Pelo Mundo

Povo bolivariano inflige nova derrota à mídia ocidental

Ao copiar e colar, sem o mínimo senso crítico, o "plano de mídia" estadunidense, jornalistas ocidentais esperam mobilizar a opinião pública para permitir o assassinato de uma democracia, ocultando a limpeza sangrenta que se seguiria graças aos marines e aos paramilitares de Álvaro Uribe

27/02/2019 10:07

 

 
A máquina de propaganda não para: "Nicolas Maduro queima caminhões de ajuda humanitária". O senador Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá, ex-candidato à presidência da Colômbia, que nunca poupou críticas ao governo de Maduro, expressa indignação diante da lavagem cerebral.

Os caminhões foram queimados pelos seguidores de Guaidó (efêmero "presidente" da Venezuela nomeado por Donald Trump, NdR). Se os caminhões incendiados servirem de pretexto para uma invasão, Duque (atual presidente da Colômbia, protegido de Alvaro Uribe, NdR) e Guaidó entrarão para a história como instigadores de violência com base em uma mentira. Desde que comecei a escrever sobre o show e a chamada "ajuda humanitária", e desde que os verdadeiros autores do incêndio dos caminhões foram descobertos, eu disse claramente que a estratégia de Duque e Trump era uma invasão violenta. Já vimos que na Colômbia, sempre que nossos povos indígenas se manifestam e protestam, são reprimidos e mortos, assim como ossos camponeses, estudantes, vendedores ambulantes, e todos aqueles que se opõem, clamam por justiça e buscam a verdade. Se a prioridade de Duque fosse a proteção da população civil na fronteira, ele não teria realizado essa operação estúpida de agressão, que incluiu o show. Hoje, o controle da fronteira está nas mãos dos cartéis de drogas mexicanos. Não podemos permanecer como espectadores, devemos agir, nos mobilizar pela paz. Após seu fracasso, Juan Guaidó não escolheu o caminho de um verdadeiro diálogo na Venezuela, preferiu pedir abertamente uma intervenção militar estrangeira, sem se importar com os milhares de compatriotas que morreriam em seu país. Eu o convido a abrir as portas do diálogo".

O "bloqueio por Maduro da ajuda humanitária" enviada em aviões militares dos EUA por Elliot Abrams, ex-chefe dos esquadrões da morte na América Central, foi uma fake news anunciada. Dois dias antes dos incidentes, Dmitri Polyanskiy, primeiro adjunto do representante permanente da Rússia junto à ONU, afirmou: "Sob o pretexto de ajuda humanitária ao povo venezuelano, os Estados Unidos estão preparando provocação "flagrante" na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia no dia 23 de fevereiro. Num aparente estado de frenesi, nossos colegas americanos decidiram espalhar notícias falsas dentro do Conselho de Segurança".

O mesmo prognóstico foi feito pelo diplomata Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e ex-ministro da Defesa do Brasil (2003-2014): "A ajuda humanitária dos EUA para a Venezuela é uma provocação para intervir neste país e forçar Nicolás Maduro a sair. Trata-se de uma provocação para criar uma situação paramilitar que leve a uma mudança de regime". O ex-presidente Lula, de dentro de sua prisão política, também afirmou: "Não podemos permitir a submissão do Brasil aos EUA. Maduro é um problema dos venezuelanos, não dos americanos. Falam em fome mas não falam no bloqueio, que mata crianças, homens e mulheres inocentes”. Mesmo José Miguel Insulza, ex-secretário geral da OEA, que muitas vezes criticou o governo de Chávez, admitiu: "Ver o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos desembarcar na Colômbia, com todo tipo de generais e o senador Rubio, entre outros, tudo isto cheira cada vez menos a ajuda humanitária e cada vez mais a uma busca por um pretexto para o confronto".

Entendemos por que o enviado do Papa Francisco na Colômbia, Luis Mariano Montemayor, ou o Presidente da Cruz Vermelha na Colômbia, Christoph Harnisch, se recusaram a participar da encenação de uma "ajuda" que eles consideram, como a própria Secretaria Geral da ONU, mais "politizada do que humana". Na década de 1980, Elliot Abrams e a CIA já haviam usado falsos emblemas da Cruz Vermelha para enviar armas ilegalmente aos paramilitares do "Contra" na Nicarágua. No sábado, 23 de fevereiro, na fronteira colombiana, alguns paramilitares também usaram o símbolo.

Lembremos, a propósito, que Nicolas Maduro não impede a entrada de ajuda humanitária, já que tanto a ONU, com a qual acaba de assinar acordos, quanto a Rússia e a Índia, recentemente, enviaram toneladas de medicamentos e alimentos pelo porto de Guaíra. O fato de a mídia nunca falar sobre isso não significa que não esteja acontecendo. Sabendo que agências de pagamento como a Euroclear bloqueiam as transações venezuelanas no mercado de alimentos e remédios, essas potências ou organizações vêm atenuando os efeitos da guerra econômica conduzida nos últimos anos pelo governo dos EUA. Os efeitos desta guerra são descritos pelo especialista humanitário da ONU Alfred de Zayas.

As violências paramilitares na fronteira foram rejeitadas tanto pelas forças armadas venezuelanas como também pela população do país. Pois não devemos esquecer: se ninguém conseguiu violar o território da Venezuela e se a imagem do ativista de extrema direita Guaidó entrando triunfante na Venezuela, no estribo de um caminhão "humanitário" continua sendo uma fake news, é graças, também, a esta resistência popular. Os paramilitares colombianos ainda assim feriram 315 chavistas (em ataques realizados em San Antonio, Ureña e Boca de Grita).

Com o apoio da propaganda da mídia global, John Bolton, Mike Pompeo, Ivan Duque e Juan Guaidó prometeram pedir uma "escalada do uso da força" (sic) aos seus aliados neoliberais do "Grupo de Lima", a partir de segunda-feira, 25 de fevereiro. A chancelaria russa explicou que o texto nesse sentido estava pronto desde sexta-feira, e que um dos seus parágrafos denunciava os incidentes de sábado antes mesmo que tivessem ocorrido, atribuindo-os ao "regime Nicolas Maduro". No domingo, dia 24, o senador Marco Rubio tuitou uma foto de Muammar Kadafi ensanguentado, tirada pouco antes de seu assassinato, prometendo a Nicolas Maduro o mesmo destino num "futuro próximo". Enquanto isso, na Venezuela, enquanto alguns grupos de oposição tentavam em vão conclamar as forças armadas a se levantar contra "a ditadura", ocorriam diversas manifestações chavistas, com milhares de pessoas em Caracas em defesa da soberania da Venezuela diante da ofensiva imperialista. Mobilizações populares escondidas, como sempre, pela mídia ocidental.

Para o intelectual da descolonização Ramon Grosfoguel, que denuncia a posição "nem Maduro nem Trump" da "extrema esquerda" ocidentalizada, “uma das características do chavismo é ser um movimento popular em que a liderança das mulheres, e especialmente as mulheres não brancas dos barrios, é muito poderosa e importante. O grande problema do império é que Chávez foi um grande pedagogo popular da libertação, que fez um trabalho de conscientização de um povo, e especialmente das venezuelanas. A força espiritual de um povo não pode ser medida com estatísticas ou explicada em palavras, é algo a se sentido e vivido. Chávez não é mais um indivíduo, mas todo um povo. É difícil de entender estas palavras sem conhecer a Venezuela".

Ao copiar e colar, sem o mínimo senso crítico, o "plano de mídia" estadunidense – que nos lembra das supostas "armas de destruição em massa”, na origem da invasão que levou oitocentos mil iraquianos à morte – os jornalistas ocidentais esperam mobilizar a opinião pública para permitir o assassinato de uma democracia, ocultando a limpeza sangrenta que se seguiria graças aos marines e aos paramilitares de Álvaro Uribe. Esta mídia comete um erro triplo:

Acreditar que tentar ocultar um povo (que não é a minoria de direita alardeada como "povo", mas a maioria social, pacífica, que votou 25 vezes em 20 anos) fará com que esse povo não exista e não defenda seu país.

Acreditar que ocultar 20 anos de reformas sociais e democracia participativa fará com que essas reformas sociais e a democracia participativa deixem de existir e de ser defendidas.

Acreditar que esta propaganda ainda possa funcionar numa Europa onde até a classe média empobrecida já deixou de acreditar na narrativa das elites liberais.

Este é o erro também do império e da extrema direita venezuelana e colombiana: acreditar que podem, a golpes de campanhas midiáticas, forçar um povo a aceitar decisões tomadas à sua revelia, sem passar pelas urnas.

Thierry Deronne, jornalista belga, vive e trabalha em Caracas, de onde escreve o blog Venezuela Infos

*Publicado originalmente em legrandsoir.info | Tradução de Clarisse Meireles



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