Pelo Mundo

QAnon é a última e melhor chance de Trump

A única coisa pela qual ele pode torcer é pelo próprio medo

25/08/2020 19:43

Apoiadores do QAnon protestaram em Los Angeles no sábado (Kyle Grillot/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Apoiadores do QAnon protestaram em Los Angeles no sábado (Kyle Grillot/AFP/Getty Images)

 
A Convenção Nacional Democrata da semana passada foi, principalmente, sobre decência – sobre mostrar Joe Biden e seu partido como boas pessoas que farão o seu melhor para curar uma nação atormentada por uma pandemia e uma depressão. Tinham muitos alertas graves sobre a ameaça do trumpismo; muito reconhecimento sobre o peso da doença e do desemprego; mas no geral a mensagem foi surpreendentemente otimista.

A Convenção Nacional Republicana dessa semana, em contraste, mesmo com um tema oficial positivo, será QAnon por completa.

Eu não quero dizer que veremos discursos alegando que Donald Trump está nos protegendo de um imaginário de pedófilos liberais, embora tudo seja possível. Mas é seguro prever que os próximos dias serão cheios de alertas do tipo QAnon sobre eventos terríveis que não estão acontecendo de fato e conspirações malignas que não existem de fato.

Afinal de contas, esse tem sido o estilo de Trump desde seu primeiro dia na presidência.

Novos presidentes tradicionalmente usam seus discursos inaugurais para entregar uma mensagem de esperança e união, mesmo em tempos sombrios: “A única coisa que devemos temer é o próprio medo”.

Trump, no entanto, ofereceu uma visão da “carnificina estadunidense”, particularmente em cidades do interior devastadas pelo crime. Sua retórica foi feia e tinha conotações raciais evidentes, mas também tinha outro problema: não tinha relação com a realidade. Trump foi empossado em uma nação cuja taxa de crimes violentos estava caindo há décadas; nossas cidades grandes estavam mais seguras do que nunca.

O mesmo padrão de tentativas de amedrontar estadunidenses com ameaças não existentes se repete em sua administração. Se você consome informação de oficiais da administração ou da Fox News, você provavelmente acredita que milhões de imigrantes sem documentos votam de maneira fraudulenta, embora a fraude eleitoral de fato raramente aconteça; que os protestos do Black Lives Matter, que, com algumas exceções, têm sido incrivelmente pacíficos, transformaram grandes cidades em ruínas; e por aí vai.

Por que essa fixação com ameaças fantasmagóricas? Sempre houve um estilo paranóico na política estadunidense que vê conspirações sinistras por trás de mudanças sociais e culturais – um estilo que data dos católicos imigrantes no século 19. Aqueles de nós que se lembram dos anos 90 sabem que conspirações do tipo QAnon sempre existiram; apenas ficaram mais visíveis graças às redes sociais e a um presidente que atribui todos os seus fracassos aos mecanismos do “deep state” (Estado dentro de um Estado).

Além disso, muito do foco em ameaças imaginárias representa uma resposta defensiva de pessoas que demonstraram repetidamente, mesmo antes do coronavírus, que não têm ideia de como fazer política, ou seja, lidar com ameaças reais.

Afinal, os EUA no dia em que Trump foi empossado, não eram uma utopia. A economia em geral estava indo bem, com crescimento estável dos empregos e desemprego em queda – tendências que continuaram, sem intervalos aparentes, pelos próximos três anos. Mas partes do país sofreram com uma fraqueza econômica persistente e poucos empregos. Os homicídios estavam baixos, mas as “mortes por desespero” movidas pelas drogas, álcool e suicídio estavam crescendo exponencialmente.

Então, um presidente que realmente se importa com uma carnificina estadunidense teria muito o que fazer.

Mas Trump nunca nem tentou. Sua resposta ao declínio regional foi uma guerra comercial que reduziu o emprego na manufatura. O resto da sua política econômica foi o serviço Republicano padrão, focado em cortes de impostos corporativos que nem estimularam o investimento nos negócios. Sua única resposta visível à crise dos opioides foi uma ação para tirar o seguro saúde de milhões de pessoas.

Então veio a covid-19 – que, falando nisso, já matou mais estadunidenses em comparação com os que morreram na década que precedeu a entrada de Trump. E a resposta da administração, além dos ocasionais incentivos de remédios fajutos, consistiu em negação e insistência de que tudo isso iria embora milagrosamente.

Trump, em outras palavras, não consegue conceber políticas que respondam às necessidades reais da nação, nem está disposto a ouvir os que são capazes de elaborá-las. Ele nem tenta. E, em certo nível, tanto ele quanto as pessoas ao seu redor parecem ter consciência da sua inadequação básica para o emprego de presidente.

O que ele e eles podem fazer, no entanto, é conjurar ameaças imaginárias que combinam com os preconceitos de seus apoiadores, junto com teorias conspiratórias que estão em sintonia com seu medo e inveja das elites “sabe tudo”. QAnon é somente o exemplo mais ridículo do gênero, que mostra Trump como herói que nos defende do mal invisível.

Se isso tudo parece loucura, é porque é. E quase certamente não é uma tática política que pode conquistar uma maioria de eleitores estadunidenses. Pode, no entanto, assustar um número suficiente de pessoas que, junto com a supressão dos votos e a natureza não representativa do Colégio Eleitoral, pode ajudar Trump a se manter no poder.

Eu não acho que essa estratégia desesperada irá funcionar. Mas é tudo o que restou para Trump. A única coisa pela qual ele pode torcer é pelo próprio medo – terror sem sentido, sem nome e sem justificativa baseado em nada que seja real.

*Publicado originalmente em 'New York Times' | Tradução de Isabela Palhares

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