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Professor de Harvard: o 'gangster neofascista Trump' e os democratas neoliberais revelam EUA como 'experiência social fracassada'

"Agradeço a Deus que as pessoas estejam nas ruas", disse o filósofo e ativista de Harvard. "Você pode imaginar esse tipo de linchamento acontecer e as pessoas ficarem indiferentes? As pessoas não se importarem? As pessoas serem insensíveis?"

01/06/2020 15:55

Manifestantes ateam fogo a um veículo da polícia durante um protesto após a morte de George Floyd em frente ao CNN Center, próximo ao Centennial Olympic Park, no centro de Atlanta, Geórgia, Estados Unidos, em 29 de maio de 2020. Na sexta-feira foi divulgado que Derek Chauvin, o ex-policial de Minneapolis, pego na câmera com o joelho no pescoço de Floyd, foi preso e acusado de homicídio e homicídio culposo em terceiro grau. (Ben Hendren/Agência Anadolu via Getty Images)

Créditos da foto: Manifestantes ateam fogo a um veículo da polícia durante um protesto após a morte de George Floyd em frente ao CNN Center, próximo ao Centennial Olympic Park, no centro de Atlanta, Geórgia, Estados Unidos, em 29 de maio de 2020. Na sexta-feira foi divulgado que Derek Chauvin, o ex-policial de Minneapolis, pego na câmera com o joelho no pescoço de Floyd, foi preso e acusado de homicídio e homicídio culposo em terceiro grau. (Ben Hendren/Agência Anadolu via Getty Images)

 

O professor de filosofia da Universidade de Harvard, Dr. Cornell West, concedeu uma entrevista à CNN na sexta-feira à noite, no momento em que ocorriam protestos por todo o país pelo assassinato, cometido pela polícia, de George Floyd em Minneapolis, Minnesota. Ele fez uma acusação grave, não apenas da supremacia branca, do neofascismo do presidente Donald Trump e do criminoso sistema de justiça que, repetidamente, trata de forma brutal os pobres e os negros e pardos - mas também de uma profunda depravação, existente no sistema capitalista neoliberal do século XXI nos Estados Unidos, que domina os dois principais partidos políticos.

"O que quero dizer com isso", explicou West, "é que a história do povo negro, há mais de 200 anos, nos Estados Unidos tem testemunhado o fracasso dos Estados Unidos. Sua economia capitalista não pôde gerar e entregar resultados de tal maneira que as pessoas possam ter vidas decentes. O Estado-nação, seu sistema de justiça criminal, seu sistema jurídico não consegue gerar proteção de direitos e liberdades. E agora nossa cultura, tão claramente orientada ao mercado – com tudo à venda, com todos à venda – não consegue entregar o tipo de alimento para a alma, para significado, para propósito".

West explicou que a atual raiva pelo assassinato de Floyd pela polícia – um deles, o policial Derek Chauvin, foi preso na sexta-feira e acusado de assassinato e homicídio culposo - contribui para uma "tempestade perfeita" de múltiplas falhas e iniquidades que preexistem sob o sistema imperial norte-americano, sobre o qual pessoas como Martin Luther King, Jr. e outros vêm alertando desde meados do século passado.

"Quando vi aquelas fotos lá de Atlanta", disse West, "você podia ver o irmão Martin ali mesmo, em Atlanta, dizendo: 'Eu falei a vocês sobre militarismo. Eu falei a vocês sobre pobreza. Eu falei a vocês sobre materialismo. Eu falei a vocês sobre racismo em todas as suas formas. Já falei a vocês sobre xenofobia. E o que você vê nos Estados Unidos são aquelas galinhas que sempre voltam para o poleiro, estão colhendo o que semearam e, neste instante, temos o irmão George - é claro - foi um linchamento no mais alto nível. Ninguém pode negar isto."

Enquanto protestos em solidariedade irromperam muito além de Minneapolis, na noite de sexta-feira, em resposta ao ultrajante assassinato de Floyd - e pelo assassinato, pela polícia, de outras vítimas negras, pardas e marginalizadas - West disse: "Agradeço a Deus que as pessoas estejam nas ruas. Você pode imaginar esse tipo de linchamento acontecer e as pessoas ficarem indiferentes? As pessoas não se importarem? As pessoas serem insensíveis?"

West denunciou o presidente Donald Trump como o "gangster neofascista na Casa Branca", mas disse que o fracasso da nação - que permite desigualdade endêmica e uma cultura de ganância e consumismo, que atropela os direitos e a dignidade das pessoas pobres e minorias, década após década - vai muito além do atual presidente.

"O sistema não pode se reformar", argumentou West e apontou para uma dinâmica na qual solicita-se que a representação identitária seja a defesa da igualdade de classes, a prosperidade compartilhada e uma democracia funcional que realmente expresse a vontade do povo e satisfaça as necessidades materiais dos trabalhadores e dos pobres.

"Tentamos caras negras em altos postos", disse ele. "Muitas vezes nossos negros, sejam políticos, profissionais de alto nível e classe média, ficam acomodados demais à economia capitalista, acomodados demais a um estado-nação militarizado, acomodados demais à cultura de celebridades, status, poder, fama, todas essas coisas superficiais, dirigidas pelo mercado, que significam tanto para muitos concidadãos".

"Temos uma ala neoliberal do Partido Democrata, que está agora no banco do motorista com o colapso do irmão Bernie [Sanders], e eles realmente não sabem o que fazer", acrescentou West, "porque tudo o que eles querem fazer é mostrar mais rostos negros - mostrar mais rostos negros. Mas, muitas vezes, esses rostos negros também estão perdendo legitimidade - porque o movimento Black Lives Matter surgiu sob um presidente negro, sob um procurador-geral negro e sob um chefe da segurança doméstica negro, e eles não conseguiram entregar o que era necessário. Então, quando você fala sobre as massas de negros - os preciosos pobres e a classe trabalhadora, formada por negros, pardos, vermelhos, amarelos, de qualquer cor - são as que ficam de fora e sentem-se completamente impotentes, desamparads, sem esperança - então teremos rebelião."

Segundo West, o país enfrenta agora uma escolha entre "revolução não violenta" e a continuidade das falhas do status quo. "E por revolução, o que quero dizer é o compartilhamento democrático do poder, dos recursos, da riqueza e do respeito", explicou. "Se não conseguirmos esse tipo de compartilhamento, teremos explosões mais violentas."

Ao reiterar os perigos inerentes a Trump, West disse que um benefício do presidente é que ele diz ao mundo exatamente quem ele é. Por outro lado, as falhas mais amplas do sistema sob a economia capitalista neoliberal raramente são reveladas ou reveladas exatamente como são.

"A supremacia branca vai durar muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito tempo, não se surpreenda quando isso acontecer novamente", disse West.

"Mas a questão é que devemos lutar", concluiu. "Mesmo no momento em que temos um experimento social fracassado, devemos lutar. Precisamos ter uma coalizão antifascista contra o que está acontecendo na Casa Branca e no Partido Republicano. E também precisamos contar a verdade sobre a disfarçada e covarde atividade, que também muitas vezes vemos, com muita frequência, na ala neoliberal do partido democrata e devemos ser críticos de nós mesmos em termos de manter vivos os mais altos padrões morais e espirituais de Martin Luther King Jr. e Fanny Lou Hammer e Ella Baker. E você vê esse trabalho na alma da família do irmão George Floyd".

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de César Locatelli

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