Pelo Mundo

Pompeo, Gantz e o fim da solução dos dois Estados

 

03/05/2020 14:05

(Ilustração de Nathaniel St. Clair)

Créditos da foto: (Ilustração de Nathaniel St. Clair)

 
Michael Richard Pompeo está se tornando quase tão hipnótico quanto Donald Trump. O que lhe falta em loucura, ele compensa com ignorância deliberada ou a boa e velha hipocrisia.

Talvez você culpe Trump por incapacidade mental quando ele entrega o Oriente Médio para o seu genro imbecil; Pompeo, no entanto, sabe o que está fazendo. Então lá estava ele novamente, sugerindo que os iranianos estavam quebrando uma resolução solene da ONU ao lançar um míssil balístico – enquanto ele mesmo ignorava uma resolução igualmente solene da ONU, mas muito mais histórica e que pedia pela retirada de tropas israelenses do território ocupado da Palestina. Assistindo sua performance como oportunista chefe, você sabia que Pompeo iria se safar com isso.

Nenhum jornalista minimamente indicou que poderia haver dois pesos e duas medidas na preocupação repentina do secretário de Estado dos EUA em aderir à regulamentação da ONU logo após declarar que é “uma decisão israelense” se quiserem anexar grandes partes da Cisjordânia ocupada. Além disso, a resolução 2231 da ONU, pedindo ao Irã para se abster por até oito anos dos trabalhos com misseis balísticos destinados a entregar armas nucleares, tem somente cinco anos. A resolução 242 da ONU, aprovada imediatamente após a guerra de 1967 no Oriente Médio – com a qual Israel capturou o leste de Jerusalém, a Cisjordânia, Gaza, as Colinas de Golã e a Península do Sinai – tem mais de 50 anos. Poeira. Teias de aranha.

Não é que Pompeo não entende as implicações de tudo isso. O inútil “acordo do século” concebido pela administração Trump permite que Israel anexe o Vale do Jordão – 30% da Cisjordânia – e aceita a soberania israelense sobre todas as colônias ilegais israelenses construídas em território árabe em troca de dinheiro para os palestinos. Permite roubos de terras posteriores depois de quatro anos e aceita a soberania israelense sobre toda a Jerusalém, outorgada pela transferência da embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém dois anos atrás.

A sórdida nova “coalizão” israelense – na qual Benny Gantz traiu seus próprios apoiadores e eleitores ao concordar com uma dança das cadeiras com Benjamin Netanyahu – meramente fornece o mecanismo através do qual a liderança israelense pode decretar a execução derradeira da solução de dois Estados de Palestina-Israel. Em julho, ambos os homens poderão reivindicar vastas áreas do território árabe pretendidos ao estado palestino. A espinha dorsal da aspiração palestina de um Estado soberano será finalmente quebrada.

Sempre supondo que a “espinhal dorsal” ainda existia quando seu líder doente e geriátrico é Mahmoud Abbas de 84 anos, cuja “presidência” ilegal deveria ter expirado 11 anos atrás, e cuja resposta a esse absurdo territorial é que ele “tomará medidas apropriadas” se a anexação continuar.

Sua resposta lamentável, sua aparição em sua mesa presidencial de madeira em Ramallah com um tradutor devidamente sombrio, forneceu uma cápsula do tempo de todos os ditadores árabes fingindo ser o Rei Lear.

Mas até mesmo a decrépita ameaça de vingança shakespeariana – “o que eles são, ainda não sei, mas hão de ser... os horrores do mundo” - é mais eloquente do que a resposta “apropriada” de Abbas, que certamente os fará tremer em Jerusalém e Washington.

Gantz, mais Fausto do que Lear, disse repetidamente que as futuras apropriações de terra devem ter “consenso internacional” – agora reduzido a “discussões internacionais” – e todos sabemos o que isso significa.

Adeus à resolução 242 da ONU. Adeus ao Acordo de Oslo. Adeus à solução de dois-Estados, aos roteiros e iniciativas da UE, à todos os “planos de paz” de Tony Blair – lembram dele? – e especialmente adeus às décadas de apelos presidenciais estadunidenses por moderação israelense.

Mesmo quando Hanan Ashrawi, graduanda brilhante de literatura da Universidade Americana de Beirute, bem como a única sobrevivente e representante do seu povo, fala somente da “determinação inabalável” dos palestinos em “confrontar” a agenda israelense-americana pela anexação, você sabe que Netanyahu e Gantz e Trump e Kushner – e, sim, Pompeo – vão se safar com isso.

Eu amei a parte da discrição de Pompeo, quando ele falou sobre “o cenário privado” no qual “vamos trabalhar próximos a eles [os israelenses] para compartilhar com eles nossas visões sobre isso [a anexação]”. O que ele quis dizer é que os gêmeos políticos israelenses vão algum dia em breve aparecer em Washington com uma série de mapas do seu projeto colonial na Cisjordânia – e a nação mais poderosa do mundo vai humildemente conceder sua aprovação.

Pois foi exatamente isso que Pompeo disse em palavras nunca antes ditas por um presidente dos EUA, quem dirá um secretário de Estado; palavras chatas, insípidas e maliciosas que ficarão para sempre na história como a revogação estadunidense de toda a responsabilidade pela paz no Oriente Médio.

“Quanto a anexação da Cisjordânia, os israelenses tomam essas decisões em última instância, então essa é uma decisão israelense.” É isso que Pompeo disse. E as palavras chave foram “última instância”. Os israelenses sempre terão a palavra final. Sempre tiveram, é claro. Mas agora sabemos que sempre terão.

Esqueça a “coalizão” israelense e as eleições israelenses – ou não-eleições agora – e esqueça os problemas legais de Benjamin. Esqueça até mesmo, por um momento, do coronavírus. Esse nem é o prego proverbial no caixão da paz israelense-palestina. Apropriadamente para nosso tempo, toda a aspiração palestina por dignidade, liberdade e soberania de estado foi selada em uma bolsa como um bacilo e enterrada. E não pode nunca ser aberta. Não haverá ressurreição. Por questões de segurança e saúde, a própria menção de solução de dois Estados está enterrada para sempre. Sem enlutados no túmulo, por favor.

E em meio a tudo isso, parece que devemos nos preocupar com as ameaças tuitadas de Trump contra canhoeiros iranianos e levar a sério a imposição imperial de Pompeo de que o lançamento de um míssil pelo Irã para colocar um satélite – sim, tenho certeza que era um satélite militar - no espaço é uma provável violação da resolução 2331 da ONU. Mas essa resolução ocorreu em paralelo com um acordo nuclear que Trump pessoalmente renegou.

E a resolução 242 da ONU depois do conflito de 1967 no Oriente Médico não enfatizou especificamente “a inadmissibilidade da aquisição de território por meio de guerra” a necessidade de trabalhar por uma “paz justa e duradoura em que cada estado na área possa viver em segurança”? É claro que sim. Mas em 1967 não tinha nenhum estado chamado Palestina. E ainda não há. Tem um povo chamado palestino, é claro. Mas sua terra? Bom, agora essa é uma “decisão israelense”. Em última instância.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares



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