Pelo Mundo

Rastreei os vendedores originais de mísseis a partir de carcaças de mísseis na Síria

Penso que nem a OTAN nem a UE têm o mínimo interesse em saber de onde vêm as armas nas mãos dos combatentes islamistas na Síria ou em qualquer outro lugar do Oriente Médio

26/08/2018 10:54

Algum tempo atrás, nos Estados Unidos, conheci um antigo executivo da Hughes Aircraft que riu quando lhe contei minha história relativa a encontrar seus mísseis em Alepo oriental

Créditos da foto: Algum tempo atrás, nos Estados Unidos, conheci um antigo executivo da Hughes Aircraft que riu quando lhe contei minha história relativa a encontrar seus mísseis em Alepo oriental

 

Leitores, aqui temos uma pequena história de detetive. Anotem esse número: MFG BGM-71E-1B. E este número: No. De ESTOQUE 1410-01-300-0254. E este código: DAA A01 C-0292. Encontrei esses códigos impressos na lateral de uma carcaça de míssil usado que estava no porão de uma base islamista bombardeada em Alepo oriental no ano passado. No topo estavam as palavras “Hughes Aircraft Co”, empresa fundada na Califórnia nos anos 1930 pelo infame Howard Hughes e vendida à Raytheon em 1997, a gigante contratada pelo Departamento de Defesa dos EUA cujos lucros no ano passado foram de $23,35 bilhões. Entre os acionistas estão o Bank of America e o Deutsche Bank. Escritórios no Oriente Médio da Raytheon podem ser encontrados na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, em Israel, no Egito, na Turquia e no Kuwait.

Há dúzias de outras carcaças de mísseis usados idênticas na mesma sala subterrânea nas ruínas de Alepo oriental com códigos sequenciais; em outras palavras, esses mísseis antiblindagem — conhecidos no comércio como Tows, da sigla em inglês para “tubo lançador opticamente guiado por cabo” — não eram itens individuais contrabandeados para dentro da Síria através da velha e muito reportada trilha de contrabandistas da CIA vinda da Líbia. Essas eram remessas, lotes inteiros de armas que deixaram seu ponto de origem em pallets de aviões militares.

Algum tempo atrás, nos Estados Unidos, conheci um antigo executivo da Hughes Aircraft que riu quando lhe contei minha história relativa a encontrar seus mísseis em Alepo oriental. Quando a empresa foi vendida, a Hughes foi dividida em oito componentes, disse ele. Porém, seguramente, esse lote de foguetes tinha saído de uma base do governo dos EUA. Detetives amadores podem já ter rastreado o primeiro grupo de números acima. O “01” no número de estoque é um código da OTAN para os EUA, e o BGM-71E indica que é um produto da Raytheon Systems Company. Há vídeos de combatentes islamistas usando a variedade BGM-71E-1B na província de Idlib dois anos antes de eu encontrar as carcaças de outros mísseis antitanque na vizinha Alepo. E em relação ao código DAA A01 C-0292, ainda estou tentando rastrear este número.

Entretanto, mesmo se eu conseguir encontrá-lo, posso prometer aos leitores uma conclusão segura. Este míssil terá sido fabricado e vendido pela Hughes/Raytheon de forma completamente legal para uma potência (governo, ministério de defesa, ou o que seja) da OTAN, a favor da OTAN ou “amigável” à OTAN (ou seja, pró-EUA), e existirá para ele um Certificado de Usuário Final (EUC), um documento de proveniência impecável que terá sido assinado pelos compradores — neste caso pelos que comparam os mísseis Tow em quantidades muito grandes — declarando que são os recipientes finais das armas.

Não há garantias de que essa promessa será mantida, mas — como os fabricantes de armas com os quais estive conversando nos Bálcãs nas últimas semanas confirmam novamente — não há nenhuma obrigação nem um mecanismo investigativo por parte dos fabricantes de armas para garantir que seus produtos infinitamente caros não sejam entregues pelos “compradores” para o Isis e a al-Nusra/al-Qaeda — o que era claramente o caso em Alepo — ou para outro grupo islamista anti-Assad na Síria rotulado pelo próprio Departamento de Estado dos EUA como uma “organização terrorista”.

Evidentemente, as armas foram enviadas (ilegalmente sob os termos do inaplicável EUC) a milícias boas, fofas e “moderadas” como o agora em grande parte inexistente “Exército de Libertação da Síria”, cujas armas em grande parte — generosamente doadas pelo Ocidente — caíram nas mãos dos “malvados”, ou seja, aqueles que querem derrubar o regime sírio (algo que agradaria ao Ocidente) mas que em seu lugar gostariam de implantar uma ditadura-culto islamista (o que não agradaria ao Ocidente).

Portanto, a al-Nusra pode ser o recipiente de mísseis vindos de nossos “amigos” na região — aqui, por favor esqueça-se dos EUCs — ou vindos daqueles míticos “moderados” que por sua vez os entregam ao Isis/al-Nusra, etc., por dinheiro, favores, medo ou guerra fratricida e rendição.

Na verdade, infelizmente me lembro, dentre todas as armas que vi sendo usadas na guerra civil de 15 anos no Líbano (1975-1990), nenhuma delas estava nas mãos daqueles para as quais essas mesmas armas foram vendidas.

Esses envios ultrajantes de armas eram constantemente reportados na época — mas de uma maneira que se poderia imaginar que as transferências eram consagradas pela lei (“feitas pelos EUA”, “fornecidas por Israel” costumava ser o mantra). As Falanges, na verdade, também coletavam muitas blindagens de origem britânica, soviética, francesa e iugoslava — a fábrica de armas Zastava na cidade sérvia de Kragujevac, que acabei de visitar, estava neste último caso — para suas batalhas.

Em Alepo oriental, quem sabe quais “presentes” dados aos cidadãos sobreviventes da cidade nos últimos meses da guerra adquiriram um novo propósito? Caminhonetes Mitsubishi esmagadas, algumas com pintura camuflada, outras com cores neutras, estavam nas ruas por onde andei. Elas foram roubas pela al-Nusra? Ou simplesmente usadas por ONGs? Elas chegaram de forma inocente, no lote cujos documentos, também encontrados em Alepo, registravam “Cinco Pickups Mitsubishi L200" enviadas por “Remetente: Departamento de Conflito, Humanitário e Segurança (Chase), Whitehall, SW1A SEG Londres”?

É claro que sim — junto com a ambulância de Glasgow que encontrei próximo a entulhos de latas de bombas de gás na linha de frente de Alepo em Beni Zeid em 2016, cujos códigos de computador reportei no The Independent com muitos detalhes (cinco códigos no total) e sobre a qual a Autoridade de Ambulâncias Escocesa respondeu dizendo que não conseguiu rastrear a ambulância porque precisava de mais informações.

Mas voltando às armas e artilharia. Por que a OTAN não rastreia essas armas quando deixam a Europa e os EUA? Por que não expõe os usuários finais reais dessas encomendas mortais? Os fabricantes de armas com que conversei nos Bálcãs atestaram que a OTAN e os EUA têm completa consciência de quem são os compradores de todas as suas metralhadoras e morteiros. Por que os detalhes desses gloriosos usuários finais não podem ser divulgados ao público, de forma tão aberta e livre para que possamos ver como as armas terríveis cujos fabricantes estão satisfeitos de se gabar em seus catálogos?

Foi esclarecedor que quando o The Independent pediu aos sauditas na semana passada para comentarem sobre documentos de envio de armas bósnias que encontrei em Alepo oriental no ano passado (para morteiros de 120 mm) — que o próprio controlador de armas da fábrica lembrava que tinham sido enviadas de Novi Travnik para a Arábia Saudita — eles responderam que eles (os sauditas) não proviam apoio a nenhum tipo de “organização terrorista”, que a al-Nusra e o Isis eram denominados “organizações terroristas” por um Decreto Real Saudita e que as “alegações” (sic) eram “vagas e sem fundamentos”.

Mas o que isso significa? Declarações governamentais em resposta a relatórios detalhados de envios de armas não deveriam ser a última palavra — e há uma questão importante que continuou sem resposta na declaração saudita. Os próprios sauditas pediram cópias dos documentos de envio — entretanto, eles não disseram especificamente se receberam ou não este envio de morteiros, nem comentaram sobre os documentos reais que o The Independent enviou a eles.

Esses documentos não eram “vagos” — nem era a memória do controlador de armas bósnio que disse que foram junto com os morteiros para a Arábia Saudita e cujos documentos de envio encontrei na Síria. De fato, Ifet Krnjic, o homem cuja assinatura encontrei em Alepo oriental, tem tanto direito de ter sua palavra respeitada quanto as autoridades sauditas. Então o que o pessoal da Arábia Saudita — a quem certamente os documentos foram mostrados — pensa deles? O que “sem fundamentos” significa? Os sauditas estavam declarando, ao usar esta palavra, que os documentos eram falsos?

Há perguntas, é claro, que deveriam ser levadas aos Bálcãs pelas autoridades internacionais. A autoridade da OTAN e da UE ainda vigora nos destroços da Bósnia e ambas têm cópias dos documentos que encontrei em Alepo. Será que estão fazendo inquéritos sobre este envio, que Krnjic disse que foi para a Arábia Saudita, e sobre os documentos de envio que claramente acabaram nas mãos da al-Nusra — documentos sobre os quais a OTAN e a UE tinham conhecimento quando a transferência foi feita originalmente?

Aposto que não. Isso porque penso que nem a OTAN nem a UE têm o mínimo interesse em encontrar a proveniência de armas nas mãos dos combatentes islamistas na Síria ou em qualquer outro lugar do Oriente Médio — certamente não no caso de Damasco, onde o Ocidente acabou de desistir de sua tentativa de remover Assad.

De fato, em um panorama político onde “mudança de regime” tornou-se um objetivo moral e ético, não pode haver investigações morais e éticas sobre como os comerciantes da morte (os fabricantes) conseguem fornecer aos provedores da morte (os assassinos) suas armas e morteiros e artilharia. E se algum usuário final disser que “alegações” de terceiros são “vagas e sem fundamentos” — sempre supondo que as pessoas que dizem isso são elas mesmas os “usuários finais” — isso, garanto, deve ser aceito como verdadeiro e impossível de ser rebatido; tão sólido quando o aço do qual os morteiros são feitos.

Robert Fisk é um escritor e jornalista inglês. Ele tem sido um correspondente do Oriente Médio de forma intermitente desde 1976 de diversos veículos de mídia; desde 1989 ele tem sido o correspondente do The Independent, principalmente com base em Beirute.

*Publicado originalmente no The Independent | Tradução de Nicolas Chernavsky

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