Pelo Mundo

Republicanos acusam Trump de traidor após encontro com Putin

Atuação de Trump serviu para nutrir ainda mais os rumores de que os russos têm algo daninho sobre ele escondido debaixo da manga, e com isso o obrigam a atuar melhor com eles que com os aliados históricos de Washington

23/07/2018 15:55

 

 
O presidente Donald Trump provocou a ira da classe política de seu país e até o assombro da cúpula do seu próprio partido na semana passada, após seu encontro com o colega russo Vladimir Putin, em Helsinque, o que alguns chegaram a classificar como uma prova da sua ligação com o histórico inimigo geopolítico – e não faltaram até mesmo acusações de “traição à pátria”.

Trump parece ter descartado o consenso de sua “comunidade de inteligência” de que os russos interferiram no ciclo eleitoral de 2016, e que continuam “atacando a democracia” estadunidense, ao comentar, durante a conferência de imprensa conjunta com Putin, que “ele (Putin) acaba de dizer que a Rússia não tem nada a ver com isso… Eu digo o seguinte: não vejo nenhuma razão pela qual (a Rússia) faria isso”. O presidente também afirmou que tem “uma grande confiança no pessoal da inteligência, mas creio que o presidente Putin foi muito firme e poderoso ao negá-lo hoje”.

Ao mesmo tempo, Trump atacou a investigação sobre a possível participação russa nas eleições, encabeçada pelo promotor especial Robert Mueller, a qual classificou como “um desastre para o nosso país”, e a culpou de dividir os dois países, negando qualquer colusão de sua campanha eleitoral com os russos.

O fato de Trump dar maior credibilidade a um “adversário” que aos seus próprios agentes de inteligência e de segurança nacional foi tão extraordinário que até os líderes do seu próprio partido se viram obrigados a criticá-lo.

O senador John McCain, ex-candidato presidencial republicano e chefe do Comitê das Forças Armadas da câmara alta, considerou que “foi uma das atuações mais vergonhosas de um presidente estadunidense”, e agregou que “os danos causados (por Trump) por sua ingenuidade, egoísmo, falsa de equivalência e simpatia por autócratas é difícil de calcular, mas está claro que a cúpula em Helsinki foi um erro trágico”.

O presidente da Câmara de Representantes, o republicano Paul Ryan, se viu obrigado a declarar que “o presidente tem que entender que a Rússia não é nossa aliada” e reafirmar que “não há dúvidas de que a Rússia interferiu na eleição e continua tentando minar a democracia”.

Outros republicanos que decidiram se expressar - muitos mais optaram pelo silêncio – qualificaram a reunião como “vergonhosa” ou “estranha”.

Para os críticos do presidente, como John Brennan, ex-chefe da Agência Central de Inteligência (CIA) durante o período de Barack Obama (2009-2017), o ocorrido em Helsinque “foi somente um ato de traição, não só pela imbecilidade dos comentários de Trump, como porque eles revelam que o presidente dos Estados Unidos está no bolso de Putin”, escreveu através de sua conta de twitter. Brennan afirma que a conferência de imprensa de Trump é algo que deveria iniciar um processo de impeachment.

Outros opositores também aproveitaram o momento para questionar a Trump, como o líder da bancada do Partido Democrata no Senado, Chuck Schumer, quem afirmou que “em nenhum momento da história estadunidense se havia visto um presidente apoiar a um adversário da maneira como o presidente Trump apoia o presidente Putin”.

O Washington Post publicou um editorial com o título: “Trump acaba de se aliar à Rússia. Abertamente”

O presidente russo Vladimir Putin não titubeou em afirmar que ele certamente torceu ela vitória eleitoral de Trump nas eleições, já que isso poderia favorecer a normalização da relação bilateral entre os países – o que não ajudou em nada os defensores do presidente estadunidense.

Trump se declarou triunfante no final da conferência, mas com uma frase curiosa, já que primeiro admitiu que a relação bilateral nunca esteve em pior estado do que hoje em dia, para logo emendar dizendo que “isso pode mudar em menos de quatro horas”. Contudo, é difícil explicar o cálculo político de Trump para realizar esta cúpula em um momento a elite política estadunidense afirma que Putin é um dos seus piores inimigos – tanto conservadores quanto os democratas, nostálgicos da Guerra Fria).

As agências de inteligência federais, todas lideradas por chefes nomeados por Trump, reiteraram ao longo dos últimos meses seu consenso de que a Rússia interferiu no processo eleitoral – embora sem difundir muita evidência de que isso aconteceu realmente, ao menos até agora.

Dan Coats, um desses altos agentes da inteligência nacional do governo de Trump, contou que essa versão foi reafirmada ao presidente poucos dias antes da reunião com Putin, incluindo detalhes a respeito dos ciberataques russos aos Estados Unidos, e dizendo que “as luzes de alerta a estão piscando em tom vermelho novamente”.

Ao mesmo tempo, a investigação sobre a participação russa, inicialmente aberta pelo Departamento Federal de Investigação (FBI, por sua sigla em inglês) e agora dirigida pelo promotor especial Mueller, acusa a 32 indivíduos por sua suposta participação na conspiração. Na sexta-feira anterior ao encontro Trump-Putin, o Departamento de Justiça apresentou denúncias formais contra 12 agentes de inteligência militar russos, por operações cibernéticas dedicadas a sabotar a campanha de Hillary Clinton em 2016.

Pouco depois do final do encontro entre os presidentes, o governo estadunidense anunciou que a agente russa Maria Butina foi presa sob a acusação de espionagem, ao desenvolver relações com políticos estadunidenses para promover os interesses russos.

Por tudo isso, a atuação de Trump serviu para nutrir ainda mais os rumores de que os russos têm algo daninho sobre ele escondido debaixo da manga, e com isso o obrigam a atuar melhor com eles que com os aliados históricos de Washington.

*Publicado originalmente no La Jornada | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado