamente no seu rosto e nas lentes. Chris continuou filmando enquanto lutava para chegar à calçada, gritando em agonia pela dor. Em segundos, alguém pegou seu braço e o guiou a médicos voluntários, que vieram em seu auxílio.

Sim, ele filmou o que aconteceu com ele, compartilhou conosco. Este é o clipe. Ouça atentamente.


Amy Goodman: Esse é Chris Frierson, cineasta e documentarista que recebeu o Prêmio Peabody, filmando um protesto do movimento Black Lives Matter, no sábado no Brooklyn para o premiado documentarista Eugene Jarecki, quando a polícia atacou os manifestantes. Enquanto ele filmava, eles borrifaram spray de pimenta no seu rosto e nas lentes. Em segundos, ele se filmou recebendo ajuda de médicos voluntários.

Chris, é bom vê-lo sentado e que seus olhos não estão fechados. Fale exatamente sobre o que aconteceu. Por que a polícia avançou em você quando estava filmando diretamente?

Chris Frierson:: O que aconteceu foi… era um protesto bastante pacífico. Nada estava acontecendo. Enquanto nos movíamos pelo Brooklyn, os policiais começaram a nos cercar. E num piscar de olhos, havia uma mulher na multidão, que eu filmei, que meio que correu, jogou uma garrafa de água.

Eu me virei, e assim que me volto, havia um grupo de policiais que começou a correr. Eles simplesmente começam a correr em direção a uma multidão pacífica e começam a pulverizar as coisas. Eu só vi esse líquido voando para mim. Foi muito rápido para eu entender o que estava acontecendo, mas eu estava meio que… como você pode ver, fiquei incapacitado a partir desse ponto.

Amy Goodman: Então, Chris, sempre se descreve essa maneira de controle de multidões como não letal. Descreva como é receber spray de pimenta no rosto.

Chris Frierson:: É a segunda experiência mais dolorosa que já tive em toda a minha vida. É… você simplesmente não sabe o que está acontecendo. E acho que é mais do que dor. É simplesmente não saber o que está acontecendo, de repente, porque você perde a visão. Você foi roubado dos seus sentidos. Você só… você não tem ideia clara do que está acontecendo. E, felizmente, como você vê nesse vídeo, as pessoas vieram em meu auxílio imediatamente. Se não fosse por isso, não sei o que eu teria feito.

Amy Goodman: Foi incrível vê-los, esses médicos de base no local.

Chris Frierson:: Verdade.

Amy Goodman: Explique o que eles estavam jogando no seu rosto. Eles sabiam exatamente o que fazer. Eles tinham o equipamento certo para eles. Eles também, é claro, podem receber spray de pimenta.

Chris Frierson:: Certo. Em segundos, eles me puxaram para o lado. Estou na calçada e não estou mais na rua. Solução salina e água. E foram mais as palavras deles do que… quer dizer, isso parece, não importa… mas foram as palavras que me ajudaram tanto quanto a água e o leite que foram derramados em meus olhos. Eram eles só me tranquilizando que - você pode ouvir - que é temporário, você vai ficar bem e tudo vai ficar bem. Esse é o poder de muitas pessoas nesses protestos, eu acho… essa é a beleza do espírito deles. São pessoas tentando se ajudar.

Amy Goodman: Isso não foi generalizado, o ataque a você. A polícia atirou em você à queima-roupa. Você é um homem negro que está cobrindo um protesto do Black Lives Matter. Você tem uma câmera enorme bem ali. E eles te tiram da ação com aquele spray de pimenta. Isso também em meio à pandemia, em que os homens afro-americanos correm mais risco de sofrer esse ataque respiratório, certo? A COVID-19.

Chris Frierson:: Certo. Quer dizer, eu sinto que pessoalmente não posso dizer que eles me pegaram por causa da cor da minha pele. Eu sei que isso provavelmente não ajudou. Mas o que eu percebi, quando vi aqueles policiais correndo em minha direção, foi que eu via um medo estranho nos olhos deles, mesmo que não houvesse nada a temer do lado deles, na minha opinião. Não havia realmente nada acontecendo.

E então, eu meio que… quando eu internalizei, não estou bravo com aquele cara que fez isso. Eu simplesmente não estou. Eu o vejo como alguém que é produto da falha sistemática em um sistema e policiamento. Acho que essa é a principal coisa que precisa ser abordada. Tipo, sinceramente não estou bravo com esse cara. Ele apenas… para isso que ele é treinado.

Amy Goodman: E, Chris, enquanto terminamos, você…

Chris Frierson:: E isso é lamentável. Sim.

Amy Goodman: Você está de volta às ruas, filmando?

Chris Frierson:: Sim. Estive na rua ontem à noite, pacífico, até que deixou de ser . E no dia anterior, a mesma coisa. Mas, novamente, isso remonta aos fracassos sistemáticos do que é a polícia da cidade de Nova York, e acho que são cidades do país inteiro. Esses caras são trabalhadores. E esses caras, em grande parte, estão sendo instruídos a fazer coisas que não são apropriadas.

Amy Goodman: Chris Frierson, eu quero -

Chris Frierson:: Mas eu estava de volta [às ruas] - sim.

Amy Goodman: Quero agradecer a você por se juntar a nós e, graças a Deus, você está bem agora. É surpreendente que você esteja nas ruas depois de ser pulverizado diretamente no rosto pela polícia. Documentarista e cinegrafista.

*Publicado originalmente em 'Democracy Now!' | Tradução e legendagem de César Locatelli

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