Pelo Mundo

Protestos contra governo sírio aumentam número de mortos

23/07/2011 00:00

Manifestantes contra o governo carregam um cartaz com uma foto do presidente Assad e os dizeres:

Créditos da foto: Manifestantes contra o governo carregam um cartaz com uma foto do presidente Assad e os dizeres: "Saia. Nós não confiamos em você" (AP)
Centenas de milhares de sírios saíram às ruas nesta sexta-feira em manifestações contra o governo do presidente Bashar al-Assad. Pelo menos 11 pessoas foram mortas pelas forças de segurança. As tensões são crescentes no período que antecede o feriado do Ramadã. O número de vítimas – divulgado por dois grupos sírios de defesa dos direitos humanos – diminuiu em relação a protestos anteriores, mas o número de manifestantes nas ruas parece ter sido um dos maiores já registrados na onda de protestos dos últimos quatro meses. Em Alepo, a segunda cidade da Síria, cadetes militares desarmados foram vistos marchando com manifestantes civis e pedindo a derrubada do governo e a saída do presidente Bashar al- Assad.

A situação em Damasco estava invulgarmente calma após grandes manifestações perto do centro da cidade na semana passada. Mas protestos foram relatados em Deir Ezzor, no leste, e em Suweida, no sul. A população foi chamada a expressar solidariedade com o povo da cidade central de Homs – foco principal dos últimos protestos – onde cerca de 40 pessoas foram mortas nos últimos dias em meio a temores de agravamento dos conflitos sectários. Cinco das últimas vítimas eram de Homs. Um vídeo amador postado na internet mostrou uma manifestação de milhares de pessoas depois das orações em um dia chamado “Sexta-feira dos descendentes de Khalid”, uma referência a um discípulo do profeta Maomé que unificou a Península Arábica no século VII e está sepultado em Homs.

Perto de Hama, cenário de um famoso massacre em 1982 durante o governo de Hafez Assad, pai do atual presidente, centenas de milhares de pessoas também foram às ruas, mas não havia presença ostensiva de forças de segurança. Grandes protestos também foram relatados pela primeira vez em Alepo, na sexta-feira. A TV síria informou que um civil foi morto por um “bando armado”, termo habitual utilizado pelo governo para quase todos os protestos. Em Damasco, havia sinais de uma ação policial mais comedida, com as forças de segurança disparando para o ar ou usando gás lacrimogêneo para impedir que os protestos se espalhem pela cidade.

Ativistas relataram a presença de barreiras policiais e de um forte esquema de segurança em Rukn ad-Deen, em grande parte do bairro curdo no nordeste da cidade no extremo leste de Qaboun, onde um funeral em massa foi realizado na quinta-feira. Mas os protestos prosseguira, como de costume, em Midan, um bairro conservador perto da antiga cidade murada.

Transmissões de vídeo ao vivo pela internet e imagens de melhor qualidade têm sido divulgadas pelos manifestantes, apesar das tentativas do governo para controlar os meios de comunicação e de bloqueio do acesso a serviços de e-mail e twitter. Um vídeo mostrou manifestantes em Midan batendo palmas e gritando “O povo é livre, a Síria é livre”. Imagens de Aleppo mostraram um homem coberto de sangue sendo carregado. E em Qamishli, fronteira com a Turquia, de maioria curda, gás lacrimogêneo foi lançado para dispersar um protesto.

Manifestações de solidariedade com a população de Homs – tomada por soldados e tanques nas ruas – ocorreram no final de uma semana quando pelo menos 40 pessoas foram mortas na cidade, alguns deles, supostamente, em confrontos sectários entre manifestantes e grupos partidários do governo. Mas os relatos destes “conflitos sectários” têm sido muito contestados por ativistas e alguns analistas. “O movimento de protesto parece ser predominantemente pacífico e não sectário, mas como o controle do Estado está enfraquecido, algumas pessoas podem estar se aproveitando dos protestos para outras finalidades”, disse um diplomata ocidental em Damasco. Esse pode ser o caso dos bairros do norte de Homs, onde alauítas e sunitas são segregados em bairros adjacentes.

Estão se multiplicado relatos de mortes por vingança e violência por parte dos “Shabiha thugs”, grupos aliados do governo. Algumas fontes disseram que os ataques contra um ônibus militar perto de Rastan, ao norte de Homs, na quinta-feira, matando dois soldados, pode ter sido um caso de um ataque de vingança.

Em Homs, ativistas e moradores relataram um aumento dos casos de deserção, incluindo oito integrantes da inteligência militar que mudaram de lado depois de uma repressão brutal. Ativistas também disseram que várias tripulações de tanques desertaram esta semana e se juntaram a manifestantes na cidade oriental de Albu Kamal, de maioria sunita, na fronteira com o Iraque. As imagens de Aleppo mostrando cadetes do exército desarmados marchando com civis foi uma novidade surpreendente, mas é difícil avaliar sua dimensão ou significado. Os ativistas sírios estão alertando os manifestantes que imitam slogans usados no Egito e na Tunísia (onde o exército mudou de lado e ajudou a derrubar dois presidentes), tais como “o povo e o exército são uma só mão” que eles não devem contar com isso na Síria. “A situação aqui é muito diferente e nós sabemos disso”, disse um deles em Damasco.

Há relatos de que delegações do Brasil, Índia e Turquia estariam na capital para se reunir com Assad em meio a rumores de que ele fará um novo discurso ao país, o quarto desde o início dos protestos. Prevê-se que ela irá propor a revogação do artigo oitavo da Constituição síria, que prevê um papel de liderança para o partido governista Baath. Também há boatos de que Assad estaria considerando a possibilidade de convocar eleições presidenciais – supervisionada por delegações do exterior – alguns meses depois da promulgação de uma nova lei dos partidos políticos. “Esta pode ser a única via pacífica para superar essa situação”, disse um analista. “Mas não estou certo de que o movimento das ruas vai aceitá-la a essa altura dos acontecimentos”.

Em outros desdobramentos dos protestos, manifestantes destruíram uma estátua de Hafez al-Assad, em Hasaka, levando as forças de segurança a abrir fogo, conforme relatos da TV al-Arabiya. Centenas de pessoas também marcharam na cidade sulista de Suweida, enquanto outras manifestações ocorreram na província de Idlib. Segundo o Observatório Sírio para Direitos Humanos, 1.419 civis e 352 membros das forças de segurança foram mortos desde o dia 15 de março, e mais de 1.300 pessoas foram presas.

(*) Nour Ali é um pseudônimo para um jornalista em Damasco.(por razões de segurança)

Tradução: Katarina Peixoto

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