Pelo Mundo

Porque o capitalismo estava destinado a sair no topo na eleição de 2020?

 

17/11/2020 13:17

(Nathaniel St. Clair)

Créditos da foto: (Nathaniel St. Clair)

 
Não importa quem ganhou a eleição estadunidense, o que não irá mudar é a organização capitalista da economia do país.

A grande maioria das empresas continuará a ser operada por uma pequena minoria de estadunidenses. Continuarão a usar suas posições no topo do sistema capitalista para expandir suas riquezas, “economizar seus custos laborais”, e, com isso, aprofundar as desigualdades de renda e riqueza dos Estados Unidos.

A classe dos patrões continuará a usar sua riqueza para comprar, controlar e moldar a política da nação para prevenir que a classe trabalhadora desafie sua propriedade e operação do sistema econômico. De fato, por um bom tempo, eles asseguraram que somente dois partidos políticos dominariam o governo e que ambos se comprometeriam com a preservação do sistema capitalista. Para o capitalismo, a questão de qual partido é o vencedor somente importa para a noção de como o capitalismo será apoiado, não se esse apoio será uma prioridade governamental ou não.

Não importa quem ganhou, o setor privado e o governo continuarão com seu fracasso compartilhado em superar a instabilidade socialmente destrutiva do capitalismo. Colapsos econômicos (“recessões”, “depressões”, “apreensões” e “desacelerações”) continuarão a acontecer em média a cada quatro ou sete anos, perturbando nossa economia e sociedade. Já nesse jovem século, enfrentamos, com Republicanos e Democratas, três colapsos (2000,2008 e 2020) em 20 anos: fiel à média histórica. Nada que o capitalismo tentou no passado parou ou superou sua instabilidade. Nada que qualquer um dos partidos proponha oferece a mínima chance de superar a instabilidade no futuro.

Não importa quem ganhou, a reversão histórica do New Deal depois de 1945 continuará. O GOP e os Democratas continuarão a reverter a redução dos anos 30 das desigualdades de renda e riqueza dos EUA (forçada por baixo pelo Congresso de Organizações Industriais, socialistas e comunistas). Como sempre, o GOP reverte esses ganhos dos estadunidenses de maneira mais abrangente e rápida que os Democratas, mas ambos os partidos condenaram e gerenciaram a ascendente redistribuição de riqueza e renda desde 1945.

O GOP provavelmente celebraria explicitamente os ricos a quem são tão servis. Os Democratas provavelmente irão lamentar ocasionalmente sobre a desigualdade enquanto servem aos ricos silenciosamente. O GOP “economizaria custos governamentais” cortando programas sociais para os pobres e pessoas médias. Os Democratas provavelmente irão expandir esses programas enquanto evitam cuidadosamente qualquer questionamento, quem dirá provocações, em relação ao capitalismo.

Não importa quem ganhou, o que falta na política dos EUA é a escolha verdadeira. Ambos os partidos maiores funcionam como animadoras do capitalismo sob todas as circunstâncias, mesmo quando uma pandemia fatal coincide com um grande colapso capitalista. A verdadeira escolha política exigiria um partido que critica o capitalismo e oferece um caminho em direção à transição social para além do capitalismo. Pesquisas incontáveis provam que milhões de cidadãos dos EUA querem considerar críticas socialistas ao capitalismo e alternativas socialistas também. Os muitos eleitores de Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, e outros socialistas forneceram ainda mais evidências. No entanto, o sistema permitiu que uma extrema-direita quase fascista tomasse conta do GOP e da presidência. Ao mesmo tempo, ajudou os Democratas a excluírem um socialista de ao menos concorrer à presidência. Trump e Biden são animadores de longa data do capitalismo. Sanders era, em contraste, um crítico.

Um novo partido político que oferecesse críticas sistêmicas ao capitalismo e defendesse uma transição para um sistema econômico baseado em cooperativas de trabalhadores traria uma verdadeira escolha à política dos EUA. Colocaria na frente do eleitorado uma questão básica e de suma importância: qual mistura de empresas capitalistas e cooperativas de trabalhadores você gostaria de trabalhar para, comprar de, e conviver com nos EUA? Os eleitores poderiam, com isso, participar genuinamente da decisão dos tipos de empregos que seríamos capazes de escolher. Teremos sempre que aceitar posições como empregados cujos trabalhos são projetados exclusivamente para e pelos empregadores? Ou todas as descrições de empregos incluirão ao menos duas tarefas básicas: uma função específica dentro de uma divisão laboral de uma empresa e partilha igualitária (junto com outros trabalhadores a companhia) dos poderes de projetar e dirigir a companhia como um todo?

Qualquer comunidade que deseja se descrever como uma “democracia” para além de razões de auto-promoção, deveria receber um processo de tomada de decisão “um voto por pessoa” comandando como o trabalho é organizado.

A maioria dos adultos passa boa parte das suas vidas no trabalho. Como esse trabalho é organizado molda como suas vidas são vividas e quais habilidades, aptidões, apetites e relacionamentos eles desenvolvem. Seu trabalho influencia seus outros papéis sociais como amigos, amantes, cônjuges e familiares. No capitalismo, a experiencia laboral da grande maioria (empregados) é moldada e controlada por uma pequena minoria (patrões) para garantir o lucro, a acumulação de riqueza e reprodução como a minoria dominante do último. Em uma democracia real, a economia teria que ser reorganizada democraticamente. Decisões do trabalho seriam feitas com base no sistema de um voto por pessoa dentro de cada companhia. Paralelamente, tomadas de decisão democráticas similares governariam comunidades residenciais interagindo com os locais de trabalho. Democracias residenciais e nos locais de trabalho influenciariam significativamente as decisões de cada cidadão. Em suma, uma democracia econômica genuína seria a parceira necessária da democracia política.

Muitas sociedades “capitalistas” hoje incluem setores de companhias organizados como cooperativas de trabalhadores. O que elas precisam, mas não possuem são partidos políticos aliados para assegurar as leis, os precedentes legais e as decisões administrativas para proteger as cooperativas e facilitar seu crescimento. As primeiras companhias capitalistas e enclaves dentro do feudalismo também tiveram que encontrar ou construir partidos políticos pelas mesmas razões. Partidos anti-feudalismo e pró-capitalismo contestaram lordes feudais e seus monarcas primeiramente para proteger a existência de empresas capitalistas e depois para facilitar seu crescimento. Eventualmente, partidos pró-capitalismo realizaram revoluções para substituir o feudalismo e as monarquias a favor dos parlamentos, que foram então dominados pelos partidos capitalistas.

Hoje, partidos pró-capitalismo negam publicamente, mas temem silenciosamente que sua dominância política esteja ameaçada. O desgosto em massa com o capitalismo está crescendo. Uma razão é a realocação do crescimento do capitalismo dos velhos centros (Europa ocidental, América do Norte e Japão) para novos centros (China, Índia e Brasil). A globalização – o termo educado, mas confuso para essa realocação – gera declínios econômicos nos velhos centros que desestabilizam comunidades incapazes de se preparem para eles. Lá, o sumiço de oportunidades de emprego, renda e serviços sociais provocam questões e desafios crescentes que confrontam o capitalismo. Que estão, agora, levando a um desgosto maior em relação ao sistema capitalista. Pesquisas e outros sinais de desgosto transbordam. Nos EUA, por um lado, o GOP balançou para a direita. A figura quase fascista de Trump quer impor uma volta nacionalista para “salvar” o capitalismo dos EUA. Por outro lado, o velho, pró-capitalista establishment que comanda o Partido Democrata bloqueou Bernie Sanders e outros socialistas de qualquer poder ou voz. Salvar o capitalismo era e continua sendo o objetivo do establishment.

O capitalismo eventualmente derrotou e substituir o feudalismo ao combinar a expansão e construção em pequenos níveis das empresas capitalistas com partidos políticos focados no macro buscando maneiras de proteger essas empresas e facilitar seu crescimento. Os lucros dos capitalistas financiaram as atividades dos seus partidos. O socialismo derrotará e substituirá o capitalismo com uma combinação paralela de expansão das cooperativas de trabalhadores e um partido político usando o governo para protegê-los e facilitar seu crescimento. Os rendimentos das cooperativas financiarão as atividades de seus partidos.

A emergência de partidos socialistas politicamente significativos já está a caminho nos EUA. Além dos pequenos lembretes de partidos socialistas passados, Occupy Wall Street, o crescimento crescente e proeminência dos Socialistas Democráticas da América, as duas campanhas de Sanders, e a ascensão de outros políticos socialistas como Ocasio-Cortez são todos sinais de uma renovação socialista. Mas esses sinais também revelam um grande problema que se mantém: desorganização da esquerda. Os movimentos sociais, sindicatos, e as novas iniciativas socialistas precisam se unir em um partido socialista novo e mais amplo. Se esse partido também puder se tornar a voz política do setor crescente de cooperativas na economia, muitas condições importantes para uma transição para além do capitalismo terão sido alcançadas.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares

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