Pelo Mundo

Que lições tirar da crise sanitária?

A pandemia de coronavírus é um sinal de alerta. É imperativo mudar nosso modelo de desenvolvimento econômico, através de uma política de investimento maciço na transição ecológica e da defesa de uma ética da moderação

20/03/2020 15:58

(Reprodução/Libération)

Créditos da foto: (Reprodução/Libération)

 
Em seu discurso na quinta-feira passada, o Presidente Emmanuel Macron disse que “amanhã, teremos que tirar as lições do momento em que vivemos, questionar o modelo de desenvolvimento a que nosso mundo aderiu nas últimas décadas” e que “as próximas semanas e meses exigirão decisões de ruptura”. Estas lições precisam ser tiradas desde já.

Primeiro, é preciso traduzir em fatos o reconhecimento, por ora abstrato, finalmente feito pelo Presidente da República aos profissionais da saúde. Já que são heroicos, demonstremos nosso apoio atendendo imediatamente às reivindicações legítimas que vêm fazendo há mais de um ano e às quais ninguém, seja no governo ou na presidência, havia dado até então a merecida atenção. Aumentemos rapidamente o número de leitos disponíveis, para hoje como para os próximos anos. E como não há necessidade, parece, de consultar o Parlamento para tomar decisões importantes, como demonstram as medidas recentes de confinamento, concedamos imediatamente uma extensão orçamentária e um grande aumento no Ondam (objetivo nacional dos gastos em saúde) que concretizarão o compromisso da nação com o hospital público.

Mas há muitas outras lições nesta crise. Durante décadas, nossos serviços públicos têm sido deteriorados, degradados, ridicularizados. Os funcionários públicos são depreciados, tratados como privilegiados. A ideologia subjacente ao consenso de Washington nunca parou de espalhar seu veneno, retratando os servidores públicos como defensores de seus próprios interesses e o mercado como a única instituição capaz de gerir recursos. Mas é sempre o Estado que garante o socorro aos bancos, too big to fail. São sempre os serviços públicos e seus agentes que estão na linha de frente em tempos de crises. Devemos parar de desmontá-los, pois são nossos bens comuns.

Devemos, sugere o Presidente, mudar de modelo de desenvolvimento. Mas é claro! É o que centenas de pesquisadores vêm pedindo há décadas. Mostramos que devemos mudar radicalmente de rota, romper com o produtivismo e o consumismo, pôr em prática uma política dupla de investimento maciço na transição ecológica e de sobriedade, sem a qual não seremos capazes de frear o descontrole climático. Precisamos adotar urgentemente outros indicadores de referência: relativizar o uso do PIB e adotar indicadores físico-sociais capazes de nos informar sobre os patrimônios críticos e o que realmente importa para assegurar a habitabilidade do nosso planeta. Não é mais o PIB, mas a pegada de carbono e um índice de saúde social ou ainda os nove fronteiras planetárias de Rockström* que devem se tornar nossas bússolas, nossos mapas de ação. Nem o PIB nem o crescimento devem mais servir de referência, bem como a dívida ou os 3%. São tigres de papel sem nenhuma importância se comparados com a nossa sobrevivência “em condições autenticamente humanas”. Temos que inventar e construir uma sociedade pós-crescimento.

Esta crise sanitária é um sinal de alerta. Ela evidencia a extrema fragilidade dos arranjos humanos, mas também a extensão da falta de preparo em que se encontra nossa sociedade. O coronavírus não é nada comparado aos eventos que ocorrerão à medida que se desenrolarem as consequências implacáveis da crise ecológica. Tempestades, ciclones, seca, poluição do ar, cheias, empobrecimento dos solos, escassez de alimentos, fome, falta de ar, migrações climáticas e, obviamente, guerras e o colapso da democracia. Se não sabemos resistir ao coronavírus, como resistiremos a tudo isso? Como combateremos os vírus que o permafrost pode liberar? Como vamos lidar com eventos que nem sequer conseguimos imaginar e com limites que tornarão reais e irreversíveis, de forma brutal, fenômenos que ninguém pôde imaginar?

Como compreender que nossas sociedades não se preparam nada para eventos que poderiam acontecer em um período muito curto de tempo? Temos que nos preparar. Essa deve ser nossa única prioridade. E nos preparar da maneira mais organizada possível, tendo a justiça como imperativo. Devemos desde já dar início a um processo real de reconversão. Perdemos um tempo precioso. Em particular durante os últimos cinco anos, durante os quais gastamos uma energia imensa na luta contra políticas radicalmente inúteis – quando não catastroficamente inadequadas – do ponto de vista da prioridade ecológica, como o imposto sobre combustíveis que ignora a questão social. Todas as nossas energias devem, a partir de agora, se concentrar na correção de rota de nossas sociedades, nas numerosas escolhas que teremos que fazer para reconstruí-las, na invenção da nova ética, das novas disciplinas e das novas representações do mundo que nos será necessário adotar.

Para isso, devemos, de fato, dar início a rupturas importantes. Ruptura com um capitalismo desenfreado que está na origem da situação em que nos encontramos. Ruptura com o imperialismo de um tipo de economia completamente descolada do real, que recompensa com o Prêmio Nobel um economista – William Nordhaus – para quem um aumento de temperatura de 6°C não tem importância. Ruptura com a livre circulação de capitais – amplamente promovida pela França – cuja toxicidade é reconhecida até pelo FMI. Ruptura também com a desindustrialização de nosso país e a deslocalização de nossas produções para países com leis sociais e ambientais mais frouxas, o que nos torna completamente dependentes e nos priva, muito mais que a Europa, de nossa soberania.

A reconversão ecológica de nossas sociedades constitui um imperativo absoluto. Todos nós devemos nos dedicar a isso agora. Pode ser um projeto fundador e empolgante para nosso país, para sua juventude, para todos os seus membros, como, de maneira geral, para toda a humanidade. Como no fim da Segunda Guerra Mundial, precisamos encontrar a energia da reconstrução. Uma reconstrução não mais inspirada pelo prometeanismo, que busca moldar o mundo à imagem do homem, mas por uma ética da moderação, do limite, da medida, que a Antiguidade soube inventar, mas que nós tínhamos esquecido.

*Abordagem científica que estabelece nove limites que não devem ser ultrapassados sob pena de perdermos a estabilidade do sistema terrestre e, portanto, a possibilidade de viver na Terra (mudanças climáticas, perda de biodiversidade, desmatamento e outras mudanças no uso do solo, acidificação oceânica, diminuição da camada de ozônio, uso da água fresca etc).

Dominique Méda é filósofa e professora da Universidade de Paris-Dauphine

*Publicado originalmente em 'Libération' | Tradução de Clarisse Meireles





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