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Pressão de Trump para encurtar confinamento prova: o capitão está voando às cegas

Observar Trump é testemunhar o poder impressionante e aterrador do presidente americano sobre a vida e a morte - um fardo que ele não está qualificado para carregar

26/03/2020 15:01

O presidente Trump gesticula enquanto faz uma pergunta à Dra. Deborah Birx, coordenadora da força-tarefa resposta à epidemia de coronavírus da Casa Branca, na maratona de informes oficiais à imprensa de segunda-feira. (Alex Brandon/AP)

Créditos da foto: O presidente Trump gesticula enquanto faz uma pergunta à Dra. Deborah Birx, coordenadora da força-tarefa resposta à epidemia de coronavírus da Casa Branca, na maratona de informes oficiais à imprensa de segunda-feira. (Alex Brandon/AP)

 

Devido ao distanciamento social, havia apenas duas dúzias de repórteres na sala de imprensa da Casa Branca na segunda-feira, fazendo parecer um voo com numerosos assentos vazios e muito espaço para as pernas.

Mas quando Donald Trump se enfureceu por quase duas horas, foi como se o capitão tivesse anunciado um súbito desejo excêntrico de pousar o avião na água usando uma venda nos olhos. Ficamos grudados nas cadeiras para uma jornada inquietante.

Em um dia em que cem mortes de americanos foram relatadas, o presidente dos EUA deixou clara sua intenção de reabrir o país para negócios muito antes do esperado e, aparentemente, mais cedo do que os especialistas médicos acreditam ser seguro. Por tudo o que sabemos sobre ele, esse impulso parece ter sido guiado pela Fox News, pelo Wall Street Journal, pelo mercado de ações, pelos números de pesquisas eleitorais, pela eleição iminente e por puro instinto. Não pela ciência.

Observar Trump se envolver nessa ação precipitada em tempo real a partir de um assento a 10 metros de distância foi testemunhar o poder impressionante e aterrorizante do presidente americano sobre a vida e a morte. É um fardo solene que ele, o primeiro ocupante da Casa Branca sem nenhuma experiência política ou militar anterior, é singularmente desqualificado para carregar.

“Nosso país não foi construído para ser fechado", disse ele na metade dos planejados 15 dias de confinamento que ele aconselhou para desacelerar a disseminação do vírus. “A América estará novamente aberta em breve para os negócios. Muito em breve. Muito antes de três ou quatro meses que alguns estavam sugerindo. Muito antes. Não podemos deixar que a cura seja pior que o próprio problema.”

Então, são semanas ou meses?

"Não estou pensando em meses, posso lhe dizer agora", respondeu ele.

Isso representou mais uma violenta mudança política. Primeiro, Trump disse aos americanos que não havia nada com que se preocupar e que o vírus desapareceria "como por um milagre". Então ele girou 180 graus e se declarou "um presidente em tempo de guerra", emitindo diretrizes federais estimulando os americanos a limitar o contato social e ficar em casa. Agora, ao que parece, ele está voltando à posição original.

Talvez tenha sido apenas coincidência que, no domingo, o apresentador da Fox News, Steve Hilton, tenha dito aos telespectadores: “Vocês conhecem essa frase famosa que a cura é pior que a doença? É exatamente por esse território que estamos avançando ... Vocês acham que é apenas o coronavírus que mata as pessoas? Essa completa paralisação econômica matará pessoas. ”

Talvez também tenha sido apenas coincidência que, na segunda-feira, o mercado de ações tenha passado do nível de fechamento em 19 de janeiro de 2017, um dia antes de Trump prestar juramento. Todo o ganho das ações da era Trump foi aniquilado.

A economia estava crescendo com um número recorde de empregos, disse ele. "Não podemos desativar isso e pensar que será maravilhoso. Haverá tremendas repercussões. Haverá uma tremenda morte por causa disso. Morte. Vocês estão falando sobre a morte. Provavelmente mais mortes por isso do que por qualquer coisa que estamos falando em relação ao vírus".

Ele salientou as depressões e suicídios causados pela recessão econômica, mas não apresentou nenhuma evidência de que o número de mortes seria maior do que as provocadas pelo coronavírus.

Ele realmente sugeriu que a taxa de mortalidade pelo vírus não é tão ruim quanto se temia inicialmente. "Todo o conceito de morte é terrível", disse ele, "mas há uma tremenda diferença entre algo abaixo de 1% e 4 ou 5 ou até 3%".

O tom ‘polianesco’ de Trump foi dissonante no dia em que as pessoas estavam morrendo e em que máscaras e outros equipamentos estavam desesperadamente acabando nos hospitais.

Foi um contraste surpreendente com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que anunciou um estrito bloqueio na Grã-Bretanha e as medidas draconianas em vigor em toda a Europa.

Trouxe à tona, também, a questão de saber se os cidadãos confiariam suficientemente nele para se sentirem seguros em retornar ao trabalho e a locais públicos ou se os governadores estaduais teriam a palavra final de todo modo.

O senador Lindsey Graham, geralmente leal a Trump, alertou em um tuíte: "Não há economia em funcionamento a menos que controlemos o vírus".

Mas o presidente insistiu que “podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo”, acrescentando: “Temos uma temporada de gripe muito ativa, mais ativa do que a maioria. Parece que está chegando a 50.000 ou mais mortes - mortes, não casos. 50.000 mortes - ou seja, isso é muito. E você olha para acidentes de automóvel, que são muito maiores do que qualquer número que estamos falando. Isso não significa que vamos dizer a todos que não dirijam mais carros. Então, temos que fazer coisas para abrir nosso país.”

Contudo, na última sexta-feira, quando o argumento do acidente de carro foi apresentado ao Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, ele disse: “Isso é totalmente fora de propósito. Isso é realmente uma equivalência falsa ... Eu não acho que com qualquer consciência moral você poderia dizer: 'Por que não liberamos e deixamos acontecer e deixamos X por cento das pessoas morrerem?' Não entendo esse raciocínio em absoluto."

Como um membro insuficientemente leal do aparato comunista na União Soviética, Fauci de repente não estava em lugar algum no briefing de segunda-feira à noite. O Guardian perguntou o porquê. Trump disse: "Eu estava com ele há pouco… ele está na reunião da força-tarefa agora." Ele concorda com você sobre a necessidade de reabrir a economia em breve? Trump: "Ele não discorda."

Mas o presidente estava acompanhado pela coordenadora da força-tarefa de resposta ao coronavírus, Deborah Birx. Ela observou: "Eu não estive aqui no fim de semana ... sábado, eu tive um pouco de febre baixa …"

Trump interveio "Uh, oh!" e recuou caricaturalmente distanciando-se. O procurador-geral William Barr sorriu devotadamente. Birx acrescentou: "Fiz um teste no final da noite de sábado e sou negativa".

Trump deu um exagerado: "Ufa!" Novamente Barr sorriu. Mas a sala não explodiu de alegria. O presidente também mencionou que sua esposa, Melania, havia feito um teste com resultado negativo.

Barr estava à disposição para discutir a ordem executiva de Trump para interromper a retenção de estoques e sobrepreços. "Se você tem um grande suprimento de papel higiênico em sua casa, não precisa se preocupar com isso", disse o procurador-geral. "Mas se você estiver sentado em um armazém com máscaras, máscaras cirúrgicas, ouvirá uma batida na sua porta."

Em outra reversão, Trump está voltando atrás em suas constantes referências ao "vírus chinês" em meio a relatos da mídia de crimes de ódio contra asiático americanos. Ele disse: "É muito importante que protejamos totalmente nossa comunidade asiático americana nos Estados Unidos e em todo o mundo. Eles são pessoas incríveis e a propagação do vírus não é, de forma alguma, culpa deles.”

Os informes terminaram às 20h. Trump e o co-piloto Pence retornaram à cabine. Estamos em um voo turbulento. Gabriel Sherman, correspondente especial da revista Vanity Fair, falou por muitos quando tuitou: “Esta é a primeira vez que estou genuinamente assustado. Eu devo ter estado em negação antes. Mas essa coletiva mudou tudo”.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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