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Profecia tropical: Em 1998, Francisco escreveu livro sobre Fidel

O livro 'Diálogo entre João Paulo II e Fidel' foi escrito em 1998 pelo atual papa. Obra profética. O estudo confirma o interesse de Bergoglio pela ilha.

17/09/2015 00:00

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Créditos da foto: reprodução

“Bem-vindo a Cuba, Papa Francisco” dizem os cartazes que recebem os turistas recém-chegados ao aeroporto José Martí. Os mesmos cartazes que se repetem em alguns balcões da Havana Velha, onde o rosto sorridente do sumo pontífice Jorge Mario Bergoglio se confunde com os branquíssimos lençóis que se secam ao sol.
 
Nesta quinta, enquanto arquitetos e artesão davam os últimos retoques na restauração da catedral, na Itália, a milhares de quilômetros da capital cubana, foi lançada uma nova edição do livro “Diálogos entre João Paulo II e Fidel”, escrito em 1998 pelo então arcebispo de Buenos Aires Jorge Bergoglio, quando ninguém, nem sequer ele mesmo, imaginava que algum dia seria o chefe da Igreja Católica, e tampouco que ele viajaria a Cuba em setembro de 2015. Será recebido neste domingo pelo presidente Raúl Castro, e, possivelmente pelo próprio Fidel, no sábado.
 
O livro que foi relançado esta semana em Roma tem um teor quase profético, escrito como se fosse um apanhado de “notícias do futuro”, segundo comenta o professor Fernando Lucero Schmidt, que escreveu o prefácio da obra, e que trabalhou com Bergoglio na década de 90.
 
Na primeira edição, lançada na Argentina em 1998, a capa mostrava um Fidel saudável, de paletó e gravata, cumprimentando o envelhecido porém obstinado Karol Wojtyla. A foto é da época em que o papa polonês já sofria do mal de Parkinson – cujos primeiros sintomas apareceram em 1992, durante a cerimônia de beatificação do espanhol José María Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei e apoiador da ditadura de Francisco Franco – mas ainda assim continuava viajando por diversos países.
 
O Opus Dei é um grupo católico ultradireitista, ao qual pertencem vários padres de Miami e seus seguidores, que defendem o bloqueio norte-americano, militam na contrarrevolução e repudiam a visita do papa argentino a Cuba.
 
Foi desse mesmo Opus Dei “verminoso”, batizado como “o Exército de João Paulo II”, que nasceram centenas de quadros políticos que se apoiaram e trabalharam para as ditaduras sul-americanas dos Anos 70 e 80.
 
Na nova edição de “Diálogos entre João Paulo II e Fidel”, que acaba de ser apresentada na Europa, já não aparece na capa a imagem do sumo pontífice falecido em 2005, mas sim a do primeiro papa latino-americano.
 
Como se sabe, os tempos da Igreja marcham no ritmo dos milênios, com uma cadência muito diferente daquela da vida cotidiana, onde as mudanças ocorrem como um turbilhão.
 
A visita de Karol Wojtyla marcou de forma profunda as relações entre o Vaticano e Havana. A ilha havia reformado sua constituição alguns anos antes, e alterado especialmente os pontos relativos à religião.
 
O papa polaco foi um missionário anticomunista, aterrizou em Cuba tardiamente, depois de visitar praticamente todos os países da América Latina, entre eles o Chile, do ditador e terrorista de Estado Augusto Pinochet, em 1987.
 
Ainda assim, Fidel recebeu o ex-arcebispo de Cracóvia de braços abertos, e aplaudiu o discurso realizado por ele na Universidade Havana.
 
Bem antes de sua viagem ao Vaticano, ocorrida em 1996, o comandante havia decidido conhecer mais profundamente o catolicismo, como foi relatado pelo livro de Frei Betto, “Fidel e a Revolução”, de 1985. O texto conta a abertura de Fidel e do socialismo existente em Cuba, onde se estabelece um diálogo importante com a Teologia da Libertação. Enquanto os intelectuais cubanos começaram a dialogar com o cristianismo surgido do Concílio Vaticano II, as conferências episcopais latino-americanas de Medellín (1968) e Puebla (1979), se aproximaram do arsenal teórico surgido do marxismo.
 
Contudo, esses avanços nas décadas de 60 e 70 sofreram uma derrota importante a partir da chegada de João Paulo II à Santa Sé, em 1978, um religioso que ficou conhecido por ter varrido os bispos e arcebispos progressistas das principais dioceses e arquidioceses do continente.
 
Nada é casual
 
“As relações entre Cuba e o Vaticano é um dos temas que interessam a Bergoglio há décadas, porque são um desafio para uma Igreja com espírito de diálogo,” aponta Francesca Ambrogetti, a biografa do Papa.
 
O caminho do reencontro entre ambos foi “muito delicado, rico em matizes, algo que sempre despertou o interesse de Bergoglio, que viu na visita de João Paulo II, em 1998, um sinal importante. Compreendeu que aquela visita era histórica, talvez porque era o encontro de duas pessoas diferentes, com interesse em dialogar”.
 
“É importante destacar que Bergoglio sempre foi um religioso de pensamento próprio, sempre escreveu ensaios, organizou debates, existem trabalhos interessantíssimos feitos por ele em 1975, sobre a importância de compreender a diversidade”, comenta a escritora italiana, entrevistada pela Carta Maior.
 
Nos 17 anos que se passaram desde a publicação da primeira edição do livro houve mudanças na ordem internacional, favorecendo a multipolaridade, e entre essas mudanças, duas eleições papais. Na de 2005, o escolhido foi o alemão Joseph Ratzinger, cuja visita a Cuba, em 2012, não deixou nada importante. Na de 2013, quando foi eleito Jorge Bergoglio, o papa vindo “do fim do mundo”, como ele mesmo disse para uma multidão na Praça São Pedro, ao lado do cardeal brasileiro Cláudio Hummes.
 
Sem dúvidas, a reedição do livro, nas vésperas de sua viagem a Havana não é uma casualidade, pelo contrário, é um fato carregado de simbologia. Significa que este chefe de Estado do Vaticano, o primeiro da América Latina, refletiu sobre a ilha revolucionária com mais profundidade e dedicação que os seus antecessores eurocentristas.
 
E mostra ao mesmo tempo uma série de indícios de mudanças e de continuidade.
 
Sinais de mudanças, porque Bergoglio não se parece em (quase) nada com Wojtyla. Está livre da contaminação da “guerra de fronteiras ideológicas contra o comunismo” da qual o Vaticano foi aliado (e cúmplice) de Washington.
 
Francisco não será acolhido como um sócio de Washington, mas sim como alguém que deu “apoio ao diálogo entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos” afirmou ontem o chanceler cubano Bruno Rodríguez, em coletiva para a imprensa internacional.
 
Esta viagem “será um acontecimento transcendental, pois as posições (de Francisco) suscitam admiração na América Latina e surgem em um contexto internacional hemisférico muito particular” afirmou o ministro de relações exteriores.
 
Além disso, em termos confessionais, este papa demostrou ser capaz de recuperar parte do legado da Teologia da Libertação combatida por Wojtyla e Ratzinger. Meses antes, ele recebeu no Vaticano o padre peruano Gustavo Gutiérrez, mentor dessa corrente de pensamento que ainda sobrevive nas comunidades eclesiásticas de base.
 
Porém, ao mesmo tempo, Francisco encarna uma forma de continuidade. Sua chegada à ilha invencível, esta semana, retoma agenda de João Paulo II, em sua preocupação por injetar vitalidade ao catolicismo numa cultura religiosa com importante influência dos cultos africanos.
 
Também há de se considerar a prioridade dada ao continente latino-americano, onde os neopentecostais, abençoados pela geopolítica da fé estadunidense, ganham mais território a cada dia, algo que se observa com preocupação na América Central, a poucas milhas marinhas de Cuba.
 
Se a viagem papal de 1998 inspirou o ensaio de Bergoglio, esta viagem possivelmente será motivo de outros livros, que serão escritos a partir da perspectiva dos longos tempos históricos, os tempos da relação entre a Igreja e o marxismo, os tempos da relação entre a conquista e o Novo Mundo. Neste domingo, quando o jesuíta Francisco ingresse à catedral havanera, uma verdadeira joia barroca, se reencontrará com uma obra que começou a ser construída em meados do Século XVIII, por seus irmãos da Ordem de São Ignácio de Loyola.
 
Tradução: Victor Farinelli








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