Pelo Mundo

Protesto estudantil no Chile traz à memória ditadura de Pinochet

05/08/2011 00:00

Christian Palma - Direto de Santiago, Especial para a Carta Maior

As mobilizações estudantis no Chile começaram no início de junho, quando os estudantes dos liceus mais emblemáticos do país decidiram tomar os colégios exigindo melhoras na infraestrutura danificada pelo terremoto, a gratuidade do transporte escolar, igualdade e equidade entre ensino público e privado e mudanças na Constituição para assegurar a qualidade do sistema.

Como um rastilho de pólvora, uma a uma as escolas foram se somando a essa mobilização. Ao cabo de algumas semanas também se somaram as universidades tradicionais e, mais tarde, o Colégio de Professores. A frase anunciada pelo presidente Sebastian Piñera, de direita, a respeito de que “este seria o ano da educação”, ligou a tomada que os jovens não desligaram mais até ver os resultados concretos, como ficou demonstrado nestes dois meses de ocupações, greves e marchas massivas pelas ruas das principais cidades chilenas e que já custaram a cabeça do ministro da Educação, o líder do partido de ultra-direita UDI, Joaquín Lavín.

A mobilização de quinta-feira foi a mais violenta desde que se iniciaram os protestos, no dia 6 de junho. Neste período, os dirigentes dos estudantes secundários, conhecidos como “pinguins”, os universitários reunidos na Confederação de Estudantes do Chile (Confech), lideradas pela dirigente comunista, Camila Vallejo, e o Colégio de Professores, encabeçado pelo também comunista Jaime Gajardo, conseguiram levar às ruas centenas de milhares de pessoas que exigem um tratamento igualitário na educação em um país onde a educação é boa para quem pode pagar e medíocre para quem não paga.

No entanto, quinta-feira, a Prefeitura Metropolitana não autorizou uma nova marcha pela Alameda, a principal rua de Santiago, o que gerou a ira dos estudantes que nesta sexta deveriam responder à oferta do governo a suas demandas.

Mesmo assim, os pinguins chegaram até à Praça Itália, em pleno centro de Santiago. Ali os carabineiros, conhecidos como “pacos”, estavam esperando-os com gás lacrimogêneo, carros com jatos d’água e homens a cavalo. Antes que os jovens conseguissem se juntar foram reprimidos duramente pela polícia, o que fez lembrar os piores momentos da ditadura de Pinochet. A permanência no gabinete de Piñera de vários ex-colaboradores do falecido ditador chileno, foi considerado um horrível deja vu por parte da cidadania que relaciona este governo com esses anos obscuros onde as botas e as baionetas governavam o Chile.

A repressão teve êxito. Os jovens não puderam marchar pela Alameda. No entanto, Camila Vallejo, presidente da Confederação de Estudantes, convocava outra marcha mais massiva, às 18h30min, fazendo valer o direito constitucional de livre reunião. Além disso, declarou que Santiago estava sob Estado de Sítio. Ela acusou também provocações por parte do governo e reiterou que o movimento estudantil “não vai aceitar intimidações”.

As redes sociais seguiram atentas o desenvolvimento das atividades, onde a crítica à ação policial foi transversal.

A negativa do governo e o apoio à ação dos carabineiros só incendiou mais os ânimos das pessoas que já estão indignadas por temas como o escasso avanço na reconstrução pós-terremoto, as promessas de campanha não cumpridas, a aprovação da construção de centrais hidroelétricas no sul do Chile e a pouca tolerância da direita a temas como a união de casais homossexuais, a diversidade cultural e a desigualdade social entre ricos e pobres.

As cenas de protesto e repressão se repetiram ao longo do país com mais de 250 pessoas detidas e vários feridos de ambos os lados.

A essa hora, o governo recebia outra má notícia. A influente pesquisa semestral do Centro de Estudos Públicos revelava que o presidente Piñera tem 26% de popularidade, enquanto que a rejeição à sua gestão já ultrapassou a casa dos 50%. Outro balde de água fria para um governo que se apresentou com credenciais de excelência no dia em que se instalou em La Moneda e agora vê seu líder máximo obter a pior nota na história dessa pesquisa.

Esta enorme queda foi um impulso a mais para os estudantes, pois 80% dos chilenos rechaçam o lucro e a desigualdade na educação, segundo a mesma sondagem.

Ainda na tarde de quinta, os estudantes secundaristas tentaram outra vez marchar até o Palácio La Moneda. Mais de 1.300 homens dos Carabineros impediram a passagem, repetindo-se o quadro da manhã. Ao final do dia, as mobilizações deixaram 552 pessoas detidas e 29 policiais feridos.

Em um momento de calma, a Confech deu um prazo de seis dias ao governo para responder as demandas, caso contrário os estudantes seguirão mobilizados inclusive com o risco de perder o ano escolar.

Mais tarde, por volta das 21 horas, um impressionante e barulhento panelaço foi escutado em vários pontos do país. A ação de protesto, similar às efetuadas em meados dos anos oitenta contra Pinochet, foi um grito a mais dos milhões de chilenos que não estão contentes com a maneira com a qual este governo de direita dirige o país.

Somaram-se aos protestos de descontentamento social trabalhadores da mineração, do setor de transportes, ecologistas, homossexuais, aposentados e uma multidão de anônimos que seguem gritando “basta”.
“Esta é a primeira jornada de protesto nacional contra Piñera”, sintetizou à noite o Prêmio Nacional de História, Gabriel Salazar, ao refletir sobre a jornada com o incessante barulho das panelas soando por toda Santiago como pano de fundo.

Incêndios, barricadas e mais enfrentamentos com os carabineiros compuseram o epílogo de um dia que este governo de direita vai querer esquecer para sempre, mas que também deixou evidente o descontentamento das pessoas com as autoridades e com a classe política chilena em geral.

Tradução: Katarina Peixoto

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