Pelo Mundo

Relatório Leveson: um exercício obtuso e desleixado de copie e cole

05/12/2012 00:00

Peter Preston - The Guardian

Londres - A ideia de que políticos (e proprietários de periódicos) repentinamente descobrirão uma maneira perfeita de regular a imprensa é uma bobagem. Para notar isso, vá para a parte mais deprimente da obra prima de Brian Leveson, onde ele finge que o Twitter, o Facebook e o resto das redes sociais não existem.

Quem se importa com o fato de que as festas do Príncipe Harry em Las Vegas e os banhos de sol da Princesa Kate estão soltos na internet?

Periódicos éticos e regulados são requeridos para fingir que as leis norte-americanas de privacidade e sites internacionais de celebridades que 90% dos britânicos podem vir a acessar não existem. É uma proposição ridícula. Mas Leveson, são e salvo com seus maços de papel numa sala de tribunal, nada mais tem de útil a dizer.

E assim - talvez em 2016, data que até Ed Milliband, líder do Partido Trabalhista, enxerga como a mais cedo possível para que o marco regulatório se sustente – a caravana inteira de reforma irá diretamente para a vala. Importa, agora, se David Cameron é “o líder da liberdade de imprensa” aos olhos do Daily Telegraph? Não muito. As grandes questões de privacidade, difamação e o resto se darão no ciberespaço e requererão remédios com a obsolescência programada para o lançamento da nova engenhoca da Apple ou da Samsung.

Seria muito melhor se os jornais – conduzidos por alguma mítica “figura substancial”, se conseguirmos achá-la – pudessem vir com uma resolução que não requeira legislação, porque a resposta deve ser alterada com ligeireza, conforme a tecnologia demandar. Veja como as sucessivas Leis das Comunicações apodrecem no livro de estatutos! De resto, nenhum dos reais problemas é mencionado.

Obviamente, todos têm sido muito gentis com o lorde Leveson. O relatório, no entanto, é um trabalho desleixado e obtuso que fia-se no fato de ninguém ter tido tempo de lê-lo antes de tomar posição.

Leveson faz algo suspeito de um copie-e-cole da versão da história do Media Standards Trust (organização fundada pelo então presidente do Financial Times), que, por sua vez, baseia-se muito num livro com já doze anos de idade – Regulating Press, de Tom O’Malley e Clive Soley. Não houve necessidade de qualquer raciocínio ou pesquisa originais. Quer um panorama internacional? Lá vem outro carregamento de clippings da Fundação Reuteurs sobre a auto-regulação da imprensa no ocidente – sem qualquer tentativa de contextualização com o Reino Unido.

Denúncia de comportamento “imprudente, sensacionalista e destemperado” numa escala industrial?

O que lemos nas páginas 2 a 97 é o equivalente a qualquer edição do Daily Mail. As 1987 páginas de lorde Leveson não acrescentam nada ao que seus nove meses de audiências já haviam ensaiado. Como se pode supor que o público confiará em algo que ele não terá tempo de ler e cujos resultados ele não compreenderá? Jeremy Hunt, David Cameron e autoridades policiais de várias espécies podem ter se esclarecido miraculosamente, num instante, mas a agitação causada pelo debate continua a repercutir.

Haverá esforços redobrados para estabelecer um marco regulatório para a imprensa que realmente funcione. E ele não irá durar por muito tempo. Não é possível que isso aconteça num mundo tão dinamicamente interconectado e onde o principal jogador, os EUA, não compartilham nenhuma legislação com o Reino Unido. O que importa, por ora, são as mensagens que o processo manda para países em que a democracia tem raízes mais frágeis. Importa que tudo seja feito por acordos, porque soluções impostas sobre um problema tão variável e efêmero estão destinadas à implosão. E importa que, conforme resistimos asperamente, nós não nos iludamos.

Eu era ligado à arruinada Comissão de Queixas contra a Imprensa porque eu ajudei a construí-la: e eu não compreendo muitos dos ataques daqueles que não estavam e nunca estiveram lá, ataques cujas opiniões Brian Leveson não faz mais do que papaguear. Nós sabemos que alguns jornalistas e editores (nunca, por favor, a “imprensa”) desapontaram a Comissão. Nós sabemos que este é um dos inevitáveis custos da liberdade.

Novamente, estaremos tentando algo que funcione. E devemos fazê-lo com a devida humildade. Alguns repórteres, por mais regulados que sejam, não deixarão de errar. Alguns governos não deixarão de bajular, ou intimidar, a imprensa. Alguns acadêmicos não deixarão de acreditar que supervisionar a imprensa é uma tarefa tão simples e discreta como comandar a Comissão de Nomeações Judiciais.

E todos nós esqueceremos que liberdade de informação – seja ela digital ou impressa – é uma luta, não um monte de tolices e hipocrisias.

Tradução de André Cristi

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