Pelo Mundo

Protestos unem de pacifistas a hackers nos Estados Unidos

25/08/2004 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

São Paulo – Além de avalizar a candidatura do presidente George W. Bush à reeleição, a convenção nacional do Partido Republicano, que ocorre entre 30 de agosto e 2 de setembro em Nova York, está atraindo o que é considerada uma das maiores multidões de ativistas já reunidos em um evento político-partidário no país. Nessa massa, estão representados todos os grupos e setores em cujos calos Bush pisou nos últimos anos: ambientalistas, homossexuais, feministas, ativistas antiguerra, pró-direitos humanos e pró-liberdades civis, altermundistas, estudantes, sindicalistas e anarquistas.

A ficha suja do bushismo, hasteada como bandeira pelos ativistas, é longa. De traz pra frente, começa pela escolha do local e da data da convenção que, pela primeira vez em 150 anos, acontece em Nova York. “É uma tentativa mórbida de explorar as vidas perdidas no ataque de 11 de setembro. Nos opomos frontalmente àqueles que vem para explorar a tragédia de nossa cidade, de olho em ganhos políticos”, afirma a página na internet do grupo nova-iorquino RNC Not Welcome (Convenção Nacional Republicana Não Bem-vinda), formado recentemente para se contrapor ao encontro.

Desnecessário listar ainda como motivação dos protestos as guerras do Afeganistão e do Iraque, os gastos militares astronômicos diretamente ligados aos cortes dos gastos sociais, o desrespeito às convenções ambientais internacionais, o ataque à união homossexual, as reincidentes violações oficiais dos direitos humanos e das liberdades civis, a recessão e o desemprego, entre tantas outras medidas antipopulares do governo Bush. Contra elas, vale de tudo; de calcinhas com estampas anti-Bush a "bicicleatas" de bikers ambientalistas, previstas para tomar Nova Iorque no dia 28, ou a marcha dos mil cachões (embrulhados na bandeira americana), para o dia 29.

Protestos e “sabotagens”
As atividades anti-republicanas, apesar de estarem concentradas nos dias 29 a 2, não apenas já agitam Nova Iorque, como foram organizadas com muita antecedência. De Boston, onde, na última semana de julho, aconteceu a convenção do Partido Democrata, um grupo ligado ao United for Democracy, simpático ao zapatismo, iniciou, no dia 26 do último mês, uma marcha de 30 dias para Nova York, com o objetivo de mobilizar a opinião pública.

Já em Manhattan, que ferve com mostras fotográficas, exibições e intervenções artísticas, dezenas de grupos estão organizando desde o início da semana seminários de capacitação em “desobediência civil não-violenta” e cursos sobre direitos legais (para os que forem presos), em preparação para o A31, dia de desobediência civil massiva e não-violenta programado para o último dia de agosto. A idéia, explicam os ativistas, é aplicar as táticas de protesto desenvolvidas desde as manifestações de Seattle, incluindo uma “morte em massa”, quando milhares de pessoas devem deitar nas ruas simbolizando as vítimas das guerras.

Menos afeitos a exercícios físicos, os cybermaníacos - hackers ou crackers, autodenominados hacktivistas – também estão se preparando. No início do mês, o grupo CrimethInc Black Hat Hackers Bloc fez um chamamento internacional para uma ação massiva de “sabotagem” dos meios eletrônicos republicanos, mais especificamente páginas na internet, correios eletrônicos e faxes. Segundo os hacktivistas, uma das estratégias é bombardear os servidores e inviabilizar o funcionamento das páginas eletrônicas. Para isso, o grupo oferece ferramentas especiais em sua própria página.

Já o bombardeamento de correios eletrônicos, explica o CrimethInc Black Hat Hackers Bloc, é feito através do envio de milhares de mensagens, que simplesmente travam o sistema. Segundo eles, ferramentas para isso podem ser encontradas em http://www.elitehackers.com/f/old.htm ou http://undergroundmac.com/hacking.html. “Bombardeamento de faxes também é um mecanismo que trava a comunicação do inimigo e desperdiça seu papel. Cole algumas folhas de papel preto umas nas outras, e quando passar a primeira, simplesmente a fixe na última, formando assim um rolo. Depois é só relaxar e refazer as ligações quando forem interrompidas”, diz nota do grupo.

O evento mais esperado, a grande marcha do dia 29, também vem sendo organizado há semanas pelo maior grupo antiguerra dos EUA e principal liderança dos protestos contra a Convenção, o United for Peace and Justice (UPJ). No momento, a UPJ negocia com o prefeito Michael Bloomberg e com a Suprema Corte a permissão de, após percorrer a Madison Square Garden, rua onde acontece a convenção, terminar os protestos no Central Park. “Apesar da negativa do prefeito, estamos otimistas de que ganharemos na justiça a permissão de ocupar o paruqe. Se vencermos, marcharemos para o Central Park. Se perdermos, negociaremos com a prefeitura um encerramento pacifico e seguro em outro local”, diz nota do UPJ.

A preocupação da UPJ em manter o caráter pacífico dos protestos tem dois motivos. De um lado, há a preocupação de que confusão e violência possam ser capitalizadas politicamente pelos republicanos. Do outro, há o receio da repressão. Segundo o jornal mexicano La Jornada, as autoridades promoveram semana passada algo como um desfile de moda para mostrar os novos equipamentos de repressão adquiridos pela polícia, e se fala em preparativos para prender cerca de mil ativistas por dia durante a convenção.

Paz ou big business?
Não por acaso, Michael Bloomberg, o prefeito de Nova Iorque, chegou onde chegou. Encarnando a essência do espírito americano do money making, o poderoso magnata das comunicações – é dono do multimilionário complexo de mídia Bloomberg – teve, em sua própria opinião, uma idéia “brilhante” para evitar balbúrdias em sua cidade e, ao mesmo tempo, ganhar uns trocados extras.

No último dia 17, Bloomberg anunciou com grande estardalhaço que a Prefeitura oferecerá descontos especiais no comércio nova-iorquino àqueles ativistas que se abstiverem de quebrar vidraças e danificar patrimônios público e privado da cidade. Ou seja, quem se dispuser a usar um broche (ou button) especialmente confeccionado para a ocasião, com a imagem da estátua da liberdade carregando um cartaz com os dizeres “ativista político pacífico”, terá descontos em restaurantes (Broadway Joe Steakhouse, La Prima Donna Italian Ristorante, Spoonbread Too Miss Mamie´s etc), lojas (Pokémon Center NY, Super Runners Shop, J&R Music and Computer World etc), museus (de cera Madame Tussaud, Museu do Sexo, Aquário de Nova Iorque etc), espetáculos (Forbidden Broadway, Naked Boys Singing, Tony & Tina´s Wedding etc), hotéis e passeios.

“Não tem graça protestar de estômago vazio”, disse Bloomberg durante o anúncio do “button project”, explicando que os broches poderão ser retirados por qualquer um tanto na secretaria de turismo, quanto junto aos grupos que têm permissão oficial para protestar.

Para os ativistas, a medida tem caráter estritamente econômico. Depois de ter assustado potenciais visitantes da cidade com notícias de que o “bicho iria pegar” durante a convenção, e depois de se dar conta de que muitos hotéis estão vazios e ingressos de espetáculos não foram vendidos, Bloomberg resolveu promover uma “liquidação” entre os ativistas, para tentar minimizar a frustração do comércio local. 

"É óbvio que nós nem pensamos em usar algo tão ridiculo como esse broche. Os que vem de fora vão se hospedar nas casas dos companheiros de Nova York, comer se come em qualquer lugar, e ninguém terá tempo de assistir algum espetáculo oferecido pelo prefeito", se indigna uma ativista da organização Not in our Name

Se bem que usar o broche não garante, necessariamente, bom comportamento. “Infelizmente, não podemos evitar que anarquistas o usem”, lamentou Bloomberg. Não sem razão. O grupo citado pelo prefeito está eufórico. Não porque pretende mudar, de alguma forma, as suas táticas de ação (essas questões não são discutidas abertamente), mas porque querem fazer com que o tiro saia pela culatra. “Vamos ´descontar` a cidade até a morte. Esses broches são a oportunidade que estávamos esperando”, afirmaram os anarquistas, que planejam “destruir a infra-estrutura financeira da cidade” com uma onda de compras subsidiadas.


Uma lista de descontos também está sendo oferecida aos participantes da convenção republicana, porque, apesar de que se espera que sejam minoria na cidade, não há que se menosprezar o seu poder de consumo.




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