Pelo Mundo

Por que os empresários argentinos preferem se suicidar apoiando Macri?

 

25/06/2019 12:05

 

 
Nestes últimos dias, veio a público a notícia de que centenas dos principais empresários argentinos se reuniram em um grupo de WhatsApp para coordenar ações “em defesa do capitalismo”. Também se relata que Mauricio Macri enviou ao grupo um áudio de congratulação que entusiasmou bastante os participantes. A mensagem de Macri foi entendida como uma prova da sintonia entre empresários e o discurso governamental. As duas partes se encontram absolutamente alinhadas na tarefa de acusar seus adversários de “não querer uma sociedade capitalista”, como se o peronismo alguma vez tivesse feito algo diferente do capitalismo. O discurso chegou ao nível absurdo de acusar um dos líderes opositores de “comunista”. Esse suposto comunista, seria Axel Kiciloff, aliás, já foi ministro de Economia, em período no qual não socializou os meios de produção e não deixou de pagar dívida alguma, por exemplo. Entretanto, o que realmente surpreendeu foram os nomes de muitos dos integrantes do grupo de WhatsApp, já que se trata de representantes do setor industrial, atividade econômica que foi arrasada pelo atual modelo, e que poderia ter resultados ainda piores se este cenário tiver continuidade.

No debate político, costuma se repreender os trabalhadores – incluídos os de classe média – por votar contra os seus interesses objetivos. Não se faz o mesmo com os capitalistas, que costumam mostrar o mesmo comportamento eleitoral, e inclusive com um maior grau de ideologização. Para dizer de outra forma: a política ser o espaço onde os mais pobres falam coisas sobre a necessidade de ter consciência clara na defesa dos seus interesses objetivos, mas não acontece o mesmo com os empresários, que por seu poder relativo, têm uma maior capacidade de ação na determinação do rumo econômico. Aparece aqui um claro déficit da classe política, que exerce certa dureza discursiva com os trabalhadores, enquanto diz aos empresários o que eles querem escutar. Nesta linha, se observa a guinada política do presente na direção de uma “grande moderação”.

Há, então, uma tarefa política pendente: a de educar os empresários. E essa tarefa é indispensável, porque embora a afirmação pareça estranha, a classe empresarial local representa o principal obstáculo para avançar com um verdadeiro processo de desenvolvimento capitalista. A capacidade de alguns empresários para organizar parte do seu setor parece ter sido alcançada com promessas relativas ao conjunto da produção, que será potenciada ou não dependendo da macroeconomia do próximo governo. O interesse individual da classe empresarial, a curto prazo, é diferente do interesse geral da classe política, a longo prazo.

A pergunta então é: por que os capitalistas argentinos são uma barreira para o desenvolvimento capitalista. Talvez seja inútil repetir, mas o primeiro de se deve pensar é que a análise econômica exclui de sua ferramenta a intencionalidade dos atores. Não existem, por exemplo, empresários maus e trabalhadores bons, ou empresários imaculados e trabalhadores delinquentes e mafiosos. O que existe é uma lógica econômica do comportamento de cada ator, e essa lógica tem, como ponto de partida, componentes muito básicos: os empresários querem sustentar ou incrementar seus lucros, e os trabalhadores o seu salário.

Aliás, esta lógica é universal, e opera em todos os países do planeta. Os capitalistas argentinos não seguem uma lógica diferente a de qualquer outro país. Não são melhores nem piores, são empresários que querem sustentar ou aumentar seus lucros, e nesse caminho, se adaptam às regras do jogo, que são organizadas pelo Estado. Esta universalidade exclui as explicações particularistas, como a que atribui a fuga de capitais à “reticência dos investidores” com uma possível volta dos peronistas ao poder. A universalidade também é requisito epistemológico. Se a economia é uma ciência, e se suas leis são universais, então deve haver uma lei para os “reticentes” capitalistas argentinos, e outras, por exemplo, aos “austeros” capitalistas japoneses. O que funciona sempre e em todo lugar é a lógica do capital. E nesta lógica, a economia política clássica advertiu sobre uma relação contraditória entre o capital e o trabalho, entre o lucro e o salário.

Sem se meter em questões teóricas complicadas a respeito da relação entre o capital e o trabalho, é preciso mostrar que é absolutamente contraditória a ideia de que a divisão do excedente do lucro só pode aumentar em detrimento do salário, e vice-versa. Se a economia cresce, salários e lucros podem aumentar ambos. É a famosa relação ganhar-ganhar que deu origem ao mito das burguesias nacionais a respeito dos chamados estados benfeitores, ou de bem-estar. A primeira conclusão é que, sem perder sua lógica de capitalistas, e na busca de lucro, os capitalistas de um determinado país podem ter interesses em comum com os trabalhadores no crescimento dos mercados nacionais. Essa ideia é a resposta “policlassista” ao classismo duro da foto da luta de classes.

No capitalismo global, a relação ganhar-ganhar funcionou bastante bem durante a chamada “época de ouro”, as três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, mas a virtual harmonia de classes acabou, quando veio o fim dos estados de bem-estar e o surgimento, em meados dos Anos 70, do capitalismo neoliberal. O que se observa desde então é um estancamento da renda dos trabalhadores e uma concentração do excedente gerado na classe dos empresários – e entre eles uma outra concentração, entre os que estão no topo da pirâmide, o 1% mais rico da população. Os números que ilustram estes processos - por exemplo, nos Estados Unidos, podem ser encontrados em livros como “O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty. Não estão em discussão, embora sejam as tendências do capitalismo.

Voltando ao tema central, a pergunta que surge é porque os empresários beneficiados pelo modelo da industrialização substitutiva de importações (ISI) do pós-guerra foram os mesmos que a frearam, a partir de meados dos Anos 70, e hoje trabalham para abolir setores industriais completos. A resposta simples – a complexa precisaria de muito mais que um artigo – tem duas partes. A primeira é local: uma vez que os novos industriais surgidos com a ISI ficaram fortes e passaram a monopolizar seus mercados, graças à proteção e os subsídios estatais decidiram que já é tempo mudar de caminho. A segunda resposta tem a ver com a globalização da produção e a divisão internacional do trabalho que dela resulta, já que grande parte do empresariado local representa firmas que são apenas filiais de multinacionais. O que é admirável, em todo caso, é que uma pequena porção desses empresários tenha conseguido convencer a maioria da sua classe de que seus interesses particulares são o mesmo que os do conjunto. O grosso dos capitalistas locais deveria entender que o tipo de capitalismo promovido pelo macrismo não os inclui.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli



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