Pelo Mundo

Protestos em Israel influenciados pelo mundo árabe

09/08/2011 00:00

Amira Hass - Haaretz

Líderes sociais palestinos acreditam que os protestos sociais que eclodiram ao longo de Israel são fortemente influenciados pela primavera árabe, e que os militantes israelenses devem entender que eles também estão sofrendo com a ocupação e o dinheiro gasto em assentamentos na Cisjordânia.

Os israelenses estão imitando o mundo árabe, e os palestinos da Cisjordânia acreditam que isso é uma coisa boa. De acordo com a agência de notícias Ma’na, 14,032 (quase 75%) dos 18, 722 leitores que responderam a sua pesquisa online acreditam que o que está acontecendo nas ruas de Israel é influenciado e está imitando a “primavera árabe”.

“Israel está inadvertidamente se tornando parte do Oriente Médio”, disse a socióloga Honaida Ghanim, que pesquisa a sociedade israelense, acrescentando que “este é o poder do ativismo das bases sociais, quando os ideólogos do país não são consultados”.

Ghanim não se surpreendeu quando os protestos começaram. Como cidadã israelense, nascida em Maria e Diretora Geral do MADAR, o Fórum Palestino de Estudos Israelenses, a socióloga está bem familiarizada com a polarização israelense. No entanto, está certa de que os acontecimentos recentes na Tunísia e no Egito tiveram um grande impacto no movimento de protesto israelense.

Sufian Abu Zaida é membro do Fatah e ex-prisioneiro, que atualmente dá aulas sobre a sociedade israelense na Universidade Birzeit e na Universidade Aberta Al-Quds. Ele nasceu em Jabaliya, um campo de refugiados na Faixa de Gaza, de uma família de refugiados da cidade de Burayr (atualmente Bror Hayil).

O professor palestino lembra de rememorar os seus alunos no ano que vem desta “que pode ser a primeira coisa que os israelenses aprenderam com os árabes. Eles sempre se apresentaram como o único raio de luz positiva na escuridão do Oriente Médio. De repente há algo a ser aprendido com esses retardados”.

Ghanim cita fatores sociológicos adicionais como parte do ímpeto por mudança em Israel, dizendo que “por um lado, há o neoliberalismo e a globalização, que resultaram num inaceitável vão entre a riqueza do estado e dos indivíduos e a aspereza da vida da maioria das pessoas. Por outro, há essas ferramentas similares – redes sociais online, com o Facebook liderando a lista, que têm um alcance muito maior na mídia”.

Mesmo assim, não há muito interesse dos palestinos nos protestos que tomaram as ruas de Israel por três semanas. “Somos um povo em luta permanente com o governo, três semanas de protesto não são o suficiente para prender a nossa atenção”, disse Nariman al-Tamimi, de Nabi Salih, e Afat Ghatasha, uma militante feminista e membro do Partido do Povo Palestino.

No entanto, ambas estão impressionadas – assim como outros palestinos – com o fato de que o movimento israelense defende a melhoria do já alto padrão de vida em Israel, em comparação aos dos palestinos. O que os israelenses estão exigindo “é luxo”, de acordo com Ghatasha.

“Eu sei algo a respeito da crise de moradia”, disse Tamimi, que foi erroneamente posta numa prisão por oito dias, há um ano e meio atrás, por ter atacado um policial com um objeto cortante. Ela veio a ser condenada por “obstruir o trabalho do policial na realização de seus deveres”, durante uma manifestação contra a apropriação de terras e de um poço de água na cidade.

Seu marido Bassam foi preso há quatro meses e enfrenta a acusação de organizar manifestações de protesto em sua cidade. “Para nós, palestinos, não é uma crise de moradia que estamos enfrentando, mas um banimento de moradia, embora a responsabilidade do governo israelense por ambas as situações seja um denominador comum”, disse ela.

A Administração Civil lançou uma ordem de demolição para a sua casa, construída na Área C. A casa original, construída em 1963, não era grande o suficiente para a família inteira e eles tiveram de ampliar a sua casa sem uma permissão: uma permissão que Israel não deu.

De sua casa, que poderá ser destruída a qualquer dia, os membros da família podem ver o assentamento de Halamish se erguer. “Há poucos dias, minha filha viu os manifestantes israelenses comigo, enquanto eu navegava na web”, disse Tamimi, “quando nos reunimos no escritório do Comitê Popular de Resistência al-Bireh”.

“Ela me perguntou: eles também são dispersados com bombas de gás, eles são atingidos? Eu lhe disse que não, não eram. Ela não podia entender a diferença; nós também estamos lutando por justiça social, não estamos?”, disse Tamimi.

O principal elemento faltante na onda israelense de protestos, de acordo com Tamimi é a desconexão entre a luta social e a ocupação israelense.
Abu Zaida é o único que parece otimista quanto aos protestos, dizendo que “as pessoas vão começar a julgar o seu governo nos seus gastos com os assentamentos e os assentados. Está para acontecer isso. Justiça Social significa uma distribuição igualitária dos recursos do país. Todo mundo sabe que não é isso o que está ocorrendo por razões políticas e ideológicas”.

Ghanim, no entanto, acredita que os movimentos de protesto israelenses fracassarão porque os bons modos políticos impedirão as pessoas de verem a ligação natural com a ocupação, com o governo continuando a fazer dos assentamentos a mais alta prioridade, desprovendo o povo palestino de sua liberdade.

“O movimento é liderado pela classe média e por muitos intelectuais, uma classe social que gera muito conhecimento no sentido sociológico, mas no sentido espiritual, disse Ghanim, acrescentando “eles eventualmente vão estabelecer uma conexão com a ocupação. No entanto, historicamente processos estratégicos levam muito tempo, enquanto a liderança tem pouco tempo em mente, sem tratar da raiz do problema. E assim o movimento vai colapsar. Netanyahu trará a Cisjordânia a Tel Aviv, quer dizer, ele vai fazer um upgrade no apartheid, e isso é tudo”.

Tamimi e Ghatash acreditam que esta é uma oportunidade para os israelenses entenderem que também são vítimas da ocupação. “Todas as granadas e bombas a gás jogadas sobre nós nas nossas manifestações custam dinheiro que não pode ser gasto para melhorar as condições dos israelenses”, disse Tamimi. Mesmo assim, afirmou, ela ouviu que um dos líderes dos protestos falou contra os anarquistas, porque eles protestaram contra os soldados.

“Eles são ativistas que lutam conosco nos últimos anos”, disse ela. “Como você pode exigir justiça social para apenas um grupo?”.

Ghatasha, que nasceu no campo de refugiados de al-Fawwar, numa família da cidade palestina despovoada Bayt Jibrin, também se viu inclinada a não enxergar diferença alguma que tenha sacudido o país.

Em maio passado ela se encontrou com ativistas da esquerda israelense que vieram para uma conferência de partidos da esquerda palestina, em Hebron. Na conferência ela falou sobre os dois processos impedirem as atividades feministas palestinas e a participação das mulheres na luta contra a ocupação.

Por um lado, disse, a ação das ongs (a canalização das atividades das ongs fundadas em diversos países) reduz a influência dos grupos de mulheres. Por outro, a militarização da segunda intifada afastou a maior parte da população, inclusive mulheres, da esfera da luta política.

“O que é isso que faz com que alguns israelenses tenham e outros, não?”, pensou ela, na festa em seu gabinete em Hebron. “Eu queria entender a racionalidade do povo israelense”, acrescentou. “Por um lado há esse egoísmo de um povo vivendo sobre a miséria de outro, sem lamento. Por outro, é óbvio que eles estariam melhor se vivessem num país normal, sem desperdiçar seu dinheiro na sustentação da ocupação, disse Ghatasha.

A despeito de seus receios, todos os quatro concordam que o protesto permitirá aos palestinos – a maior parte dos quais só conhece os israelenses dos assentamentos e os soldados – a verem que “a sociedade israelense não é unidimensional, que é complexa, que não deve ser tomada monoliticamente, que tem suas lutas e suas próprias classes oprimidas”, disse Ghanim.

“O protesto está dilacerando a imagem de Israel como um país perfeito, em que todos são satisfeitos, têm suas vilas e circulam diariamente em seus carros”, acrescentou Abu Zaida.

Tradução: Katarina Peixoto

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