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Porfirio Cochi: "CIA, Áñez e coronavírus são o tripé da morte contra a Bolívia"

 

23/04/2020 17:25

Hospital de Sacaba, em Cochabamba, conta com nove consultórios e 120 camas para internação, sala de raio X e de ecografia, quartos de reanimação, enfermaria, farmácia, laboratórios, área especializada em ginecologia e obstetrícia, entre outros espaços

Créditos da foto: Hospital de Sacaba, em Cochabamba, conta com nove consultórios e 120 camas para internação, sala de raio X e de ecografia, quartos de reanimação, enfermaria, farmácia, laboratórios, área especializada em ginecologia e obstetrícia, entre outros espaços

 
“A Agência Central de Inteligência (CIA), as políticas privatistas e excludentes da autonomeada presidenta Jeanine Áñez e o avanço do coronavírus são o tripé da morte contra a Bolívia, que mais do que nunca necessita da unidade e da reflexão das suas lideranças e da mobilização do seu povo”, afirmou o pesquisador e cientista social Porfirio Cochi, em entrevista exclusiva. Na avaliação de Cochi, que encontra-se confinado na cidade de El Alto, da mesma forma como fez o Movimento Ao Socialismo - Instrumento Político para a Soberania dos Povos (MAS-IPSP) ao longo dos seus 14 anos de governo, “é preciso fortalecer o sistema público de saúde, erguer hospitais, investir em equipamentos e recursos humanos para combater e vencer o covid-19”. “Necessitamos impedir que uma elite cada vez mais disposta a converter-se em títere do imperialismo roube a nossa identidade enquanto povo e agora despreze a nossa própria vida com uma política irresponsável diante do avanço do coronavírus”, sublinhou.

Boa leitura

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Porfirio Cochi, pesquisador e cientista social boliviano, condena o imenso retrocesso implementado pelo governo golpista 

Temos hoje números extremamente desencontrados em relação a quantidade de bolivianos mortos ou contaminados e o governo golpista culpa o presidente Evo Morales pela ausência de uma estrutura de saúde pública. Ao mesmo tempo, Jeanine Áñez se propõe a injetar uma quantia expressiva de recursos públicos no setor privado. Como é isso?

Nos 14 anos de governo do Movimento Ao Socialismo - Instrumento pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP), o presidente Juan Evo Morales Ayma desenvolveu uma política de fortalecimento do sistema público de saúde, que ganhou força com a ministra Ariana Campero por meio da implementação do “Plano Hospitais para a Bolívia”. Este plano, iniciado em setembro de 2015, veio acompanhado pelo Decreto Supremo nº 3293 que autoriza a criação da Agência de Infraestrutura em Saúde e Equipamento Médico (Aisem) para fiscalizar as construções e o fornecimento de materiais aos novos estabelecimentos construídos.

Para demonstrar como o investimento público em saúde havia sido historicamente relegado pelos governos neoliberais, vale lembrar que até 2006, ano da chegada do MAS ao poder, existiam 2.900 estabelecimentos de primeiro nível - consultórios familiares com até cinco profissionais, com um médico, um enfermeiro, dois auxiliares de enfermagem e um odontólogo. Na gestão do MAS foram construídos mais 1.039. Estes consultórios correspondem a 48% de todos os estabelecimentos de saúde existentes no país, alcançando mais de 3.900 funcionando com equipamentos e recursos humanos. Os 14.500 servidores públicos que trabalhavam com estabilidade em 2005 saltaram para 30.000 com emprego fixo, além dos contratos por tempo determinado, e as 558 ambulâncias se multiplicaram, chegaram a quase quatro vezes mais, alcançando 2.072 ambulâncias.

O “Plano Hospitais para a Bolívia” tinha como meta a construção de 49 hospitais de quarto, terceiro, segundo e primeiro nível. Os de primeiro nível são centros de saúde comunitária, básicos, que servem de entrada ao sistema; os de segundo nível são estruturas médias que contam com salas de cirurgia e especialidades como medicina interna, ginecologia e obstetrícia, cirurgia geral e pediatria, que atendem as 24 horas dos 365 dias do ano; e os de terceiro nível, que são hospitais e institutos de maior capacidade e que também funcionam sem parar. Em La Paz, de terceiro nível, temos o Grande Hospital Geral, o Hospital da Criança e o Hospital Operário. Em El Alto, cidade vizinha à capital, temos dois hospitais de terceiro nível e três de segundo nível. Desses, do total até junho mais de 15 já estavam em pleno funcionando e os demais em processo de construção ou contratação de pessoal e equipagem.

No plano, 12 hospitais a nível nacional são de terceiro nível e 33 de segundo nível, estando distribuídos 11 em La Paz e El Alto, nove em Santa Cruz, oito em Cochabamba, sete em Potosí, quatro em Tarija, quatro em Beni, três em Chuquisaca, dois em Oruro e o fortalecimento do hospital de Pando.

Infelizmente, este plano encontrou dura resistência no famoso e ilustre “colégio médico da Bolívia” que, encabeçado pelo seu presidente Luis Larrea, não apenas se opôs à construção dos hospitais como desenvolveu ações políticas contrárias ao governo dizendo que o fazia “pelo país e por nossos filhos”. Com esse discurso atentou contra a solidariedade internacional e a presença dos médicos cubanos que trabalhavam em todo território nacional e, particularmente, nas regiões mais distantes e necessitadas. Atualmente Larrea é vice-ministro de Saúde do governo golpista, tendo a seu lado vários proprietários de hospitais e clínicas privadas como Marcelo Navajas, ministro de Saúde.

Apesar de todo tipo de sabotagens e resistências, o plano conseguiu concluir mais de 15 estabelecimentos de saúde, hospitais de terceiro e segundo níveis. Outros foram interrompidos pela política neoliberal dos golpistas que também vêm inutilizando a infraestrutura já disponível do governo anterior.

Como esta inutilização tem se dado na prática?

No município de El Alto contamos com dois hospitais de terceiro nível: o hospital do Norte, em pleno funcionamento, que pela pressão da comunidade converteu-se em centro de referência para atenção e tratamento de covid-19, e o do Sul, que se encontra fechado porque o governo não dá prosseguimento ao processo de aquisição de equipamentos nem de contratação de pessoal. O que dizer de quem inutiliza recursos materiais e humanos em tempos de emergência sanitária?

Infelizmente, há experiências de abandono espalhadas por todo o país: hospitais construídos e concluídos que não estão sendo aproveitados para a luta contra a propagação do coronavírus. E isso é algo ainda mais terrível no momento em que as contaminações se multiplicam a cada dia.

Em vez de investir em infraestrutura os golpistas têm optado pela repressão.

Exatamente. O governo de Yanine Añez retoma as políticas neoliberais acompanhadas do uso da força pública com a polícia e a forças armadas para criminalizar a pessoas que, sem qualquer apoio, buscam o sustento da sua família. Com o seu caráter golpista e ditatorial, o governo decidiu intervir nos governos autônomos departamentais de La Paz e Cochabamba, e nos Serviços Departamentais de Saúde (Sedes), agindo abertamente contra as leis e a própria Constituição Política do Estado.

A esses disparates se somam medidas neoliberais dos seus aliados como o prefeito de La Paz, Luis Revilla, que em vez de fortalecer as estruturas públicas decidiu alugar por onze milhões de bolivianos (US$ 1,6 milhão!) um hotel cinco estrelas para colocar de quarentena pessoas suspeitas de estarem infectadas pelo coronavírus. É uma ação que demonstra abertamente sua tendência de mercantilização dos serviços e espaços de atenção à população para beneficiar a lúmpen-burguesia que lhe dá sustentação.

Esta atitude vem sendo bastante criticada pela grande maioria da população, pelos militantes do MAS-IPSP, por outros atores políticos e até mesmo por setores dos próprios golpistas pois deixam evidente o desperdício de bens e recursos públicos em nome da potencialização da campanha eleitoral de “Yanine Presidenta”. À medida em que passam os dias vai ficando cada vez mais nítida a politização de toda e qualquer ação estatal em prol da candidata, que representa uma parcela dos golpistas, sob o pretexto de luta contra o covid-19.

O retorno ao Fundo Monetário Internacional se dá dentro desta estratégia?

A solicitação de um empréstimo de US$ 320 milhões ao FMI, assim como os pedidos de crédito ao Banco Mundial (BM), ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e à Corporação Andina de Fomento (CAF), somando mais de um bilhão de dólares, se encaixa nesta estratégia de desperdiçar recursos públicos para beneficiar, sem qualquer critério ou prioridade social, meia dúzia de grupos privados ligados à eleição de Áñez. Estamos denunciando que esta dívida imensa cairá nas costas do povo, principalmente dos mais pobres.

Como pesquisador e cientista social boliviano, tens denunciado de forma contundente a ingerência estadunidense no golpe de Estado e alertado sobre ela. Como avalia o seu desdobramento?

Passados cinco meses do golpe de Estado na Bolívia, onde mobilizações orquestradas pela Central de Inteligência Americana (CIA) obrigaram a renúncia do presidente constitucional Evo Morales, faz-se necessário o esclarecimento de alguns pontos para melhor compreensão do seu significado, bem como da gravidade das suas implicações para a soberania e o desenvolvimento do país.

Estas ações, mais do que coordenadas, organizadas e planejadas pela CIA, se deram pela subordinação de políticos de partidos tradicionalmente conservadores, membros da ultradireita, banqueiros, grandes proprietários dos meios de comunicação, setores vinculados ao empresariado agroindustrial, da polícia e das forças armadas.

Várias mídias nacionais e internacionais encobriram os fatos ocorridos no golpe e o papel da agência estadunidense antes e durante o governo autonomeado de Yanine Añez. Um deles, o Behind Back Doors, intitulado “Os mais importantes agentes da CIA na Bolívia”, identifica os atores estrangeiros, entre eles funcionários dos governos do Brasil de Jair Bolsonaro, da Argentina de Maurício Macri e do Paraguai de Mario Abdo, além de políticos e altos mandos militares locais. Ações mercenárias abertamente financiadas pelo Departamento de Estado norte-americano por meio da sua embaixada em La Paz.

Entre estes atores aparece o nome de Erick Foronda Prieto, personagem vinculado à Embaixada dos Estados Unidos na Bolívia, onde trabalhou como responsável de comunicação durante mais de 15 anos e na qual assessorou desde esta pasta como embaixadores: Curtis Warren Kamman, Donna Jean Hrinak, Manuel Rocha, David Greenlee e Philip Goldberg. As relações de amizade e trabalho permitiram que Foronda adotasse a dupla nacionalidade para depois prestar serviços à CIA.

A intimidade de Foronda com Goldberg é visível, não?

Quando Goldberg foi expulso em 2008 por tentar retalhar o país com a criação da chamada “Meia Lua”, incentivando um novo território a partir dos departamentos (estados) de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija, no mesmo estilo que os EUA havia conseguido realizar com uma custosa guerra civil na Iugoslávia, Foronda também arrumou as malas e partiu para Washington. A Administração para o Controle de Drogas também acabou sendo expulsa naquele mesmo ano e depois, em 2013, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Radicado na capital estadunidense por 12 anos, adquiriu nacionalidade norte-americana, transformando-se em votante republicano.

Este agente joga um papel importante na organização e desenvolvimento de ações políticas contra o governo do Movimento Ao Socialismo (MAS) encabeçado por Evo e segue instruções do Departamento de Estado em coordenação com a Embaixada dos EUA. Desenvolveu a campanha pelo “Não” no referendo de 2016, aproveitando sua relação com os meios de comunicação para manipular e desinformar a população.

Nas últimas eleições nacionais de outubro de 2019, por mandato da Embaixada e em coordenação com três dezenas de agentes operativos da CIA com residência no país, desenvolveu ações de apoio financeiro e assessoria política ao candidato à Presidência Oscar Ortiz para influir negativamente e afetar, principalmente, as candidaturas de Evo Morales e Carlos Mesa.

Em um encontro com o jornalista Jon Lee Anderson, de The New Yorker, Foronda confessou que é agente da CIA. É este o personagem, atualmente secretário privado da Presidência, parte da ala radical da ultradireita do governo de Yanine Añez, quem tomou decisões de política exterior, tais como romper relações com Cuba, reconhecer o golpista Guaidó como presidente da Venezuela, sair da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e se somar ao Grupo de Lima, conformado sob ordens de Washington para acelerar a ingerência na Venezuela bolivariana.

Como os próprios meios de comunicação alinhados a Áñez têm reconhecido, o papel deste agente da CIA vem crescendo…

Atualmente Erick Foronda é o “rei detrás do trono”. Aproveitando e retomando suas relações com a mídia, mantém o seu controle na tentativa de ocultar a incapacidade política e de gestão governamental. É desta forma que assume prerrogativas desde a troca de ministros, como é o caso do de Comunicação, até a gerência da Bolívia TV (canal estatal), impondo nestes cargos pessoas de sua confiança, antes que da presidenta. É sabido que foi ele quem sugeriu o nome de Salvador Romero, entre outros nomes da elite conservadora, para integrar o Tribunal Supremo Eleitoral.

A recente renúncia do ministro da Saúde, Aníbal Cruz, é produto das disputas internas da ala radical da ultradireita - integrada pelo secretário privado da presidenta - o ministro de governo Arturo Murillo e Jorge Ortiz, da ala conciliadora, expondo as posições desencontradas sobre como enfrentar a crise sanitária diante da covid-19. Na prática, revela-se uma imposição da ala ultradireitista, que define o uso da polícia e das Forças Armadas no controle e repressão para garantir o cumprimento das medidas adotadas pelo governo central, além da intervenção nos Serviços Departamentais de Saúde, que são instâncias dos governos autónomos departamentais. Este é um imenso e ilegal retrocesso, pois torna vulnerável as autonomias das entidades territoriais autônomas (ETAs), descartando os mecanismos de coordenação e cooperação entre o governo central e os governos departamentais, municipais e as autonomias indígenas originárias camponesas conquistadas.

Confirmada a renúncia do ministro da Saúde, em plena crise e de emergência sanitária da covid-19, se nomeia a Marcelo Navajas, profissional que trabalhou como médico da Embaixada dos EUA em La Paz, além de ser pessoa de confiança de Erick Foronda, que mais uma vez está demostrando o controle e a ingerência norte-americana.

E este controle estadunidense aponta para uma crescente repressão.

Como em tudo após o golpe, o combate à pandemia tem como eixo um Estado altamente repressor, sustentado em ameaças de sedição e terrorismo, exatamente da mesma forma que tem utilizado para criminalizar e perseguir ex-autoridades e lideranças sociais que critiquem o governo.

Desde que iniciou a quarentena total, em 23 de março, foram estabelecidas normas de prisão e multas de até 1.000 bolivianos (US$ 144) com rígidas medidas coercitivas para quem descumpra a norma, sem que se tenha garantido as mínimas condições de subsistência, particularmente à população mais miserável. Desta forma milhares de agricultores estão sendo obrigados a ver seus produtos apodrecerem sem poder comercializar ou mesmo doar alimentos – como é o caso de Cochabamba -, enquanto milhões estão passando fome nas cidades. O fato é que a grande maioria dos trabalhadores garante seu sustento diariamente, por conta própria, comendo tão somente quando trabalha.

O governo tem ameaçado reiteradamente jogar atrás das grades a servidores da saúde que supostamente deem “informação falsa” sobre o covid-19, repetindo inclusive que serão vigiados constantemente pelas redes sociais.

A clara intromissão do governo dos Estados Unidos no governo de Añez, negando qualquer soberania política boliviana é algo trágico. Necessitamos impedir que uma elite cada vez mais disposta a converter-se em títere do imperialismo roube a nossa identidade enquanto povo e agora despreze a nossa própria vida com uma política irresponsável diante do avanço do coronavírus.






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