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Por que a Venezuela não pode ser como a Colômbia

Apesar da geografia comparável e de origens semelhantes, forças muito diferentes guiaram tanto a gestão econômica quanto as estruturas políticas de Caracas e de Bogotá

23/05/2018 13:03

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Créditos da foto: GPFutures

 

Em 2013, Nicolas Maduro sucedeu Hugo Chávez como presidente da Venezuela. Nos cinco anos seguintes, Maduro se apoiou no populismo, assim como seu antecessor, enquanto arruinava a economia da Venezuela. Ainda assim, garantiu um segundo mandato no final de semana.

Colada à Venezuela está a Colômbia, um país que se destaca na América do Sul por não ter tido um líder populista de esquerda em mais de três décadas. Também tem uma economia pronta para desafiar a Argentina como a segunda maior do continente. Com tudo o que a Colômbia e a Venezuela compartilham, geográfica e historicamente, a discrepância é impressionante.

O paradoxo da abundância

A fronteira Colômbia-Venezuela é um dos poucos lugares da América do Sul sem barreiras geográficas delimitando as fronteiras nacionais. Ao norte, eles compartilham uma faixa de planícies. Ambos têm extensas costas ao longo do Mar do Caribe. Logo ao sul, os Andes se estendem da Colômbia até a Venezuela. Abaixo, a bacia do Orinoco prolonga-se do sudeste da Colômbia até a Venezuela central. Suas semelhanças geográficas criam a expectativa de que teriam vantagens e desvantagens naturais semelhantes.

Acontece que a Venezuela tem muito petróleo. A agência americana de energia Energy Information Administration (EIA) acredita que, com 307 bilhões de barris, a Venezuela tenha a maior reserva de petróleo do mundo. O petróleo financiou o desenvolvimento econômico do país nos séculos XX e XXI. O negócio era tão lucrativo que, no fim da década de 1920, atividades menos lucrativas – mesmo as essenciais, como a agricultura – começaram a perder importância. Hoje, o governo depende do petróleo para quase metade de sua receita.

Mais do que isso, o governo depende do petróleo para sua própria popularidade. Quando os preços do petróleo estão altos, como no início da presidência de Chávez, medidas populistas como altos gastos com o bem-estar são administráveis. Mas quando os preços caem, podem derrubar os governos. Os baixos preços dos anos 80 exigiram a austeridade dos anos 90, que Chávez capitalizou justamente quando os preços estavam se recuperando. Em meados de 2014, pouco mais de um ano após a morte de Chávez (Maduro era seu vice-presidente), os preços do petróleo começaram a cair, e a Venezuela está instável desde então.

A Colômbia não foi abençoada com as enormes reservas de petróleo da Venezuela (embora tenha suas próprias reservas modestas), algo que forçou o país a diversificar sua economia. Para ajudar a industrializar o país, o governo recorreu à substituição de importações, política em que o governo subsidia fortemente e protege as indústrias domésticas da competição com indústrias estrangeiras mais avançadas para que a economia local possa crescer. A industrialização e, mais tarde, os serviços tornaram-se uma parte importante da economia colombiana mas, ao contrário da Venezuela, não sufocaram outras atividades econômicas. Além das reservas modestas de petróleo, a Colômbia possui uma das maiores reservadas de carvão do mundo e terras aráveis %u20B%u20Bcapazes de produzir culturas rentáveis como o café. Além disso, o petróleo só se tornou lucrativo para a Colômbia nos anos 80. A ausência de grandes descobertas nos últimos anos manteve o petróleo como parte importante da economia colombiana, mas nunca levou o governo a abandonar uma abordagem mais equilibrada do desenvolvimento econômico.

Experiências com o colonialismo

Além das diferenças em recursos naturais, a Colômbia e a Venezuela tiveram experiências muito diferentes sob o colonialismo espanhol, que moldaram suas respectivas visões da independência. Tanto a Venezuela quanto a Colômbia faziam parte da colônia da Nova Granada na Espanha. (E, por pouco mais de uma década, a atual Colômbia, Venezuela, Equador e Panamá formaram o país independente chamado Grande Colômbia). Na segunda metade do século XVIII, a Espanha decidiu dividir suas propriedades americanas em territórios organizacionais menores para governar e explorar as colônias de forma mais eficiente. A Venezuela recebeu mais autonomia e autoridade militar. E como, por sua localização, a Venezuela é um dos primeiros grandes pontos de contato com os navios que chegam ao Atlântico, o país teve mais contato com a Europa do que outras colônias. A Colômbia, enquanto isso, foi usada principalmente como fonte de ouro e outras commodities destinadas à Espanha. Suas riquezas eram fortemente exploradas, mas suas interações externas eram mais limitadas e o território tinha menos autonomia do que o vizinho do leste.

A luta inicial pela independência começou com uma junta militar em Caracas e era centrada na visão de Simon Bolívar de um Estado pan-americano. O modelo político de Bolívar combinava monarquia, republicanismo e federalismo na tentativa de encontrar o equilíbrio certo entre controle, estabilidade e unidade. Ele temia que o excesso de liberdade entre as massas iletradas resultaria em anarquia e, portanto, acreditava na necessidade de uma autoridade central forte. Eram as opiniões de um homem criado na elite de Caracas. Por outro lado, a Colômbia favoreceu, em geral, o federalismo imediatamente após a independência, calculando que o controle centralizado parecia-se demais com o controle central da Espanha.

Após a independência, a Colômbia atravessou mais de um século de disputa tumultuada entre liberais e conservadores. Durante um período conhecido como La Violencia (1946-1958), a violência política deslocou os pobres das áreas rurais, que pegaram em armas para tentar se defender da agressão constante. Essas revoltas rurais iniciais deram lugar às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e iniciaram um conflito interno que duraria mais de 50 anos. Desde então, o governo colombiano se concentrou principalmente em levar a paz ao país. Sendo uma causa capaz de transcender partidos políticos, sufocou o extremismo e impediu o surgimento de populistas de esquerda.

A Venezuela vivia com outro tipo de violência. Nas primeiras décadas de independência, vários homens fortes lutaram pelo direito de governar. Isso culminou na ditadura de Juan Vicente Gomez de 1908 até sua morte, em 1935. Os 15 anos seguintes testemunharam uma série de tentativas de golpe, enquanto ativistas políticos tentavam introduzir a democracia no país. A democracia foi finalmente estabelecida na Venezuela em 1958 e, desde então, o poder de permanência de qualquer governo tem estado intrinsecamente ligado ao desempenho da economia – que significa, basicamente, o preço do petróleo.

Apesar da geografia comparável e de origens semelhantes, forças muito diferentes guiaram tanto a gestão econômica quanto as estruturas políticas de Caracas e de Bogotá. A Venezuela foi palco de um ciclo de altos e baixos, com seus problemas muito profundos – tanto em sua história quanto literalmente, no subsolo. Enquanto isso, a necessidade da Colômbia de buscar estabilidade política doméstica, após décadas de lutas internas, e de buscar uma abordagem mais ponderada do desenvolvimento econômico criou um sistema político e econômico comparativamente menos volátil.

*Publicado originalmente no Geopolitical Futures | Tradução de Clarisse Meireles

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