Pelo Mundo

Republicanos adicionam insulto à doença

Ganância, germes e a arte de não chegar a um acordo

25/03/2020 15:31

Mitch McConnell falando aos repórteres no domingo depois que uma moção no Senado, para prosseguir com o projeto de lei de estímulo financeiro ao coronavírus, falhou. (Erin Scott/The New York Times)

Créditos da foto: Mitch McConnell falando aos repórteres no domingo depois que uma moção no Senado, para prosseguir com o projeto de lei de estímulo financeiro ao coronavírus, falhou. (Erin Scott/The New York Times)

 

Se você deseja um resumo rápido da votação das leis de estímulo fiscal, aqui está: os republicanos insistem em que devemos combater a epidemia com medidas econômicas que concentram recursos nas mãos das empresas, para depois reverter em benefícios para a população [trickle-down economics] e capitalismo de compadrio [crony capitalism]. Os democratas, por algum motivo, não concordam e acham que devemos nos concentrar em ajudar diretamente os americanos necessitados.

E se a legislação está paralisada, como parece neste momento em que eu escrevo isso (embora as coisas mudem rapidamente quando estamos em tempos de Covid), é porque Mitch McConnell, líder da maioria no Senado, está mantendo os americanos carentes como reféns na tentativa de chantagear os democratas para dar a Donald Trump um fundo para compra de favores políticos de US$ 500 bilhões.

Primeiro, vamos falar sobre a natureza da crise econômica que enfrentamos. No pior momento da recessão de 2007-2009, os Estados Unidos estavam perdendo cerca de 800.000 empregos por mês. No momento, provavelmente estamos perdendo vários milhões de empregos toda semana.

O que está causando essas perdas de emprego? Até agora, não é o que geralmente acontece em uma recessão, quando as empresas demitem trabalhadores porque os consumidores não estão gastando o suficiente. O que estamos vendo são os efeitos do distanciamento social: restaurantes, locais de entretenimento e muitos outros estabelecimentos foram fechados para limitar a propagação do coronavírus.

E nós não podemos nem devemos trazer esses trabalhos de volta até que a pandemia desapareça. O que isso nos diz é que, no momento, nossa maior prioridade não é a criação de empregos, é um alívio ao desastre: dar, às famílias e pequenas empresas que perderam sua renda, dinheiro suficiente para suprir as necessidades enquanto durar o confinamento. Ah, e fornecer ajuda generosa a hospitais, clínicas e outros prestadores de cuidados de saúde neste momento de estresse incrível.

Agora, enquanto o distanciamento social está atualmente conduzindo à destruição do emprego, haverá eventualmente uma segunda rodada mais convencional de perda de empregos, à medida que famílias e empresas em dificuldades reduzem os gastos. Portanto, há também um argumento para o estímulo sustentar os gastos gerais - embora ajudar os americanos necessitados favoreça grande parte desse estímulo, por ajudá-los a continuar gastando.

Então, o que há no projeto de estímulo que McConnell está tentando forçar a aprovação no Senado? De má vontade, o projeto supre parte, mas apenas parte da ajuda que os americanos em dificuldades precisarão.

Engraçado, não é, como ajudar os americanos comuns sempre é rotulado como uma "demanda democrática"? E mesmo lá a legislação inclui pílulas de veneno, como uma disposição que negaria ajuda a muitas instituições sem fins lucrativos, como casas de repouso e casas para deficientes.

Mas também inclui um fundo para compra de favores políticos de US$ 500 bilhões para empresas que o governo Trump poderia alocar a seu critério, essencialmente sem supervisão. Esta não é apenas uma política terrível, é um insulto à nossa inteligência.

Afinal, seria difícil justificar conceder qualquer administração esse tipo de poder para recompensar seus amigos e punir aqueles que considera inimigos. É quase inconcebível que alguém proponha dar tal autoridade ao governo Trump.

Lembrem-se, tivemos mais de três anos para assistir a esse governo em ação. Vimos Trump se recusar a divulgar qualquer coisa sobre seus interesses financeiros, em meio a evidências abundantes de que ele está lucrando às custas do público.

A guerra comercial de Trump tem sido notável pela maneira como as empresas favorecidas conseguem de alguma forma obter isenções tarifárias enquanto o benefício é negado a outras. E enquanto você lê esse artigo, Trump se recusa a usar sua autoridade para exigir a produção de equipamentos médicos essenciais.

Portanto, seria totalmente inusitado que esse governo alocasse quantias enormes de maneira justa e de interesse público.

Compadrio à parte, também há a questão da competência. Por que você daria um vasto poder discricionário a uma equipe que deu uma resposta totalmente tosca ao coronavírus porque Trump não queria ouvir más notícias?

Por que você colocaria os esforços de recuperação econômica nas mãos de pessoas que nos asseguravam há apenas algumas semanas que o vírus estava contido e que a economia estava "aguentando bem"?

Por fim, fizemos, há pouco tempo, um teste definitivo da premissa subjacente do fundo de compra de apoio político de McConnell - que, se você der dinheiro às empresas sem condicionalidades, elas o usarão em benefício dos trabalhadores e da economia como um todo. Em 2017, os republicanos forçaram a aprovação de um enorme corte de impostos corporativos, o que eles garantiram que levaria a salários mais altos e aumento do investimento privado.

Nenhuma dessas coisas aconteceu; em vez disso, as empresas basicamente usaram o dinheiro para recomprar suas próprias ações. Por que desta vez seria diferente?

Enquanto escrevo isso, os republicanos estão reclamando que os democratas estão sabotando a economia ao se recusarem a aprovar o projeto de McConnell – o que é um tanto irônico para aqueles que se lembram da oposição inescrupulosa à tudo o que Barack Obama propôs.

Mas, em todo caso, se McConnell realmente quer ação, ele pode obtê-la facilmente, retirando sua exigência por fundos controlados por Trump ou aprovando a lei de estímulo que os democratas da Câmara provavelmente oferecerão em breve.

E talvez isso aconteça dentro de alguns dias. Como eu disse, agora estamos vivendo em tempos de Covid. Mas, neste instante, os republicanos parecem obcecados em explorar uma crise que seu próprio presidente ajudou a criar por sua recusa em levar a pandemia a sério.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de César Locatelli

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