Pelo Mundo

Por que o ingresso da Venezuela no Mercosul incomoda?

Matérias publicadas em diversos jornais apresentam a Venezuela como um fator de preocupação, mais do que como uma possibilidade de fortalecimento do bloco. Essa abordagem multiplica-se pela mídia. Venezuela é o 5° maior exportador mundial de petróleo, tem a 8ª maior reserva de gás do mundo e representa o 3° maior mercado consumidor da América do Sul.

04/07/2006 00:00

Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior

PORTO ALEGRE - A decisão do governo venezuelano de abandonar a Comunidade Andina de Nações (CAN) e ingressar no Mercosul como membro pleno está despertando uma série de reações de caráter econômico e político. Uma série de matérias publicadas em diversos jornais nos últimos dias apresenta a novidade como um fator de preocupação, mais do que como uma possibilidade de fortalecimento do bloco sul-americano. Essa abordagem multiplica-se com um efeito cascata pela mídia. Vejamos um exemplo.

O jornal Estado de São Paulo reproduz uma matéria da inglesa BBC, que por sua vez reproduz matéria publicada no jornal El Universal, de Caracas. O título da matéria: “Empresários venezuelanos vêem com reserva entrada no Mercosul”. E logo abaixo: “Empreendedores estão preocupados com as ‘assimetrias’ entre Brasil e Argentina”. O teor geral das três matérias, que são uma só, na verdade, é crítico à Venezuela e ao Mercosul.

Um dos entrevistados é o presidente da Confederação da Indústria Venezuelana (Conindustria), Silvano Gelleni, que critica o fato de o presidente Hugo Chávez não ter consultado os empresários antes de se decidir pela assinatura do protocolo de adesão. Segundo Gelleni, as assimetrias entre as economias de Venezuela, Brasil e Argentina preocupam os empresários. “O tamanho da produção do país vizinho é pelo menos dez vezes maior do que o da nossa”, afirmou, referindo-se à economia brasileira.

A mesma matéria cita uma entrevista concedida pelo presidente do Paraguai, Nicanor Duarte, ao jornal Financial Times, onde ele ameaça deixar o Mercosul se Brasil e Argentina não abandonarem suas “políticas protecionistas”. Duarte acusa os dois países de egoísmo e hipocrisia: “Juntos, os países do Mercosul condenam o protecionismo dos EUA e da União Européia, quando as mesmas práticas persistem entre nós”.

RETÓRICA ANTI-ESTADOS UNIDOS

Além das ressalvas econômicas, esses críticos também acentuam um suposto fator de desequilíbrio e instabilidade que seria representado pelo presidente Chávez. Em sua edição desta terça-feira, o Jornal Nacional, da Rede Globo, reproduziu esse discurso, manifestando preocupação com a “retórica anti-Estados Unidos” de Chávez. Até a senadora Heloísa Helena, candidata à presidência da República pelo P-SOL resolveu “tirar uma casquinha” do presidente venezuelano. Ao comentar o ingresso da Venezuela no Mercosul, ela disse que se for eleita, “nem Bush, nem Chávez mandarão no Brasil”. Em Caracas, ao falar na cerimônia oficial de ingresso da Venezuela, Lula abordou esse problema político. negando que a inclusão do novo parceiro causará problemas nas relações entre os países da América do Sul e os EUA.

“Ninguém vai importar ideologias ou vai vender ideologias, nós vamos trocar experiências científicas e tecnológicas, vamos trocar produtos. Até agora não vi nenhum conflito, vi uma guerra verbal. A Venezuela não deixou de vender nem um litro de petróleo para os Estados Unidos, nem os Estados Unidos deixaram de comprar nenhum litro da Venezuela”, afirmou o presidente brasileiro. Lula acrescentou que, com o ingresso da Venezuela, o Mercosul tomará dimensões continentais.

Além disso, enfatizou que a pareceria com a Venezuela não se limita à área comercial, manifestando apoio à candidatura do país andino como membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), pretensão esta que vem enfrentando forte oposição por parte do governo dos EUA. A Casa Branca quer evitar o fortalecimento político de Chávez no continente, seja em que âmbito for.

76% DO PIB DA AMÉRICA DO SUL

Independentemente das críticas, o fato já está consumado. Quinze anos após a criação do bloco, por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o Mercosul recebeu seu quinto membro-pleno nesta terça-feira (4). O protocolo de adesão foi assinado, em Caracas, pelos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da Argentina, Nestor Kirchner, do Paraguai, Nicanor Duarte, e do Uruguai, Tabaré Vázquez. Segundo esse protocolo, a Venezuela assume de imediato as obrigações do Tratado de Assunção e dos Protocolos de Ouro Preto e Olivos. Até 2010, a previsão é que o país já tenha adotado a Tarifa Externa Comum e outras normas comuns aos demais países do Mercosul.

Os números que cercam o ingresso da Venezuela não deixam de ser impressionantes. Com o ingresso do novo membro, o Mercosul passa a ter mais de 250 milhões de habitantes, uma área de 12,7 milhões de quilômetros quadrados, um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de US$ 1 trilhão (o que representa 76% do PIB sul-americano) e um comércio global superior a US$ 300 bilhões. A Venezuela é o quinto maior exportador mundial de petróleo, tem a oitava maior reserva de gás do mundo e representa o terceiro maior mercado consumidor da América do Sul. Só isso.

O presidente da Argentina, Nestor Kirchner, destacou a importância da decisão, qualificando-a como “um passo qualitativo que vai consolidar a perspectiva de projeção da região em direção ao mundo, à própria América, América Latina e aos processos de integração que este espaço do mundo está precisando para que definitivamente tenha voz e força”. Kirchner também aproveitou a visita a Caracas para assinar um acordo de aliança estratégica da Argentina com a Venezuela. Chávez, por sua vez, disse que o ingresso da Venezuela no Mercosul significa a colocação de mais algumas pedras fundamentais para a liberação da América do Sul e para a concretização de um grande projeto sul-americano. “A união sul-americana hoje mais do que nunca é possível. Hoje começa uma nova etapa, não só na história da Venezuela, mas também na história sul-americana”, afirmou o presidente venezuelano.

LIGAÇÃO DO CARIBE A PATAGÔNIA

O papel estratégico desempenhado pela Venezuela no continente também foi destacado pelo presidente Lula. "É um país de quase 30 milhões de habitantes que está num processo de desenvolvimento muito bom. É um país que faz a ligação do Caribe com a Patagônia e nós consideramos muito importante a entrada da Venezuela e pode abrir para que os países do Mercosul entrem no bloco". Lula aproveitou a ocasião também para tentar diminuir o clima de críticas dentro do bloco, críticas que revelam o descontentamento do Uruguai e do Paraguai. Lula reconheceu a necessidade de ajudar o desenvolvimento dos países menores do Mercosul e cobrou do Congresso Nacional brasileiro a votação de dois fundos de apoio ao bloco, um destinado ao Mercosul como um todo e outro específico para o Paraguai. “Brasil e Argentina terão muito mais tranqüilidade de ver o Mercosul crescer quando pudermos ajudar mais o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia”, acrescentou o presidente brasileiro.

Para além das possibilidades de ampliação das trocas comerciais entre os países do bloco, o ingresso da Venezuela já representou um pequeno avanço para a diminuição da tensão vivida por Argentina e Uruguai em torno da questão da construção das fábricas de celulose no lado uruguaio. Os presidentes Kirchner e Tabaré Vázquez protagonizaram um “cálido abraço”, como descreveu o jornal Clarín, durante a assinatura do protocolo de adesão, no Teatro Teresa Carreño. Os presidentes “cumprimentaram-se efusivamente e chegaram a trocar várias palavras, sorrindo”, descreveu o jornal argentino. O gesto provocou um entusiasmado aplauso dos demais chefes de Estado e funcionários presentes. E isso ocorreu poucos dias de a Corte Internacional de Haia emitir sua decisão acerca do conflito das papeleiras que divide atualmente os dois países. Novo integrante do Mercosul, Chávez já se comprometeu a ajudar a encontrar uma solução para resolver de maneira negociada o conflito entre seus parceiros de bloco.

* Com informações da Agência Brasil e de agências internacionais


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