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Principal freio à Covid-19: informações consistentes do governo

Máscaras e bloqueios são eficazes, mas a melhor ação do governo são informações consistentes

26/07/2020 14:22

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Na terça-feira (21), os Estados Unidos registraram 1.119 mortes por COVID-19, o número mais alto desde 2 de julho. Os números iniciais da quarta-feira não estão melhores, com a Flórida registrando 140 mortes, embora as informações estejam incompletas. Tudo isso ocorre apenas algumas semanas depois que os governadores de vários dos estados mais afetados estavam se gabando de como, com certeza, houve um aumento nos casos, mas eles não trouxeram um aumento nas mortes. Desde o início da epidemia nos EUA, as autoridades se mostraram incapazes de lidar com o lapso de tempo entre o momento em que uma ação é tomada e quando as respostas são geradas. A crise da COVID-19 não é um interruptor de luz. Qualquer ação levará pelo menos duas semanas para ter um efeito óbvio nos números e, na maioria dos casos, o tempo entre ação e reação será mais próximo de um mês.

Uma nova análise de dados de pandemia publicada na revista PLOS Medicine, de livre acesso, tenta ir além dessas diferenças de tempo para determinar quais ações são realmente eficazes. Os autores, que são da Universidade de Utrecht, na Holanda, desenvolveram um modelo que examinava as ações individualmente para ver o que poderia impedir a propagação da COVID-19. Os resultados gerados correspondem ao que todos viram na prática: máscaras, distanciamento social, lavagem das mãos e ordens para ficar em casa são ferramentas eficazes. Mas o principal fator para frear a COVID-19 não é nenhum dos acima. É conscientização - informações consistentes do governo que mantêm todos na mesma página e fazem com que as pessoas tomem decisões individuais, mesmo sem ordens.

Mesmo antes de ser emitida a primeira ordem para ficar em casa, ficou entendido que isso teria um impacto imediatamente visível na economia. Afinal, as lojas estão fechadas. Os restaurantes estão ociosos. Os compradores… não estão. É compreensível que as pessoas tenham começado a se preocupar com o efeito que as ordens para ficar em casa têm, instantaneamente, nos bolsos e que o peso da perda foi sentido todos os dias. Como os Estados Unidos são um dos poucos países a não fornecer alguma forma de renda universal durante a crise, e ainda com medidas ineficazes para proteger locatários e proprietários de imóveis de meses de contas acumuladas, não foi surpresa que, dentro de um período muito curto, uma parcela dos norte-americanos estaria pronta para protestar contra as ordens de permanecer em casa. Em seguida, a mídia deu uma cobertura fetichista a um punhado de caipiras armados que apareceram nas sedes de governos estaduais no início da crise, criando uma ilusão de que a demanda por reabertura era de alguma forma universal, embora a grande maioria dos norte-americanos ainda apoiasse as ordens de permanência em casa.

Então, governadores como Parson, no Missouri, e DeSantis, na Flórida, começaram a reabrir depois de bloqueios que duraram apenas três semanas. Eles mantiveram uma ordem de permanência em casa por tempo suficiente para os casos começarem a declinar, e imediatamente começaram a reverter essa conquista. Enquanto se gabavam.

A desconexão entre as ações tomadas para lidar com a COVID-19 e os resultados permitiu que governadores como o DeSantis se gabassem, em maio, de que os casos estavam sob controle. E voltaram em junho para desdenhar que, claro, os casos estavam subindo, mas a taxa de mortalidade ainda era baixa. E finalmente veio julho para declarar… bem, não importa. Ele assumiu o compromisso de pilotar este avião até o pouso, não importa quantos passageiros estivessem a bordo. Mas mesmo em estados onde os governadores agiram, eles o fizeram muito lentamente. Nos estados republicanos e democratas, muitos governadores esperaram até que o desastre fosse óbvio antes de agir. A diferença entre eles pode ser melhor refletida assim - os republicanos agravaram seus erros sendo ainda mais relutantes em fechar a economia por uma segunda vez, apesar de que a lição deveria estar fresca em suas mentes.

O que o estudo da Holanda mostra é completamente previsível: as ações têm consequências. Elas podem não ser imediatamente visíveis, mas também são inexoráveis. E o maior fator pode ser simplesmente fornecer ao público uma mensagem sólida e consistente sobre o perigo do vírus, a importância de assumir responsabilidade pessoal e diretrizes consistentes sobre como lidar melhor com a situação.

Os pesquisadores descobriram que os governos que impõem o distanciamento social na forma de ordens de permanência em casa, encerram encontros sociais e fecham negócios podem definitivamente "achatar a curva" e ganhar tempo para uma nação preparar uma resposta sanitária e tomar outras ações. Uma intervenção de três meses pode essencialmente interromper o crescimento da epidemia local, embora não elimine todos os casos ativos, por um período de até sete meses. O que significa que se os estados dos EUA tivessem ativado o bloqueio em março e continuado até maio, a reabertura poderia ter começado em junho com a expectativa de que a pandemia teria permanecido significativamente reduzida até o final do ano. Exceto que … não foi isso que aconteceu.

Associe a intervenção do governo com o distanciamento social no nível individual e o efeito será ainda maior - especialmente se as práticas pessoais de distanciamento social, uso de máscaras e lavagem das mãos continuarem após o término da intervenção. Novamente, uma combinação de distanciamento social imposto pelo governo, seguido de distanciamento social pessoal, parece ser suficiente para levar uma nação ao período em que uma vacina pode estar disponível. Infelizmente, não nesta nação.

Mesmo sem o benefício de uma intervenção governamental de meses, o uso de máscaras e a lavagem das mãos são medidas eficazes. Isso torna a consciência contínua da necessidade dessas ações "crítica".

“... governos e instituições de saúde pública devem mobilizar continuamente as pessoas para adotar medidas autoimpostas com eficácia comprovada, a fim de enfrentar com êxito a COVID-19.”

Com 27 estados e o Distrito de Columbia agora com ordens para o uso de máscaras, as informações nos Estados Unidos estão começando a se tornar mais consistentes. As pessoas precisam ser lembradas com frequência de que essas práticas são as etapas mais importantes para preservar vidas e a economia. E se as mensagens consistentes são o fator mais crítico para interromper a pandemia, isso significa que pessoas como Parsons, DeSantis e Donald Trump são o maior perigo para a nação.

*Publicado originalmente em 'Daily Kos' | Tradução de César Locatelli



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