Pelo Mundo

Quem escolherá o próximo presidente dos EUA - o povo americano ou o Facebook?

Os titãs das mídias sociais são mais poderosos que os políticos. Mas não precisava ser assim

06/08/2020 13:41

Mark Zuckerberg aparece em vídeo durante audiência do sub-comitê judiciário dos EUA, 'Online Platforms and Market Power', em Washington, em 29 de julho (Rex/Shutterstock)

Créditos da foto: Mark Zuckerberg aparece em vídeo durante audiência do sub-comitê judiciário dos EUA, 'Online Platforms and Market Power', em Washington, em 29 de julho (Rex/Shutterstock)

 
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Na semana passada, em uma audiência no Congresso americano, foi possível contemplar os homens com o poder de definir as eleições presidenciais de novembro e o futuro da democracia americana – mas os homens em questão não eram políticos. Eram os quatro titãs da tecnologia, convocados a falar a um comitê do congresso. Mesmo via link de vídeo, era possível observar o poder que irradiavam: os patrões do Facebook, Google, Amazon e Apple surgiam nos monitores como verdadeiros mestres do universo diante de seus inquiridores eleitos, meros terráqueos.

Não se trata de exagerar seu poder. Juntos, com bilhões de usuários, o Facebook e o Google determinam boa parte do que a raça humana vê, lê e sabe. A autoridade de Mark Zuckerberg está espalhada pelo planeta, nenhum governo sendo capaz de constrangê-lo: ele é o imperador do conhecimento, o ministro da informação do mundo inteiro. Um mero ajuste de um algoritmo do Facebook pode decidir se discursos de ódio, mentiras e teorias da conspiração serão espalhadas ou extintas.

Já é assim há algum tempo, mas em 2020 o tema ganhou urgência extra. Sabemos o impacto que as mídias sociais tiveram nas eleições americanas em 2016 – quando proliferaram mentiras e fantasias cada vez mais loucas sobre Hillary Clinton e quando, segundo o pesquisador de Oxford Philip Howard afirmou em um novo livro, Lie Machines (Máquinas de Mentiras, ainda sem tradução em português): “A proporção de notícias falsas para notícias verdadeiras compartilhadas pelos eleitores pelo Twitter foi de um para um”. Em menos de 100 dias, os americanos escolherão um presidente e nada garante que o mesmo cenário não vá se repetir.

Além disso, hoje está claro que a disseminação de mentiras on-line é uma questão de vida ou morte. (Como já se sabia em Mianmar, onde a violência contra o povo Rohingya foi incitada via Facebook.) Em meio a uma pandemia, informações consistentes e verificadas são uma ferramenta essencial de saúde pública. Se afirmações falsas e teorias conspiratórias malucas – como aquelas veiculadas em pseudodocumentários como o Plandemic – começam a aparecer nos feeds de notícias das pessoas, é como se a água encanada estivesse contaminada. O Facebook e o Youtube acabaram tirando do ar o Plandemic e suas afirmações sem provas – como a acusação de que o Covid-19 é culpa de Bill Gates e da Organização Mundial de Saúde, que vacinas são ruins e que usar uma máscara é algo perigoso – mas só depois que milhões de pessoas já tinham ingerido esse lixo nessas plataformas.

É claro que sempre existiram doidos e alucinados, mas as redes sociais lhes deram um alcance com que nunca tinham sonhado. Armado com o Facebook, os pretensos ativistas podem espalhar mensagens globalmente e instantaneamente e, também, enviá-las a um público selecionado com precisão graças aos dados abundantes que o Facebook mantém sobre seus usuários, cuja utilização permite que os anúncios (pagos) sejam microdirecionados. E lembre-se que esses dados não se limitam às atitudes que você pode ter expressado on-line, mas podem incluir as compras feitas no seu cartão de crédito até detalhes mundanos de sua vida, registrados pelos gadgets que compõem a Internet das coisas.

De tempos em tempos, os gigantes da mídia social são compelidos a pelo menos parecer estar tomando alguma atitude, mesmo que só por uma questão de cuidar de sua reputação. Aconteceu esta semana, com a remoção do artista de grime Wiley de várias plataformas, depois que ele fez um longo discurso cheio de ódio contra os judeus: depois de um "boicote" de 48 horas de seu Twitter, organizado por um grupo de ativistas e celebridades, a rede pareceu perceber que hospedar racismo de famosos não cai bem. Depois, o Twitter removeu a conta do supremacista branco David Duke, o que suscita a pergunta: por que diabos demoraram tanto?

Não se engane, a presença de mentiras e ódio nessas plataformas não é um bug lamentável. É uma característica delas. O modelo de negócios das mídias sociais requer atenção – olhos – e a melhor maneira de conseguir isso é pelo engajamento. Mensagens que despertam raiva, fúria e, sim, ódio, são mais eficientes para manter as pessoas on-line do que conteúdos meramente interessantes ou divertidos. É por isso que estudos mostram que as notícias falsas se espalham mais rápido que as verdadeiras: os algoritmos são projetados para privilegiar a viralidade em detrimento da veracidade.

O que pode ser feito? Ideias não faltam. Alguns começam pelo fact-checking e, após as eleições de 2016, o Facebook deu passos nessa direção. Mas quando foi revelado que um de seus parceiros de fact-checking era o Daily Caller, um site de notícias de direita conhecido por divulgar informações erradas, a credibilidade do projeto despencou.

Ou, mais simplesmente, o Facebook, o Youtube e o Twitter poderiam admitir que são editores de conteúdo e, assim, deveriam assumir a responsabilidade que acompanha o grande poder que detêm. Se isso significa ter que contratar um milhão de moderadores para verificar seu conteúdo, eliminando mentiras e discurso de ódio, que assim seja. O que não poderiam é alegar falta de recursos: são empresas de cerca de um trilhão de dólares.

Se eles não gostam da analogia com editores, então talvez prefiram ser tratados como, digamos, fabricantes de automóveis, que, se entregarem um produto defeituoso, precisam fazer recall e consertar o produto, independentemente do custo. No momento, os gigantes das mídias sociais gozam de proteção legal que os exime dessa responsabilidade nos EUA.

Os políticos poderiam mudar isso, assim como poderiam seguir as recomendações de Howard em Lie Machines e romper a "monopolização de informações" das grandes empresas, garantindo por lei o direito dos cidadãos de doar seus dados para organizações menores: esses grupos seriam, assim, mais capazes de competir com os gigantes da tecnologia e com aqueles que podem pagar por seus serviços.

Mas, como mostrou a audiência da última semana, os representantes eleitos não têm poder suficiente para fazer isso sozinhos. Governos do mundo todo teriam que trabalhar juntos. Eles precisariam do apoio de anunciantes, para retirar suas libras e dólares de empresas que dão espaço para o ódio. E precisariam que todos déssemos um basta nesse veneno que corre nas redes, e que só descansássemos quando a última gota tivesse sido eliminada.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles

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