Pelo Mundo

Quem é quem nas eleições na Bolívia: poderá Evo conseguir seu quarto mandato?

 

20/10/2019 14:19

 

 

Neste 20 de outubro, haverá eleições na Bolívia. Evo Morales, que já é o presidente que mais tempo esteve no comando do país na história do país, poderia renovar seu projeto por mais seis anos, até 2025. O que para alguns constitui um símbolo sem precedentes de unidade e estabilidade, para outros é a encenação do risco de se tornar eterno no país. Na campanha do Movimento ao Socialismo (MAS) o slogan é “Futuro Seguro”, enquanto o do seu principal oponente, o ex-presidente Carlos Mesa, é “Já é Demais”. Conceitos como o plurinacionalismo, a economia crescente, justiça social, política para os camponeses e as mulheres serão cruciais para entender a Bolívia que sairá das urnas.

 

O que se votará?

 

Nas eleições gerais, o presidente e o vice-presidente, 130 deputados e 36 senadores serão eleitos para o período de 2020 a 2025. Pouco mais de 7 milhões de cidadãos podem votar. Ao contrário de outros países, na Bolívia, as câmaras legislativas não são renovadas em partes, mas na sua totalidade.

 

Para vencer no primeiro turno, os candidatos devem obter mais de 50 % dos votos validamente emitidos, ou pelo menos 40 %, com uma diferença de 10 pontos sobre o segundo mais votado. Se não é assim, será preciso um segundo turno.

 

A grande dúvida destas eleições é se Morales conseguirá evitar o segundo turno. Embora as eleições 2014 tenham sido vencidas com uma votação de 63 %, em 2016 ele sofreu um tropeço político: perdeu um referendo que perguntava se a população estava de acordo com reformar o artigo 168 da Constituição para que não houvesse limite para as reeleições, graças a um 51,3% de votos a favor da opção “não”.

 

Por essa razão, a oposição insiste em que a candidatura de Morales é ilegítima, apesar de te sido habilitada pela Junta Eleitoral. Existem até algumas pequenas iniciativas, pelas ruas de La Paz, que ainda coletam assinaturas para que ela seja cassada.

 

Segundo a pesquisa mais recente publicada no país, Morales lidera com 40% de intenção de votos. O segundo é Mesa, com 22%. O resultado foi medido pelo instituto, e publicado em meios como a Rádio e Televisão Popular e o diário La Razón. Foram consultadas 2,3 mil pessoas entre 18 e 70, em 60 cidades do país.

 

Durante 13 anos (desde o dia 22 de janeiro de 2006), Evo Morales começa o dia às cinco da manhã. Alguns dizem que isso é porque ele nunca deixou de ser um homem do campo. Mas ele insiste que “a política é serviço”, que o tempo não é suficiente para tudo o que precisa ser feito, e que ele – que não tem estudos – só pode oferecer seu trabalho.

 

Sua equipe está acostumada com o ritmo. Nas quartas-feiras, as reuniões do gabinete são realizadas no centro de eventos Casa Grande do Povo. Morales chega a percorrer quatro departamentos (províncias) em um único dia, e chega a combinar caravanas de avião ou helicóptero, que o levam aos lugares mais remotos do país. Em um dia, ele se encontra com jovens, debate com camponeses, se reúne com indígenas e operários e inaugura obras. Membros da sua equipe dizem que ele já visitou tosos os municípios da Bolívia. A maioria das atividades não aparece na mídia convencional, que costuma ser opositora, e o acusa de ser preguiçoso e de “passar o dia viajando e jogando futebol”.

 

Várias vezes ao dia, alguém leva ao presidente um copo de sua bebida favorita: folha de coca misturada com água. Em resumo, um líquido verde e viscoso que, diz ele, faz muito bem ao seu corpo. Morales emergiu como líder dos “cocaleros” (camponeses que trabalham no cultivo da folha de coca), e defende essa cultura até as últimas consequências.

 

Após uma próspera “década ganhada”, quando Evo olha para a região, percebe que está praticamente isolado. À sua volta, tudo desmorona (a crise econômica na Argentina, o caos político no Peru, a situação no Equador) e não hesita em oferecer ao país uma coisa muito simples: estabilidade. Traduzido em seu slogan de campanha, “futuro seguro”.

 

E é nesse contexto (e graças a uma economia que surpreende a próprios e estranhos) que ele conta história como esta: “outro dia, vi uma garota dizendo: `vou votar nele, não gosto do rosto dele, mas sim do programa dele´, foi durante um encontro com jovens estudantes universitários”. Em eventos como esse, ou mesmo com empreendedores e indeciso, sua oferta é: anti-imperialismo, soberania e economia crescente.

 

A oposição: entre buscar o segundo turno e recuperar a direita

 

O primeiro dado político a se destacar, e que a vários bolivianos e bolivianas reclamam, é que a oposição não soube se unir. Por isso, o segundo e o terceiro lugares ficariam divididos entre o ex-presidente Carlos Mesa (do movimento Comunidade Cidadã) e Óscar Ortíz (da frente Bolívia Diz Não).

 

Segundo as pesquisas, Mesa seria o segundo colocado, mas suas cifras de intenção de votos não garantem um segundo turno. O homem tem uma história: foi vice-presidente de Gonzalo Sánchez de Lozada – que fugiu do país em 2003, no meio da chamada Guerra do Gás – e depois presidente, até que renunciou, em 2005, também em meio à crise econômica e social.

 

Mas Mesa tem problemas que vão além do seu passado. Entre eles, o da sua dificuldade de se diferenciar do governo. Em parte, porque ele foi o representante boliviano no processo de disputa por território marítimo com o Chile, que foi definido pelo Tribunal Internacional de Justiça, em Haia. A disputa terminou em derrota, mas a reivindicação de mar para a Bolívia continua sendo um dos temas que une o país.

 

Outro aspecto é que Mesa, doutor em Ciência Política e professor da UCB (Universidade Católica Boliviana), tem seu eleitorado entre os jovens de classe alta com estudos universitários. A ideia subjacente, devido à falta de preparação acadêmica do presidente, é “os que governam atualmente são ignorantes e nós merecemos mais”, um discurso repetido por cidadãos que se sentem parte de uma certa elite intelectual. Nesse contexto, Carlos Mesa, que também é jornalista e historiador, oferece uma imagem ilustrada de uma pessoa que tem mais méritos.

 

Sua campanha se concentrou em mostra-lo andando pelas ruas: ele visitando o mercado, cumprimentando pessoas, abraçando idosos. Mas seu discurso enfoca a questão da “emergência democrática”, como se o país fosse enfrentar uma “situação crítica” caso Evo Morales seja eleito para mais um mandato.

 

Em um dos vídeos da campanha de Mesa, o ponto principal é a Justiça, uma das questões que é reconhecida como uma bandeira de ambos os lados. “Só existe justiça para quem tem dinheiro, muitos policiais são corruptos, roubam de nós em vez de nos proteger. Desde o primeiro dia lutaremos contra a corrupção, reformando a Polícia com treinamento. Os juízes e promotores serão substituídos por novas pessoas, contratadas por seus méritos e não por causa de seus patrocinadores políticos. Porque depois de 13 anos, já é demais”, diz Mesa.

 

Há também outra questão: embora Mesa negue categoricamente a semelhança (promete não privatizar e diz que não deixará a economia local se desvalorizar), nos muros e paredes da Bolívia, se reproduz cada vez mais grafites e pichações com a ideia “Mesa = Macri”. Ou seja, tudo o que foi construído até agora pode ser perdido se o neoliberalismo voltar.

 

Em terceiro lugar está Carlos Óscar Ortíz Antelo, senador nacional e representante da frente Bolívia Diz Não, do qual faz parte o Movimento Social Democrata. Natural de Santa Cruz e administrador de empresas, o homem tem um discurso estruturalmente liberal, mas também em campanha diz que não privatizará nem removerá os laços sociais conquistados durante o governo de Morales. A única nuance que ele acrescenta é que “é melhor que as pessoas as gerenciem diretamente e a burocracia não atrapalhe”.

 

O quarto colocado é o verdadeiro “estranho” dessa eleição boliviana: um pastor coreano que fundou cerca de 70 igrejas evangélicas. Se trata de Chi Hyun Chung, que se tornou a verdadeira revelação. Foi apresentado pelo PDC (Partido Democrata Cristão), embora não tenha trajetória política. Com um discurso explicitamente machista e homofóbico, em estilo parecido com o do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, ele consegue capturar alguns extremos do eleitorado.

 

Finalmente, os demais candidatos são: Virginio Lema (Movimento Nacionalista Revolucionário), Félix Patzi (Movimento do Terceiro Sistema), Ruth Nina (Partido de Ação Nacional da Bolívia, e única mulher na disputa), Víctor Hugo Cárdenas (Unidade de Solidariedade Cívica) e Israel Rodríguez (Frente para a Victoria).

 

*Publicado originalmente em RT News | Tradução de Victor Farinelli

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