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Raúl Sohr: ''um governo de Guaidó seria de extrema direita''

Em entrevista com uma rádio de seu país, o famoso sociólogo chileno e analista internacional afirmou que "o fato de termos grande parte dos países da região reconhecendo um governo fictício es algo absolutamente insólito"

27/01/2019 11:09

 

 
A autoproclamação de Juan Guaidó como presidente encarregado da Venezuela, nesta quarta-feira (23/1), gerou uma onda de declarações por parte dos países da América Latina e do mundo. Na região, os Estados Unidos e seus aliados reconheceram a ação do deputado e fizeram uma incitação implícita a uma revolta, agudizando ainda mais a situação do país caribenho.

Por outra parte, o apoio explícito das Forças Armadas venezuelanas ao governo do presidente Nicolás Maduro, expressado nesta quinta-feira (24/1), fecha momentaneamente a porta para uma ação militar, como a que os países membros do Grupo de Lima tentaram provocar.

O desfecho desse conflito não está claro, mas a situação na região é crítica. Em entrevista para a Rádio Universidad de Chile, o sociólogo e analista internacional Raúl Sohr descreveu os possíveis cenários, explicando os contextos de uma crise que se iniciou já há muitos anos.

Rádio Universidad de Chile (RUdC): Vimos nesta semana que Juan Guaidó, sendo presidente da Assembleia Nacional, jurou como “presidente encarregado” da Venezuela. Com que bases um político pode se autoproclamar presidente?

Raúl Sohr: Guaidó planteou três condições quando iniciou este caminho. Ele foi eleito presidente da Assembleia Nacional, e a primeira condição para dar um passo além disso foi o apoio popular, que ele alega possuir, mas a verdade é que isso não está claro. Sem dúvida, ele conta com algum apoio, mas não é possível dizer que ele tem hoje um apoio majoritário na Venezuela. A segunda condição foi o apoio da comunidade internacional, e essa “comunidade internacional” geralmente é um eufemismo para se referir aos Estados Unidos e seus aliados. Porque a Rússia e a China são tão parte da verdadeira comunidade internacional quanto os demais, e estão do lado de Maduro. Entretanto, quando Guaidó fala no “apoio da comunidade internacional”, ele quer dizer Estados Unidos e boa parte da América Latina. Talvez quisesse incluir a o apoio da Europa, mas a União Europeia preferiu a cautela neste caso. A terceira e decisiva condição, é o apoio das Forças Armadas, e é aí onde se define o que vai acontecer na Venezuela. Guaidó tem feito apelos permanentes aos militares, para que estes se pronunciem a seu favor. São os militares, em última instância, os que vão definir a correlação de forças.

RUdC: Nesse sentido, o apoio internacional poderia servir de sustentação para que Guaidó se autoproclame “presidente encargado” de Venezuela?

Sohr: Na Venezuela de hoje, há um governo que tem o controle real e esse é o governo de Nicolás Maduro. Independente dos questionamentos que podemos fazer à legitimidade de sua eleição, independente de se alguém simpatiza ou não com a oposição, o fato real, físico, é o que tem o controle. Então, o fato de termos grande parte dos países sul-americanos, com exceção da Bolívia e do Uruguai, reconhecendo um governo fictício é algo absolutamente insólito.

RUdC: Como se produz esta situação, na que quase toda a região decidiu manifestar seu apoio e reconhecendo um autoproclamado presidente encarregado?

Sohr: O que está ocorrendo na Venezuela não é algo casual. É decorrência de um roteiro elaborado há bastante tempo. Não se chega a um consenso regional sobre como reagir à criação desta figura de um presidente alternativo, com praticamente todos os países sul-americanos se inclinando em favor de Guaidó, se não violando uma norma fundamental do Direito Internacional, a que diz que só se pode reconhecer um governo que tem o controle territorial efetivo. Ou seja, o que controla a fronteira e o que controla o conjunto das instituições.

RUdC: Entretanto, esta violação à norma fundamental do Direito Internacional parece não importar aos Estados Unidos e a nenhum dos países do Grupo de Lima.

Sohr: Creio que boa parte do debate de como proceder tem lugar no Grupo de Lima. Nele, participam justamente os países que reconhecem Guaidó, e se pode ver ali que os Estados Unidos têm um papel de coordenação desta situação. Devemos reconhecer que a Venezuela vive uma situação absolutamente crítica, com uma inflação descontrolada, com um desabastecimento massivo, e que, independente desta crise política e econômica, que é provocada por agentes terceiros, há uma situação de fundo que requer uma solução. Contudo, este reconhecimento está claramente longe de significar uma solução à crise.

RUdC: Há quanto tempo que a Venezuela está na mira dos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos?

Sohr: Os Estados Unidos têm sido central sempre. Desde o governo de Chávez, participando no fracassado golpe de 2002 contra Chávez. Também apoiou, até certo ponto, a grande greve da estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), que também acabou em fracasso. Isso tudo aconteceu pouco antes da invasão ao Iraque. Os Estados Unidos têm estado permanentemente em uma posição de defesa da subversão, tentando anular os governos venezuelanos até onde é possível, algo que se incrementou com os governos bolivarianos.

RUdC: Em termos de influência, pode-se comparar o apoio de um país como a Rússia e o apoio de uma potência como os Estados Unidos?

Sohr: Não. A Rússia é um país distante e a duodécima economia do mundo, com muito menor econômico que o dos Estados Unidos, que é o principal comprador de petróleo venezuelano, e o petróleo representa 95% das exportações da Venezuela. Portanto, a Venezuela é muito, mas muito dependente, ainda hoje, dos Estados Unidos. Logo, se os Estados Unidos tomarem medidas como a de não comprar mais petróleo, ou de não pagar pelo petróleo comprado, pode levar a um caos ainda maior da economia venezuelana.

RUdC: Mas vimos que a Venezuela tem resistido à influência dos Estados Unidos. Quão forte é esta influência atualmente?

Sohr: A força dos Estados Unidos dentro da política doméstica venezuelana, creio eu, está refletida no fato de que, dias atrás, agentes da polícia venezuelana prenderam Guaidó e, em questão de horas, o governo de Maduro se desmentiu e disse que o caso não havia sido obra da polícia como instituição, e sim de policiais que atuaram por vontade própria, e não havia nenhuma ordem de parte do governo. Isso apesar de que Guaidó está numa atitude absolutamente subversiva, ou seja, nenhum país aceitaria que outro indivíduo que se proclame presidente. Inclusive nestas circunstâncias, Guaidó foi respeitado e as autoridades venezuelanas não o prenderam.

RUdC: Crê que as autoridades venezuelanas deveriam haver atuado de outra forma a respeito da subversão de Guaidó?

Sohr: O lógico, o óbvio, seria que sua detenção se produzisse logo depois da sua proclamação, mas não foi o que aconteceu. Eles está aí, livre, porque uma salvaguarda, que é dada pelos Estados Unidos, com advertências. Se ele for tocado, haverá sérias consequências. Isso dá uma ideia do poder que os Estados Unidos têm dentro da Venezuela e como consegue inibir o governo, apesar de Caracas declarar que rompeu suas relações com Washington.

RUdC: A desestabilização do sistema econômico na Venezuela provocou a queda dos preços do petróleo e o fracasso dos mercados alternativos, como a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da América). Como você vê a situação, no caso de que Juan Guaidó termine tirando Maduro do poder?

Sohr: Se Guaidó conseguir a proeza de derrubar o governo bolivariano, inicia o seu próprio mandato, e aí devemos considerar que ele pertence à ala mais dura da direita venezuelana. Portanto, o que poderíamos esperar é um governo de extrema direita na Venezuela. Talvez não em uma linha tão drástica como a de Bolsonaro, em termos de direitos civis, mas sim um governo de extrema direita. Provavelmente, seria muito regressivo com relação às políticas impulsadas pelo chavismo, uma tentativa de extirpar o que esse setor político representou na Venezuela. Creio que, de uma forma ou de outra, a Venezuela terá por diante um futuro muito complicado, onde não se pode descartar a violência.

*Publicado originalmente em radio.uchile.cl | Tradução de Victor Farinelli



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