Pelo Mundo

Reflexões sobre o acordo com o Irã, BRICS e a crise na Venezuela

Em entrevista, o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim fala sobre o surgimento do BRICS, o acordo nuclear com Teerã e como o Sul lidava com Chávez

06/02/2019 10:43

O ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim:

Créditos da foto: O ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim: "Quando o presidente Trump diz que todas as opções estão na mesa, isso é muito perigoso" (Asia Times)

 
O Brasil está novamente no olho de um furacão político, desde a aparição do presidente Jair Bolsonaro em Davos e as explosivas revelações ligando diretamente seu clã a uma organização criminosa no Rio de Janeiro.

Com apenas um mês de governo, Bolsonaro já está sendo considerado dispensável pelas elites que o puseram no poder – do poderoso lobby do agronegócio ao sistema financeiro e às forças armadas.

O novo jogo entre as elites de um importante ator do Sul Global, membro do BRICS e oitava maior economia do mundo, consiste em criar um cenário capaz de resgatar uma das grandes fronteiras onde o capitalismo global está se expandindo, saindo da irrelevância total.

Isso inclui a possibilidade de um "golpe suave", com o clã Bolsonaro afastado pelos militares brasileiros reunidos em torno do vice-presidente, general Hamilton Mourão.

Nestas circunstâncias, uma conversa com o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim é mais do que preocupante. Amorim é mundialmente reconhecido como um dos principais diplomatas do jovem século 21, um símbolo do passado recente quando, sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil era uma nação continental rica em recursos que exercia ativamente seu poder como um dos líderes dos BRICS.

Tive o prazer de encontrar o Embaixador Amorim, que também é autor deA Teerã, Ramalá e Doha – Memórias da Política Externa Ativa e Altiva, em São Paulo. Abaixo, alguns destaques de nossa conversa – do nascimento do BRICS à atual crise na Venezuela.

BRICS - o grupo mais importante em busca de um mundo multipolar – é um verdadeiro palavrão em Washington. Como tudo começou?

Eu havia encontrado Jim O’Neill [economista britânico] algumas vezes, e foi quem primeiro falou sobre o BRIC, que ainda não era um grupo e ninguém via como um grupo. Pode soar pretensioso, mas é uma história curiosa. Eu disse a ele: “Você que inventou o BRICS, certo?” Ele disse: “Sim, claro, tenho muito orgulhoso disso.” Então respondi: “Sim, mas fui eu que fiz acontecer”. Bem, não eu exatamente – o governo Lula e tudo o que ele engloba. A primeira ação para criar o grupo BRIC – ainda sem um “S” – veio de Sergey Lavrov, em uma reunião que fizemos em Nova York, em 2006. Eles tinham o RIC [Rússia, Índia, China], mas não realizavam muitas cúpulas. E nós tínhamos o IBAS [Índia, Brasil, África do Sul]. Tanto a China quanto a Rússia sempre tentavam entrar no IBAS. Havia a ideia de que eram três grandes democracias, cada uma em um continente, e em um grande país em desenvolvimento – então os russos e chineses deviam pensar: "Também queremos entrar, porque não, porque não somos democracias?". O IBAS também estava presente no G-20 comercial da OMC, tinha ideias semelhantes sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU; então os interesses geopolíticos não eram os mesmos.

Então Lavrov propôs que o BRIC fosse um fórum, acho que talvez para encontrar um pouco mais de equilíbrio dentro do RIC. Sempre falei em BRICS, então um dia ele me perguntou: “Por que você diz BRICS?” E eu respondi: “Porque é plural em português”, então em certo sentido, nós já estávamos antecipando a entrada da África do Sul.

Primeiramente concordamos em fazer uma reunião paralela à Assembleia Geral da ONU. Lavrov e eu já tínhamos algo mais substancial, os indianos e os chineses apenas leram um discurso, então parecia que não haveria um prosseguimento substancial. No ano seguinte, nos encontramos na missão brasileira da ONU, fora da ONU, e decidimos fazê-lo mais tarde fora de Nova York. Lavrov então ofereceu Ecaterimburgo, onde tivemos a primeira reunião ministerial em 2008. No ano seguinte, a primeira cúpula presidencial aconteceu na mesma cidade, e, em 2010, no Brasil. Foi aqui que a ideia do BRIC foi expandida para os BRICS – durante um jantar que encerrou o IBAS e marcou o início dos BRICS.

Na época, vocês pensaram em expandir para outras economias emergentes importantes, como Indonésia, Coréia do Sul, Turquia e Irã?

O IBAS nasceu no segundo dia de governo do presidente Lula [em janeiro de 2003], a partir de uma ideia para criar um grupo de países em desenvolvimento, em torno de sete ou oito. Baseado em minha experiência, pensei que um grupo maior seria muito complicado coordenar posições e se engajar em projetos concretos. O Egito, por exemplo, teria que ser um membro.

Quando vocês começaram a discutir seriamente os passos concretos para o surgimento de um mundo multipolar – como o comércio em moedas dos países membros? Foi em 2010?

Em 2010, certamente, tivemos a ideia de fazer comércio na moeda de cada membro, mas ainda não a ideia – que aconteceu no governo Dilma [Rousseff] – da criação do banco do BRICS. Mas já falávamos sobre uma coordenação entre nossos bancos de desenvolvimento. Acredito que o conceito de multipolaridade tenha sido levantado pela primeira vez pelos russos. Lembro-me do conceito sendo usado pelos franceses, especialmente por conta das sérias divergências sobre o ataque ao Iraque.

O ex-ministro francês das Relações Exteriores, Dominique de Villepin, insistiu nisso.

Villepin, sim, mas até Hubert Vedrine [ministro das Relações Exteriores sob Jacques Chirac, de 1997 a 2002] antes dele, que trouxe o conceito de "hiperpotência". Então, quem difundiu o conceito foram os franceses, e nós aderimos a ele, entre outros países em desenvolvimento. Os franceses, quando discutiam a expansão do Conselho de Segurança da ONU, eram a favor (da entrada) da Alemanha e do Japão, mas também das “três grandes nações do sul”, incluindo o Brasil.

O governo Lula começou em janeiro de 2003. A geopolítica da época era condicionada pela guerra ao terror. Já esperávamos a invasão do Iraque. Nos primeiros dias de janeiro de 2003, sabendo que Dick Cheney e os neocons estavam prestes a virar do avesso o Oriente Médio, com repercussões diretas e indiretas no Sul Global, como começou a conceber uma política externa brasileira multivetorial? Quais eram as prioridades?

Acho que nem o presidente Lula nem eu usamos o termo “multipolar” – mesmo que o conceito já existisse. Queríamos ter boas relações com os EUA, mas também com os maiores países em desenvolvimento. Quando começamos, os maiores problemas eram a Área de Livre Comércio das Américas [ALCA], então tivemos que procurar outros parceiros; a OMC e as negociações na rodada de Doha; e o Iraque. A combinação de tudo isso levou o Brasil a se aproximar da Índia e da África do Sul, em grande parte através da OMC e, por causa do Iraque, nos aproximamos da Rússia, da Alemanha e da França. Quando o presidente Lula foi para Davos...

Foi o primeiro Davos de Lula, certo?

Sim, mas primeiro ele foi ao Fórum Social Mundial em Porto Alegre, depois a Davos. Era uma mensagem de busca de um equilíbrio; fazer negócios, é claro, mas com base na ideia de mudança social democrática.

Vocês discutiam a situação do Iraque com Rússia, Alemanha e França?

Sim, conversávamos com [Gerhard] Schroeder na Alemanha e Chirac, assim como Villepin no Conselho de Segurança. E havia um quarto problema: a Venezuela. Lula já havia falado sobre isso com Hugo Chávez. Durante a cerimônia de posse do presidente Lucio Gutierrez, do Equador, a primeira viagem de Lula ao exterior, em 15 de janeiro, Lula propôs, em reunião com vários presidentes, a criação do Grupo Amigos da Venezuela, num momento em que a crise era aguda, ainda que o país não estivesse tão debilitado quanto hoje.

Já em janeiro de 2003 havia pressão dos neocons sobre o Brasil em relação à Venezuela?

Acho que eles não sabiam como lidar com Lula e o novo governo. Mas eram muito fortes na Venezuela – especialmente [o diplomata americano] Roger Noriega. E ainda assim eles viram a proposta do Brasil e aceitaram. Fidel [Castro] foi contra, mas Chávez, no final, foi convencido por Lula. E isso ainda é relevante hoje. Lula disse muito claramente: este não é um grupo de Amigos de Chávez, é um grupo de Amigos da Venezuela. Portanto, também deve incluir os Estados Unidos, a Espanha e Portugal – e seus governos conservadores. Foi uma maneira de escapar da Organização dos Estados Americanos (OEA) e sua propensão à doutrina Monroe [a política dos EUA de oposição ao colonialismo europeu nas Américas].

Eu conversava com Colin Powell com bastante frequência – não para receber instruções. Havia muitas questões que ele queria conhecer e confiava no Brasil. Ele tinha noção da importância do Brasil, de nossa capacidade de diálogo.

Sobre a era Obama, conte-nos sobre o papel do Brasil, ao lado da Turquia, na negociação nuclear do Irã, quando você firmou um acordo em Teerã em menos de 24 horas, que foi esmagado pela então secretária de Estado Hillary Clinton no dia seguinte.

Foi um longo processo, com 19 horas de negociações; os iranianos tentaram reabrir uma das questões, tanto Lula quanto [o presidente turco Recep Tayyip] Erdogan se recusaram. O que facilitou nosso papel como mediadores foi o fato de os EUA estarem ocupados no Oriente Médio. Eu já tinha tido contatos com Javier Solana, então uma espécie de ministro das Relações Exteriores da União Europeia, e também com [o diplomata egípcio Mohamed] ElBaradei, do meu tempo na ONU. Obama, em uma reunião do G8 5 na Itália, durante um encontro bilateral conosco, disse três coisas: “estendi a mão e eles não responderam”; “Precisamos resolver o dossiê nuclear”; e "Preciso de amigos para dizer o que não posso dizer". O que fizemos no final, porque pensamos que era a coisa certa a fazer, com muito trabalho e enfrentando dificuldades, foi exatamente o que os americanos queriam. Um mês antes do acordo, pensei que ele não aconteceria. Mas então recebemos uma carta de Obama e, para minha grande surpresa, era uma reiteração dos mesmos três pontos iniciais.

Hillary sempre teve uma posição diferente. Eu previ a reação dela como uma possibilidade. Nós conversamos pelo telefone, em Madri, quando eu voltava do Irã, e eu disse: "Olha, no Brasil temos uma expressão, 'não li e não gostei'". Ela não queria um acordo. Em um telefonema antes da minha viagem, ela acrescentou alguns outros pontos de discussão e eu disse: “Hillary, este é um acordo de construção de confiança. E esses pontos que você mencionou não estavam na carta entregue pelo seu próprio presidente”. Sem exagero: o que se seguiu foi um silêncio de meio minuto. Então eu pensei: ela leu a carta? Ou ela leu, e como eles são uma grande potência, podem fazer o que querem, e nós temos que aceitar e nos adaptar?

E o que dizer do fato de China e Rússia aceitarem a linha americana – nada de acordo e mais sanções?

Sei como as duas foram adoçadas – concessões no front das sanções. Mas geopoliticamente...

Qual é a sua hipótese informada?

Existem duas. Primeiro, era um problema que eles não resolviam. Quem faz parte do diretório global? Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Agora vêm dois países em desenvolvimento, que sequer fazem parte do Conselho de Segurança, e resolvem? Por coincidência, ambos eram membros não permanentes do Conselho de Segurança na época. A outra coisa é que quando discutimos uma questão nuclear, os cinco se aproximam, porque são potências nucleares.

Qual é a sua visão privilegiada, como homem de estado, de Vladimir Putin, demonizado diuturnamente nos EUA como sendo uma grande ameaça ao Ocidente?

A primeira vez que vi Putin cara a cara foi quando ele recebeu três nações do Grupo do Rio, e o principal tópico de discussão foi o Iraque. Isso foi antes da invasão em março de 2003. O que mais me impressionou foi seu grande conhecimento dos dossiês – algo que normalmente não se espera dos presidentes. Ele é extremamente rápido, muito inteligente, obviamente cuida dos interesses russos, mas ao mesmo tempo está atento ao equilíbrio de poder. Um político muito realista. Não o vejo como um grande idealista. Ele é quase um político do século 19, muito consciente da geopolítica.

Agora, no tabuleiro de xadrez sul-americano, em relação à crise venezuelana, vemos um confronto direto entre os quatro principais polos da Eurásia – Rússia, China, Irã, Turquia – contra os EUA. E com outro membro do BRICS, o Brasil, contra a Rússia e a China.

Em um mundo multipolar, temos hoje um grande teste, porque o Brasil preside o BRICS em 2019. Como o Brasil vai ser visto dentro do BRICS? Havia uma atmosfera de confiança dentro do BRICS.

Com base em minha experiência no Conselho de Segurança, quando fui embaixador, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso [de 1995 a 2003], os russos e os chineses deram imenso valor ao respeito à soberania nacional. Em termos de direito internacional, eles sempre enfatizam a não intervenção. Espero que não tenhamos um confronto como o Vietnã em nossa região. Mas quando Trump diz que todas as opções estão na mesa, ele está obviamente considerando uma solução militar. Isso é muito perigoso. Vejo uma posição brasileira muito sólida vinda do general Mourão [vice-presidente brasileiro]. No entanto, o Ministério das Relações Exteriores diz que o Brasil apoiará política e economicamente um governo que não existe – o que já representa uma intervenção.

No caminho para a multipolaridade, qual é, na sua opinião, a questão mundial mais importante nos próximos 10 ou 20 anos? E que problema mais te inquieta?

Acho que o tema fundamental é psicológico – e também civilizacional. É o respeito pelo Outro – e a aceitação da alteridade. Isso também diz respeito às relações internacionais. Precisamos entender que o bem comum faz parte do nosso bem-estar. Isso se reflete em atitudes individuais, em atitudes internas na política e nas relações internacionais. Veja o atual ataque violento atual ao multilateralismo. Devíamos entender que é melhor trabalhar multilateralmente do que capitular à lei da selva.

*Publicado originalmente em asiantimes.com | Tradução de Clarisse Meireles



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