Pelo Mundo

Por que os bolivianos, pela primeira vez, sentem-se felizes

22/01/2006 00:00

UMA HISTÓRIA DE AMPUTAÇÕES
A Bolívia é conhecida por ser um país infeliz, desesperançado. É o único caso contemporâneo de uma nação que perdeu sua saída ao mar – na guerra do Pacífico, em 1879, para o Chile, detrás de quem estavam os interesses das empresas mineiras britânicas. Posteriormente, nos anos 30 do século passado, a Bolívia voltou a ser amputada de um pedaço do seu território – na guerra do Chaco, para o Paraguai, igualmente com interesses de corporações multinacionais, interessadas nas riquezas energéticas da região.

A Bolívia poderia ter recuperado sua esperança e sua auto-estima na revolução nacionalista de 1952, em que foi realizada a reforma agrária, foram nacionalizadas as minas, o exército chegou a ser substituído por milícias populares. Mas essa revolução foi logo desnaturada, recuperada, tornou-se mais um governo das elites (o que eles chamam de “rosca”).

Mais tarde, em 1967, o que poderia ter sido o resgate da Bolívia, terminou cedo com o assassinato do Che, deixando recair sobre o país – embora, na realidade sobre seus governos subservientes aos EUA – a mancha da morte do Che.

Posteriormente, a Bolívia foi vítima do primeiro plano neoliberal no mundo, que liquidou a economia mineira e, com ela, um de suas mais importantes conquistas – a classe trabalhadora mineira e a Central Operária Boliviana (COB).

Porém, o renascimento do movimento indígena boliviano foi o momento de resgate do país, com a expulsão da Bechel, a empresa que queria privatizar a água, em 2000. Dali para frente, o movimento popular boliviano só se fortaleceu, derrubou a dois presidentes que não concordaram com a nacionalização dos hidrocarburetos, a convocação de uma Assembléia Constituinte que refunde o Estado da Bolívia como um Estado multiétnico e multicultural.

E, finalmente, esse extraordinário movimento popular, sabendo combinar sublevações com marchas, com greves de fome, com campanhas eleitorais, elegeu, pela primeira vez, em mais de 400 anos, um dos seus presidente da república.

EM TIWANAKU, A POSSE SAGRADA
Ontem, sábado, foi a verdadeira posse de Evo Morales. Pude tomar o café da manhã com ele, na casa de seu vice, Álvaro Garcia, na casa deste. Eles compraram empanadas saltenha e alguns refrigerantes. Ficamos conversando cerca de uma hora, entre comentários sobre as noticias dos jornais, sobre chegada de delegações, mas, sobretudo, sobre recordações de Evo, que se confessava nervoso, além de molesto por um resfriado.

Saímos em seguida, com parentes dos dois, em quatro carros, sem batedores, nem nenhuma identificação, para a cidade em ruínas da mais antiga civilização da Bolívia, em Tiwanaku. Subimos mais ainda, a uns 71 quilometros de La Paz. De repente, as pessoas que enchiam a estrada, com esse hábito extraordinário dos indígenas de fazer longas caminhadas, começaram a identificar Evo, que passou a saudá-los da janela do carro.
Foi parando em alguns lugares para ser abraçado e receber presentes, em um dos lugares fez um breve comício.

Enquanto isso, o rádio do carro dizia que não sabiam onde estava Evo Morales e sua “comitiva”, ninguém da imprensa internacional o localizava.

Chegamos finalmente a Tiwanaku, onde estava a irmã de Evo, com seus trajes típicos, pronta para assumir seu papel de primeira dama, sem demora em Oruro – Evo é o primeiro presidente orurenho da história do país -, e sem deixar sua venda de alimentos.

Evo foi vestir-se, enquanto ficamos, com Álvaro e outras pessoas, olhando aquela multidão incomensurável, todos com cara de povo, com suas vestimentas indígenas. Álvaro propôs aos lideres indígenas locais que se levasse para a Praça Murillo a enorme bandeira, de 18 metros de altura, com todas as cores, chamada de wipala, que representa todos os povos indígenas, para colocá-la junto à bandeira da Bolívia, em frente ao Palácio Quemado, sede do governo. Fomos então para os lugares de onde assistiríamos as cerimônias.

Pude localizar Eduardo Galeano, que chegava de uma acidentada viagem, sem dormir e assistimos juntos às cerimônias.

De repente, apareceu aquele homem simples, índio, camponês, líder cocaleiro, com as vestimentas de majestade dos ritos de poder andinos e fez um discurso notável, no qual invocou a Tupak Katari e ao Che, para delírio das centenas de milhares de pessoas presentes.


O retorno foi muito lento, a estrada lotada de ônibus, de gente caminhando, de povo saudando os que passavam com suas bandeiras.

HUGO CHÁVEZ
Quando cheguei a La Paz, dei-me conta de que havia uma grande concentração de gente, com bandeiras da Bolívia, de Cuba e da Venezuela, era Hugo Chávez que chegava. Lembrei-me de que a pesquisa de uma revista local publicou que, para os bolivianos, entre os quatro presidentes que se mencionavam, Hugo Chávez era o primeiro, Lula o segundo, Kirchner o terceiro e Bush ocupava o último lugar. Hugo Chávez desceu de seu carro e ficou meia hora conversando com a multidão, o que tem acontecido sempre com ele, onde quer que ele vá.

Quanto ele entrou no hotel, pude conversar com ele. Inicialmente ele manifestou seu entusiasmo pelos acordos que se estão avançando, depois das conversas em Brasília, com Kirchner e com Lula, sobre o gasoduto continental, que com a incorporação da Bolívia, vão mudar a cara geopolítica, econômica e estratégica do continente.

Quando eu comentei sobre a manifestação da posse de Evo, ele me disse que tanto ele, quanto Fidel haviam assistido, emocionados, pela Telesul. Eu lhe reiterei que os únicos personagens mencionados por Evo tinham sito Tupak Katari e o Che. Hugo Chávez abriu seu grande sorriso e disse: “Nestes momentos o Che está bailando de felicidade pelas nuvens da Bolívia”.

E, com ele, o povo boliviano, pela primeira vez na sua história, feliz, com Tupak Katari, com o Che e com Evo Morales.



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