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Preparem-se para a avalanche midiática anti-Sanders

 

28/02/2020 11:00

Bernie Sanders em comício em Austin, no domingo (Drew Angerer/ AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Bernie Sanders em comício em Austin, no domingo (Drew Angerer/ AFP/Getty Images)

 
A vitória estrondosa de Bernie Sanders nas convenções em Nevada - faz dele o precursor para a nomeação como candidato presidencial Democrata. Também coloca um alvo em suas costas e causa pânico no establishment do partido e em boa parte da mídia tradicional. Um autodeclarado “socialista democrático” liderando a corrida? Preparem-se para calúnias, acusações de comunismo e besteira pura.

Os políticos não conseguem se conter. A questão é se a mídia vai pilhar nisso – ou prover sensatez. As retóricas recentes não são encorajadoras.

A campanha de reeleição do presidente Trump já está se preparando para sua máquina do medo, que vai rolar sobre qualquer Democrata. Para impugnar Sanders, vai gritar sobre a Venezuela, Cuba e a ruína econômica enquanto pinta Trump como Horatius na ponte, salvando a América do socialismo.

Os rivais Democratas de Sanders certamente também irão sucumbir. O bilionário e ex-prefeito de Nova Iorque Mike Bloomberg já rotulou o posicionamento de Sanders sobre grandes fortunas como “comunista”. O ex-vice presidente Joe Biden e outros sugeriram uma preferência russa por Sanders. O Republicano James Clyburn, o poderoso corretor da Carolina do Sul, que provavelmente irá apoiar Biden, gravemente entoou que o termo socialismo democrático “sempre teve consequências extremas ao redor da Carolina do Sul”.

A política, como dizem, não é como “sentar no pudim”. E Trump certamente apagou inibições sobre usar mentiras e distorções. Os Democratas não estarão imunes. Em uma fala em Nevada no último final de semana, o prefeito de South Bend, Indiana, Pete Buttigieg açoitou Sanders por pressionar por uma “revolução ideológica e inflexível que deixa de fora a maioria dos Democratas, sem mencionar a maioria dos estadunidenses” – quem, é claro, Bittigieg diz representar. Isso aconteceu depois de Sanders deixar o local, que pisoteou Buttigieg, com uma diversa coalizão de homens e mulheres, brancos e latinos, eleitores de todas as idades, com exceção dos acima de 65, pessoas com e sem diplomas universitários, e lares sindicalizados ou não. Sanders liderou entre autodeclarados Democratas liberais, moderados e conservadores.

A questão chave a partir de agora é se os colunistas, contribuintes da TV a cabo e outros eruditos irão atiçar o pânico ou irão ajudar os estadunidenses a achar a luz no fim do túnel. A Fox News é um veículo irreparável de propaganda pró-Trump, mas os eleitores podem esperar algo melhor do resto?

A MSNBC já exibe uma severa “síndrome de loucura Sanders”. O apresentador Chris Matthews criou as piores calúnias, ligando Sanders a uma ameaça socialista de execuções públicas no Central Park. Ele comparou a vitória de Sanders em Nevada à invasão nazista na França. (Matthews, ao menos, já se desculpou por essa comparação). O estrategista James Carville, que havia apoiado o Senador Michael F. Bennet (Colorado), acusou os eleitores de serem burros e sugeriu na MSNBC que Vladimir Putin era o verdadeiro vencedor da convenção de Nevada. O cenário será logo decorado por pôsteres com a foice e o martelo?

Esse tipo de tática do medo não faz sentido. Sanders está no cargo há décadas e tem sido um legislador eficiente mesmo para um progressista em uma era conservadora. Sanders deixou claro o que pretende com o termo “socialismo democrático”: que assistência médica de qualidade, educação e um salário decente são direitos humanos e econômicos básicos que deveriam ser garantidos a todos.

Ele não falou sobre assumir o alto escalão da economia. Ele não está pregando com o “Pequeno Livro Vermelho” de Mao. Ao invés, Sanders decidiu se voltar aos estudos de Franklin Delano Roosevelt, o maior dos presidentes Democratas do século 20.

Em meio a Segunda Guerra Mundial, Roosevelt argumentou que ao sair da Grande Depressão e da guerra, os estadunidenses entenderam a necessidade de uma “Carta de Direitos” econômica que incluísse o direito à assistência médica, educação, moradia e trabalho com salários adequados. Isso, proclamou Roosevelt, seria um tributo aos sacrifícios feitos na guerra. Eleanor Roosevelt levou a bandeira à ONU, estabelecendo a Declaração de Direitos Humanos como um objetivo para a humanidade.

Os posicionamentos de Sanders não são de outro mundo. Nem são russos. Sua plataforma revive o legado de FDR, um legado que foi descartado quando os Democratas se renderam aos ventos da era conservadora – um período que conta com uma desigualdade obscena, baixa expectativa de vida, assistência média não acessível, aumento das mortes por desespero, divisão racial enraizada e uma classe média em declínio.

Sanders repetidamente invoca FDR quando define o que pretende por socialismo democrático. E ele descarta os insultos pelo o que eles são: “Quando falo sobre socialismo democrático, não estou olhando para a Venezuela. Não estou olhando para Cuba”, ele já disse. “Estou olhando para países como Dinamarca e Suécia.”

Enquanto a batalha das primárias Democratas continua, o indecente vai se sobrepor ao sério. Reportagens midiáticas irão documentar os insultos. É claro o posicionamento de Sanders. Os eruditos, colunistas e contribuintes da TV a cabo irão oferecer um choque de realidade aos estadunidenses – ou alimentarão a loucura?

*Publicado originalmente no 'The Washington Post' | Tradução de Isabela Palhares

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