Pelo Mundo

Por que os ricos têm tanto poder?

Os norte-americanos podem ser iguais, mas alguns são mais iguais que os outros

02/07/2020 15:48

(Ilustração de Woody Harrington)

Créditos da foto: (Ilustração de Woody Harrington)

 
Os Estados Unidos são, em princípio, uma democracia, na qual todo voto tem o mesmo valor. É também um país em que a desigualdade de renda disparou, um desenvolvimento que machuca muito mais pessoas do que ajuda. Portanto, se você não conhecesse o problema, acreditaria em uma reação política: demandas por impostos mais altos para os ricos, mais gastos com a classe trabalhadora e salários mais altos.

Na realidade, porém, a política tem seguido por outro caminho. Os impostos sobre as empresas e os altos rendimentos caíram, os sindicatos foram esmagados, o salário mínimo, ajustado pela inflação, é mais baixo do que na década de 1960. Como isso é possível?

A resposta é que enormes disparidades de renda e riqueza se traduzem em disparidades de tamnho semelhante na influência política. Para ver como isso funciona, vejamos um exemplo bastante recente: o Grande Acordo orçamentário que quase aconteceu em 2011.

Na época, Washington estava firmemente sob a febre do controle do déficit. Embora o governo federal tenha conseguido tomar recursos a taxas de juros historicamente baixas, todos os que tinham papeis importantes pareciam estar dizendo que o déficit orçamentário era a questão mais importante que os Estados Unidos enfrentavam e que era essencial controlar os gastos com a Previdência Social e com o Medicare (o programa de saúde governamental).

Assim, o governo Obama ofereceu aos republicanos um acordo no Congresso: cortes na Previdência Social e no Medicare em troca de impostos ligeiramente mais altos para os ricos. O acordo fracassou apenas porque o partido republicano se recusou a aceitar um pequeno aumento de impostos.

A questão é: quem queria esse acordo proposto por Obama? Não era o público norte-americano.

Os eleitores em geral não estavam preocupados com os déficits orçamentários. Embora a maioria dos americanos acreditasse que o déficit devia ser reduzido – eles sempre acreditam -, uma pesquisa da CBS no início de 2011 descobriu que apenas 6% do público apontava o déficit como a questão mais importante, em comparação com 51% citando a economia e o emprego.

Tanto o governo Obama quanto os republicanos estavam mantendo posições que se opunham aos desejos do público. Uma grande maioria sempre quis ver os benefícios do Seguro Social expandidos, e não reduzidos. Uma maioria comparativamente grande afirmava que os norte-americanos de renda alta pagam muito poucos, não muito, impostos.

Então, de quem eram os interesses que se refletiam na luta orçamentária de 2011? Dos ricos.

Um estudo inovador das preferências políticas dos americanos ricos em 2011 descobriu que os ricos, diferentemente dos eleitores em geral, priorizavam mesmo a redução do déficit em detrimento de todo o resto. Eles também, em forte contraste com o público em geral, eram favoráveis aos cortes na Previdência Social e nos gastos com saúde.

E enquanto alguns bilionários de alto nível, como Warren Buffett, têm pedido impostos mais altos para pessoas como eles, a realidade é que a maioria dos bilionários está obcecada em cortar impostos, como o imposto predial, que somente os ricos pagam.

Em outras palavras, em 2011, um governo democrata fez tudo em nome de uma preocupação política que apenas os ricos davam prioridade e não conseguiram chegar a um acordo apenas porque os republicanos não queriam que os ricos arcassem com qualquer ônus.

Por que os ricos têm tanta influência sobre a política?

As contribuições da campanha, historicamente dominadas pelos ricos, fazem parte da história. Uma matéria do Times de 2015 constatou que naquele momento menos de 400 famílias eram responsáveis por quase metade do dinheiro arrecadado na campanha presidencial de 2016. Isso importa tanto diretamente - os políticos que propõem grandes aumentos de impostos para os ricos não podem esperar ver muito de seu dinheiro - quanto indiretamente: os doadores ricos têm acesso aos políticos de uma maneira que os norte-americanos comuns não têm e desempenham um papel desproporcional na formação da 'visão de mundo’ dos formuladores de políticas.

No entanto, a influência do dinheiro na política vai muito além das contribuições da campanha. O suborno direto provavelmente não é um fator importante, mas ainda assim existem grandes recompensas financeiras pessoais para figuras políticas que apoiam os interesses dos ricos. Políticos pró-plutocratas que tropeçam, como Eric Cantor, o ex-responsável pela disciplina dos republicanos na Câmara - que celebrou o Dia do Trabalho homenageando os empresários - rapidamente encontram posições lucrativas no setor privado, empregos na mídia de direita ou sinecuras bem pagas em think tanks conservadores. Você acha que existe uma rede de segurança comparável para Alexandria Ocasio-Cortez ou Ilhan Omar?

E mesmo os problemas discutidos pela mídia refletem a agenda de uma pessoa rica. Os dólares em publicidade explicam parte desse viés, mas grande parte, provavelmente, se deve a fatores mais sutis, como a crença (muitas vezes falsa) de que as pessoas que ganharam muito dinheiro têm uma visão especial de como a nação como um todo pode alcançar a prosperidade.

Talvez o aspecto mais marcante da fixação em cortar benefícios no início de 2010 tenha sido o grau com que a questão foi tratada, não como uma posição controversa, mas como a coisa inegavelmente certa a se fazer. Como Ezra Klein apontou no jornal The Washington Post na época: "Por razões que eu nunca entendi direito, as regras de neutralidade jornalística não se aplicam quando se trata de déficit. Nesta questão, os repórteres podem torcer abertamente por um conjunto específico de soluções políticas altamente controversas.”

De várias maneiras, portanto, os ricos da América exercem enorme influência política. Nossos ideais dizem que todos os homens são criados iguais, mas na prática uma pequena minoria é muito mais igual que o resto de nós.

Não devemos ser cínicos demais sobre isso. Não, os EUA não são simplesmente uma oligarquia na qual os ricos sempre conseguem o que querem. No final, o presidente Barack Obama aprovou a Lei de Assistência Acessível, a maior expansão dos benefícios governamentais desde a década de 1960 e um aumento substancial dos impostos federais para a faixa 1% mais rica, para 34%, de 28%.

E não, as partidos não estão igualmente no bolso dos americanos mais ricos. Os democratas se tornaram cada vez mais progressistas, enquanto os ricos dominam a agenda republicana. Donald Trump pode ter concorrido como populista, mas, uma vez no cargo, reverteu grande parte do aumento dos impostos de Obama, enquanto tentava (mas falhou até agora) retirar o seguro de saúde de 23 milhões de americanos.

Mas, embora não devamos ser cínicos demais, continua sendo verdade que os Estados Unidos são menos uma democracia e mais uma oligarquia do que gostamos de pensar. E para combater a desigualdade, teremos que enfrentar um poder político desigual, bem como renda e riqueza desiguais.

*Publicado originalmente em 'New York Times' | Tradução de César Locatelli



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