Pelo Mundo

Protestos em Cuba têm a mão oculta do bloqueio dos EUA

A escala dos protestos tem sido exagerada pela imprensa ocidental e pelos cubano-americanos que, há 60 anos, preveem a queda iminente do governo cubano

14/07/2021 14:16

O presidente cubano, Díaz-Canel, falando a jornalistas após uma passeata nas ruas. (Foto: Reuters / Alexandre Meneghini)

Créditos da foto: O presidente cubano, Díaz-Canel, falando a jornalistas após uma passeata nas ruas. (Foto: Reuters / Alexandre Meneghini)

 
Protestos eclodiram em várias cidades cubanas no fim de semana de 11 de julho por causa das péssimas condições econômicas e um aumento nos casos de Covid-19. São os maiores protestos contra Cuba em três décadas e podem continuar nas próximas semanas. Eles vêm na esteira dos protestos de artistas em Havana no final de 2020 e se espalharam por muitas partes da ilha. Mas sua escala tem sido exagerada pela imprensa ocidental e pelos cubano-americanos que vêm prevendo, há 60 anos, a queda iminente do governo cubano.

Veículos de mídia como o The New York Times escreveram sobre "centenas de cubanos", enquanto a Reuters os descreveu como milhares. Em todo caso, Cuba tem uma população de 11 milhões de pessoas. Os protestos empalidecem em comparação, tanto em termos de comparecimento quanto em termos de repressão estatal, com as mobilizações em massa que abalaram Colômbia, Haiti, Chile, Equador e outros países latino-americanos nos últimos anos - ou mesmo Portland, Oregon ou Ferguson, Missouri. Além disso, a mídia norte-americana deu pouca atenção aos contramanifestantes, que saíram às ruas para expressar seu apoio ao governo e à Revolução Cubana. Isso inclui o próprio presidente cubano Miguel Díaz-Canel, que marchou nas ruas de Havana depois de denunciar os protestos como uma tentativa de "fraturar a unidade do povo".

Os protestos devem ser entendidos no contexto de uma guerra econômica brutal travada, por mais de 60 anos, pelos Estados Unidos contra a nação insular. Isso foi exposto claramente pelo subsecretário de Estado adjunto dos Estados Unidos em 1960, quando pediu explicitamente "negar dinheiro e suprimentos a Cuba, diminuir os salários reais e monetários, provocar fome, desespero e derrubar o governo". Essa estratégia falhou em seu objetivo de mudança de regime por décadas e é improvável que tenha sucesso agora.

Não há como negar que os cubanos estão enfrentando condições muito severas no momento. O país foi atingido por apagões, além de escassez de medicamentos, alimentos e outras necessidades básicas. A escassez de alimentos não resultou em fome ou inanição, mas as pessoas têm que esperar em longas filas para obter bens - muitas vezes a preços inflacionados - e sua dieta é extremamente limitada.

Em termos de saúde, mesmo medicamentos e equipamentos básicos como seringas são difíceis de adquirir. Além disso, houve um aumento nos casos de Covid-19, principalmente na cidade de Matanzas. No entanto, essa onda – por mais onerosa que seja para o povo de Matanzas - também deve ser mantida em perspectiva. Cuba, uma nação de aproximadamente 11 milhões de habitantes, teve menos de 240.000 casos de Covid-19 e 1.537 mortes. Em comparação, Ohio, que tem uma população de tamanho semelhante, teve 1,1 milhão de casos e mais de 20.000 mortes.

Apesar da escassez, as políticas de saúde cubanas protegeram a população do pior da pandemia. Com 139 mortes de Covid-19 por milhão de habitantes, Cuba está entre os melhores desempenhos do hemisfério, milhas à frente das 1.871 mortes por milhão nos Estados Unidos. Além disso, Cuba já provou que duas das cinco vacinas Covid-19 que está desenvolvendo são bem-sucedidas na prevenção de infecções por coronavírus e já vacinou mais de dois milhões de pessoas com suas vacinas produzidas localmente.

A escassez está sendo usada por proponentes da mudança de regime para acusar o governo cubano de falhar com seus cidadãos. Até a Casa Branca de Biden pediu às autoridades cubanas que "ouçam seu povo e atendam às suas necessidades neste momento vital, em vez de enriquecerem". Não está claro quem Biden pensa que está "se enriquecendo" em Cuba, mas qualquer crítica a Cuba que não inclua uma análise aprofundada do bloqueio norte-americano, internacionalmente condenado, deixará de lado o fator mais importante que explica por que os cubanos estão atualmente passando por tantas dificuldades.

Embora o bloqueio esteja em vigor há mais de seis décadas, ele foi reforçado de maneiras significativas sob a política de "pressão máxima" do governo Trump. Esta estratégia teve como alvo o turismo, a energia e outros setores econômicos importantes de Cuba. Restringiu até mesmo as quantias de dinheiro que os cubano-americanos podem enviar para casa e fechou as filiais cubanas da Western Union, principal veículo de envio de remessas. Essas políticas tiveram um impacto desastroso na economia cubana, especialmente quando a paralisação da indústria do turismo induzida pela Covid privou a ilha de bilhões de dólares e milhares de empregos. Por sua vez, o governo Biden vem "revendo" sua política para Cuba há seis meses, ao mesmo tempo em que dá continuidade à estratégia de guerra econômica de Trump, que visa precisamente criar a escassez que os cubanos vivem agora.

A guerra econômica dos Estados Unidos contra Cuba sempre foi associada a outras estratégias para derrubar o governo cubano. Isso inclui tentativas de assassinato, apoio a terroristas (como Luis Posada Carriles, que explodiu um avião cubano em 1976, matando 73 pessoas), uma tentativa de invasão e milhões de dólares gastos em "soft power". Por exemplo, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) gasta cerca de US$ 20 milhões por ano financiando grupos dissidentes em Cuba. O Office of Cuba Broadcasting, financiado pelos Estados Unidos, que dirige as redes de oposição Rádio e TV Martí, tem mais de 100 funcionários e um orçamento anual de cerca de US$ 28 milhões, transmitindo um fluxo interminável de propaganda antigovernamental.

Essa propaganda se estende às redes sociais, onde a hashtag #SOSCuba começou a ficar em evidência na Flórida, dias antes do início dos protestos. Esse fato sugere que houve uma campanha coordenada para atingir o governo cubano e culpá-lo pelas dificuldades que o povo cubano está enfrentando. Também lembra um escândalo que estourou em 2020, quando descobriu-se que a CLS Strategies, uma empresa com ligações com o Departamento de Estado, inundou as redes sociais com notícias falsas e prejudiciais sobre governos de esquerda na América Latina.

Esta campanha de mídia social parece estar funcionando, mas não em Cuba. O que, ao contrário, irritou o lobby anticubano e seus apoiadores na Flórida. O prefeito de Miami, Francis Suarez, chegou a pedir a intervenção dos Estados Unidos. A verdade é que o que acontece na Flórida provavelmente terá mais impacto sobre o povo cubano do que o que acontece na própria ilha.

Embora seja muito improvável que os protestos derrubem o governo cubano, eles podem ter o potencial de interromper importantes progressos feitos para pressionar o governo Biden a suspender as sanções da era Trump e se reaproximar novamente de Cuba, assim como fez o governo Obama.

Por exemplo, em março, 80 membros da Câmara dos Representantes enviaram uma carta ao presidente Biden instando-o a acabar, sem demoras, com as restrições a viagens e a remessas. Neste momento, um grupo de cubano-americanos, liderado pelo professor de ensino médio e veterano de guerra Carlos Lazo, está caminhando de Miami a Washington, DC, para pedir o fim do embargo. E como parte dessa pressão antibloqueio, milhares de norte-americanos doaram cerca de US$ 500.000 para comprar seringas para as vacinas contra Covid-19 de Cuba.

Essa pressão popular e política pode ser frustrada por uma agenda de direita que buscará punir ainda mais os cubanos em nome de salvá-los. Não seria surpreendente ver o presidente Biden ceder à direita e manter as sanções cruéis. A julgar pela declaração da Casa Branca, o presidente Biden está colocando cálculos políticos grosseiros que tratam da política interna à frente do bem-estar de 11 milhões de cubanos.

Mas, ao continuar com as sanções, Biden pode muito bem se ver lidando com uma crise migratória cubana. Nos últimos meses, a Guarda Costeira dos Estados Unidos relatou um aumento no número de jangadas que navegam de Cuba para a Flórida. Quase 500 candidatos a imigrantes foram devolvidos a Cuba pelas autoridades dos EUA em 2021, em comparação com 49 pessoas no ano passado. Enquanto a economia cubana continuar a ser golpeada pelas sanções dos EUA, mais cubanos tentarão a jornada traiçoeira ao exterior. Isso tem potencial para se tornar uma crise que prejudicará o governo Biden, dado seu foco recente em impedir a migração.

Com o golpe de uma caneta, Biden poderia suspender todas as medidas coercitivas que Trump implementou. Isso salvaria vidas cubanas e poderia começar a redefinir a política externa de Biden no caminho mais diplomático que Obama começou a adotar em seu segundo mandato. Mas Biden até agora o rejeitou em relação a Cuba, Venezuela, Irã, China e outras áreas com problemas autoinfligidos na política externa dos EUA.

Medea Benjamin, cofundadora da Global Exchange e CODEPINK: Mulheres pela Paz, é autora, entre outros, do livro de 2018, "Inside Iran: A verdadeira história e política da República Islâmica do Irã."

Leonardo Flores é um especialista em política latino-americana e ativista da CodePink.

*Publicado originalmente por Common Dreams | Traduzido por César Locatelli






Conteúdo Relacionado