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Racismo mostra seu lado repulsivo enquanto China luta contra o coronavírus

 

03/02/2020 17:53

(Reprodução/Global Times)

Créditos da foto: (Reprodução/Global Times)

 
Ao mesmo tempo em que pessoas de todo o mundo se uniram para combater a disseminação do novo coronavírus, é preocupante ver ressurgimento da mitologia do "perigo amarelo". Essa histeria não está apenas circulando nas mídias sociais, mas também surgiu nos meios de comunicação ocidentais.

Cada cultura alimentar tem sua distinção culinária. É verdade que alguns restaurantes, chineses e não chineses, preparam pratos não ortodoxos com receitas que incluem certos animais e plantas e, em muitos casos, baseiam-se na ilusão de que criaturas exóticas têm qualidades nutritivas e medicinais.

Tais tradições culinárias são gradualmente desencorajadas na China, e o comércio de animais em extinção é uma ofensa criminal.

Como a epidemia se originou em Wuhan, na província central de Hubei, na China, e como se acredita que o vírus tenha provindo de um mercado de frutos do mar da cidade, a culinária chinesa está sendo difamada por seu suposto uso da vida selvagem, reavivando assim a narrativa racista que permanece como pano de fundo no subconsciente da mente ocidental.

As imagens de vídeo de uma chinesa segurando um morcego, com seus pauzinhos sobre uma tigela de sopa, foram confirmadas, mais tarde, como um clipe de um vídeo promocional de viagem filmado na ilha de Palau, no Pacífico, onde o ensopado de morcegos é uma iguaria tradicional local.

Outro clipe retratando um exuberante mercado de morcegos apresentava legendas que diziam que as cenas tinham sido filmadas em Wuhan, mas a realidade é que o foram em Sulawesi, na Indonésia.

Morcegos e outras criaturas exóticas não são itens de menu encontrados na maioria dos restaurantes chineses, mas isso não impediu que um grupo de adolescentes franceses penetrasse grosseiramente em um restaurante chinês em Paris e fizesse perguntas mal-intencionadas sobre sopa de morcegos.

Um tabloide australiano, o Herald Sun, exibia a manchete "PANDEMÔNIO de vírus chinês", enquanto outro, o Daily Telegraph, exigia "Crianças da China fiquem em casa", quando o início do novo ano letivo se aproxima.

O jornal dinamarquês Jyllands-Posten blasfemava contra a bandeira nacional chinesa com partículas de coronavírus, provocando indignação do povo chinês em todo o mundo. Embora o Daily Telegraph tenha pedido desculpas em sua seção de Cartas por causa de sua manchete controversa, a profunda discriminação contra os chineses ainda permanece.

Conferir um caráter racial à pandemia em curso é um ato contra a moralidade e a humanidade e deve ser refutado e condenado.

As páginas sombrias da história incluíam representações discriminatórias das chamadas sociedades não civilizadas do Terceiro Mundo da Ásia, África e América do Sul, e foram descritas como tendo hábitos alimentares "bárbaros, imundos e não saudáveis".

Tais descrições racistas não eram meros produtos da percepção errônea ocidental de outras culturas, mas foram exploradas e armadas para justificar a colonização ocidental. Apesar da era da colonização ter passado, os conceitos errôneos das culturas não-ocidentais persistem e a discriminação está à espreita e se espalhando rapidamente quando o problema surge.

Certamente as pessoas em todo o mundo devem estar vigilantes contra essa xenofobia, que pode reviver e incitar o racismo. Há sinais ainda mais alarmantes de que algumas forças têm aproveitado esse pensamento xenofóbico para alimentar a mentalidade da "ameaça da China".

Juanita Nathan, presidente do conselho da Escola do Distrito de York, em Ontário, Canadá, e a diretora de educação da escola, Louise Sirisko, alertaram contra os riscos de preconceito e racismo contra estudantes da China "em nome da segurança", em meio a especulações sobre a transmissão do novo coronavírus baseada em raça. Tal sensibilidade é admirada e aplaudida.

Enquanto saudamos a dedicação e o heroísmo de abnegados dos profissionais médicos e cidadãos de Wuhan e de outras partes da China, o surto de coronavírus levará as autoridades chinesas de saúde e policiais a fortalecerem sua repressão ao comércio de animais silvestres. As respostas emergenciais à saúde pública sofrerão uma grande revisão.

A resposta de emergência de saúde pública não é apenas da China. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) Tedros Adhanom Ghebreyesus estava correto em seu recente comentário sobre o compromisso da China com os princípios de solidariedade e cooperação com o mundo para combater a crise. Ele enfatizou os fatos, não o medo, a ciência, não o boato, a solidariedade, não o estigma na luta concertada do mundo contra o endemia.

Sensibilidade e parceria são essenciais para que a humanidade prevaleça e supere essa praga demoníaca em andamento.

Chen Hong é professor da East China Normal University.

*Publicado originalmente no 'Global Times' | Tradução de César Locatelli



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