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Presidente do Senado dos EUA para todos os estados: caiam mortos

Bloquear a ajuda federal é vil, mas também é hipócrita

26/04/2020 13:33

(T.J. Kirkpatrick/The New York Times)

Créditos da foto: (T.J. Kirkpatrick/The New York Times)

 
A Covid-19 matou dezenas de milhares de norte-americanos e claramente matará muitos mais. O bloqueio necessário para conter o coronavírus está causando uma crise econômica várias vezes mais profunda que a Grande Recessão.

No entanto, essa queda necessária não precisa ser acompanhada por severas dificuldades financeiras. Temos os recursos para garantir que todo americano tenha o suficiente para comer, que as pessoas não percam o seguro de saúde, que não percam suas casas por não poderem pagar aluguel ou hipoteca. Também não há razão para vermos cortes punitivos nos serviços públicos essenciais.

Infelizmente, parece cada vez mais provável que dezenas de milhões de americanos venham a sofrer, de fato, dificuldades extremas e que haja cortes devastadores nos serviços. Por quê? A resposta se resume, principalmente, a duas palavras: Mitch McConnell.

Na quarta-feira, McConnell, líder da maioria no Senado [Partido Republicano], declarou que se opõe a qualquer ajuda federal adicional a governos estaduais e locais em dificuldades e sugeriu que os estados declarassem falência. Para que ninguém acuse McConnell de ser apartidário, nem levemente apartidário, seu escritório distribuiu dois memorandos sobre as propostas de auxílio aos estados chamando-as de "resgates dos estados azuis" [estados governados por democratas].

Vários governadores já denunciaram a posição de McConnell como estúpida, o que realmente é. Mas também é vil e hipócrita.

Quando digo que temos os recursos para evitar graves dificuldades financeiras, refiro-me ao governo federal, que pode emprestar grandes somas a um custo muito baixo. Na verdade, a taxa de juros dos títulos corrigidos pela inflação, que medem os custos reais de empréstimos, é de 0,43% negativo: os investidores estão basicamente pagando ao governo federal para manter seu dinheiro.

Portanto, Washington pode e deve apresentar grandes déficits orçamentários neste momento de necessidade. Os governos estaduais e locais, no entanto, não podem, porque quase todos são obrigados por lei a executar orçamentos equilibrados. No entanto, esses governos, que estão na linha de frente para lidar com a pandemia, estão enfrentando uma combinação de receitas em colapso e despesas crescentes.

A resposta óbvia é a ajuda federal. Mas McConnell quer que estados e cidades declarem falência.

Isso é, como eu disse, estúpido em vários níveis. Por um lado, os estados nem sequer têm o direito legal de declarar falência; mesmo que de alguma forma conseguissem o mesmo resultado das falências e pudessem deixar de pagar suas dívidas relativamente pequenas, isso faria pouco para aliviar seus problemas financeiros - embora isso possa causar uma crise financeira nacional.

Ah, e a ideia de que este é um problema especifico de estados governados por democratas é ridícula. Crises fiscais estão surgindo em toda a América, da Flórida ao Kansas e ao Texas - atingidas especialmente pela queda dos preços do petróleo… até, sim, o estado natal de McConnell, Kentucky.

E se estados e governos locais forem forçados a cortes acentuados no orçamento, o efeito será aprofundar a crise econômica - o que seria ruim para Donald Trump e poderia custar o Senado aos republicanos.

Então, sim, a posição de McConnell é estúpida. Mas também é vil.

Pense em quem seria prejudicado se os governos estaduais e locais fossem forçados a fazer cortes drásticos. Muito dinheiro do Estado é destinado ao Medicaid, um programa que deveria estar se expandindo, e não encolhendo, pois milhões de americanos estão perdendo seu seguro de saúde e seus empregos.

Quanto aos funcionários dos governos estaduais e locais que podem estar perdendo seus empregos ou enfrentando cortes nos salários, a maioria está empregada em educação, policiamento, combate a incêndios e rodovias. Portanto, se McConnell conseguir o que quer, a política de fato dos EUA será resgatar os proprietários de grandes redes de restaurantes e demitir professores e policiais.

Por último, mas não menos importante, vamos falar sobre a hipocrisia de McConnell, que, como sua estupidez, vem em múltiplos níveis.

Em um certo nível, é realmente admirável ver um homem que ajudou a aprovar um gigantesco corte de impostos para as empresas - que elas usaram principalmente para recomprar suas próprias ações - agora fingir estar profundamente preocupado com o governo federal tomar dinheiro emprestado para ajudar os estados que enfrentam uma crise fiscal que não é culpa deles.

Em outro nível, também é notável ver McConnell, cujo estado é fortemente subsidiado pelo governo federal, ministrar palestras sobre autossuficiência em estados como Nova York que pagam muito mais impostos federais do que recebem.

Não estamos falando de números pequenos aqui. De acordo com estimativas do Rockefeller Institute, de 2015 a 2018, Kentucky - que paga relativamente pouco em impostos federais, porque é bastante pobre, mas que obtém grandes benefícios de programas como o Medicare e o Seguro Social - recebeu transferências líquidas de Washington, em média, de mais de US$ 33.000 por pessoa. Isso representava 18,6% do PIB do estado.

É verdade que estados relativamente ricos como Nova York, Nova Jersey e Connecticut provavelmente deveriam ajudar seus vizinhos mais pobres - mas esses vizinhos não têm o direito de reclamar de "resgates dos estado democratas" diante de um desastre nacional.

Obviamente, McConnell tem uma agenda aqui: ele espera usar a pandemia para forçar os estados afetados a encolher seus governos. Só podemos esperar que essa exploração vergonhosa da tragédia fracasse e que McConnell e seus aliados paguem um alto preço político.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de César Locatelli



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