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Principal epidemiologista do governo dos EUA faz alerta ao Congresso

 

24/06/2020 14:11

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Anthony Fauci, o principal médico de doenças infecciosas do governo, disse na terça-feira (23) a um painel da Câmara que os casos crescentes de COVID-19 nos EUA são "perturbadores", à medida que novos sinais emergem nos Estados Unidos, ficando ainda mais atrás de outros países na contenção do novo coronavírus.

Em mais da metade do país, o coronavírus está em ciclo crescente, e estados como Flórida, Texas e Arizona estão estabelecendo recordes de novos casos quase diariamente.

Contudo, os estados continuam avançando na reabertura de negócios e na revogação de restrições. Fauci alertou que, sem a capacidade de identificar, isolar e rastrear completamente os contatos dos indivíduos infectados, a situação poderá piorar.

Os governadores dos estados que foram os mais agressivos na reabertura finalmente reconheceram a natureza potencialmente terrível dos crescentes casos de vírus nos últimos dias, mas não indicaram que reimporão quaisquer restrições ou mesmo que interromperão o impulso de reabertura.

Fauci disse que o tempo está se esgotando para enfrentar os picos nos casos.

"Nesse momento, as próximas duas semanas serão críticas em nossa capacidade de lidar com os aumentos repentinos que estamos constatando na Flórida, no Texas, no Arizona e em outros estados", disse Fauci ao Comitê de Energia e Comércio da Câmara na terça-feira.

A audiência marcou uma rara oportunidade para os democratas da Câmara questionarem os funcionários do governo sobre suas ações frente à pandemia de coronavírus. Foi a primeira vez, em mais de um mês, que membros da força-tarefa de coronavírus da Casa Branca compareceram ao Congresso. A Casa Branca também encerrou os briefings públicos de funcionários do grupo.

Os esforços de supervisão do Congresso foram travados pela política da Casa Branca de que os altos escalões do governo não podem testemunhar sem a permissão do chefe de gabinete Mark Meadows.

O testemunho de Fauci e outras autoridades de saúde do alto escalão do governo contrasta com a retórica rósea e, às vezes, desdenhosa do presidente Trump, do vice-presidente Pence e de outros funcionários do governo, que estão ansiosos por declarar vitória sobre o vírus.

Especialistas temem que, ao desqualificar o números crescentes de casos e resistir ao uso de máscara facial, Trump dê ao público a mensagem de que o vírus não é mais uma ameaça e coloque o país em risco de prolongar a crise.

Trump reduziu drasticamente o trabalho da força-tarefa e incentivou os estados a reabrir o mais rápido possível, mesmo sem a maioria atender às diretrizes da própria administração.

Durante uma entrevista à Fox News na semana passada, Trump disse a Sean Hannity que o vírus "desapareceria" mesmo sem uma vacina.

Tanto Fauci quanto o diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Robert Redfield, rejeitaram a ideia e disseram que o vírus continuará até o outono e o inverno.

Redfield alertou que o surto vai se sobrepor à temporada de gripe no outono, o que "pode colocar um fardo colossal para o sistema de saúde".

A incapacidade dos EUA de conter o surto de coronavírus também está sendo sentida internacionalmente. Enquanto a União Europeia reabre suas fronteiras, a região está considerando proibir todos os viajantes dos EUA, devido à piora da situação da COVID-19 nos Estados Unidos.

A Europa, em grande parte, conteve o surto, e países como Itália e Espanha, que antes eram epicentros do vírus, sofreram bloqueios sustentados que foram mais rigorosos do que em qualquer lugar nos Estados Unidos.

Fauci disse que a resposta dos EUA tem misturado aspectos bons e ruins.

Atualmente, existem cerca de 30.000 novos casos por dia nos Estados Unidos. O número de novos casos chegou a cerca de 20.000 e ficou lá por semanas antes de subir novamente no fim de semana passado.

"Em alguns aspectos, trabalhamos muito bem", disse Fauci, elogiando especificamente a maneira como Nova York conteve o pior surto do vírus até o momento.

“No entanto, em outras áreas do país, agora estamos vendo uma onda perturbadora de infecções que parece ser devida a uma combinação de fatores, mas um deles é um aumento na disseminação pela comunidade. E isso é algo que realmente me preocupa”, disse Fauci.

As autoridades continuam atribuindo o aumento nos casos ao aumento dos testes, apontando particularmente para um aumento no número jovens que agora estão testando positivo. As mortes também têm diminuído nos últimos dias, o que Trump e outros têm apontado como um sinal de sucesso.

A COVID-19, a doença causada pelo vírus, matou mais de 120.000 americanos.

“Os casos estão em alta apenas por causa do nosso grande número de testes. Taxa de mortalidade muito baixa!!!” Trump tuitou na terça-feira.

No entanto, Fauci contradisse Trump quase em tempo real, dizendo que era muito cedo para tirar conclusões sobre a taxa de mortalidade.

"Sempre há um considerável lapso temporal entre as mortes e a constatação dos casos", disse Fauci. "Estamos vendo mais casos agora enquanto as mortes estão diminuindo. A preocupação é que, se esses casos infectam pessoas que acabam ficando doentes e indo ao hospital, é possível que as mortes subam.”

Fauci disse que, pelo que sabe, nenhum funcionário do governo foi instruído a retardar os testes, como Trump sugeriu em um comício de campanha no sábado.

A Casa Branca enviou mensagens conflitantes sobre testes e sobre os comentários de Trump nos últimos dias, insistindo, na segunda-feira, que o presidente estava brincando quando disse que mais testes fazem o país parecer mal ao identificar mais casos de coronavírus.

"Eu não brinco", disse Trump na terça-feira, quando perguntado se fez os comentários em tom de brincadeira.

Fauci disse que os comentários de Trump não refletem as ações reais do governo.

"É o contrário", disse Fauci. "Vamos fazer mais testes, não menos".

O deputado Greg Walden (Ore.), O principal republicano no Comitê de Energia e Comércio da Câmara, também procurou confirmar que Trump não havia realmente dado um ordem para desacelerar a aplicação dos testes.

O comissário da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA), Stephen Hahn, e o secretário assistente de Saúde e Serviços Humanos (HHS), Brett Giroir, que lidera os esforços de testes, disseram categoricamente que Trump nunca havia mandado que eles desacelerassem os testes.

*Publicado originalmente em 'The Hill' | Tradução de César Locatelli



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