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Reputação dos EUA no mundo desaba com resposta de Trump ao coronavírus

Especialista em relações internacionais alerta que fracasso da resposta americana pode causar danos duradouros, enquanto presidente continua insultando aliados e sabotando alianças

14/04/2020 12:30

Trump responde a uma pergunta sobre hospitais e profissionais de saúde da linha de frente que relatam escassez de máscaras e testes de coronavírus (Yuri Gripas/Reuters)

Créditos da foto: Trump responde a uma pergunta sobre hospitais e profissionais de saúde da linha de frente que relatam escassez de máscaras e testes de coronavírus (Yuri Gripas/Reuters)

 
A resposta de Donald Trump à pandemia de coronavírus, que ele chegou a chamar de farsa, foi violentamente criticada nos EUA, onde foi considerada terrivelmente inadequada e irresponsável.

No entanto, também muito graças a Trump, um desastre paralelo está ocorrendo no resto do mundo: a ruína da reputação dos EUA como líder e parceiro internacional seguro, confiável e competente.

Chamemos isso de dupla praga de Trump. Diplomaticamente falando, os EUA respiram por aparelhos.

“A resposta autocentrada, aleatória e desafinada do governo Trump ao Covid-19 vai custar aos americanos trilhões de dólares e milhares de mortes evitáveis”, escreveu Stephen Walt, professor de relações internacionais em Harvard.

“E esse não será o único dano causado aos EUA. Longe de "tornar a América grande novamente", esse fracasso épico manchará ainda mais sua reputação como um país que sabe fazer as coisas de maneira eficaz”.

Essa mudança negativa pode se tornar permanente, alertou Walt. Desde que assumiu a presidência em 2017, Trump insultou parceiros dos EUA, minou alianças multilaterais e preferiu o confronto à cooperação. Sanções, embargos e boicotes à China, ao Irã e à Europa têm semeado discórdia global.

Na maioria das vezes, líderes estrangeiros frequentemente criticados, como Angela Merkel, da Alemanha, ouviram educadamente, oferecendo a outra face em nome da preservação da relação.

Mas a inépcia e a desonestidade de Trump na abordagem da pandemia, que deixaram tanto observadores estrangeiros quanto americanos de queixo caído, parecem ser a gota d’água.

O comportamento errático, antes tolerado, é visto agora como simplesmente perigoso. Há muito está claro, pelo menos para muita gente na Europa, que Trump não é confiável. Mas agora ele é visto como uma ameaça. Não se trata apenas de ser um fracasso como líder. Trata-se de tomar medidas abertamente hostis e imprudentes.

Houve reação furiosa na Alemanha depois de 200 mil máscaras de proteção com destino a Berlim desaparecerem misteriosamente na Tailândia, onde foram supostamente redirecionadas para os EUA. Não há prova concreta de que Trump tenha aprovado o roubo. Mas é o tipo de coisa que ele faria – como muita gente acredita.

“Consideramos isso um ato de pirataria moderna. Não é assim que se tratam parceiros transatlânticos. Mesmo em tempos de crise global, não deveríamos recorrer às táticas do velho oeste”, disse Andreas Geisel, um importante político de Berlim. Merkel também se recusou a dar a Trump o benefício da dúvida.

Os europeus já estavam indignados com os relatos sobre os esforços de Trump em adquirir o monopólio sobre uma vacina contra o coronavírus em desenvolvimento na Alemanha. Este último exemplo de egoísmo nacionalista só agravou a irritação na UE pela proibição de viagens, imposta no mês passado por Trump sem consulta ou justificativa científica.

Os danos à reputação dos EUA não se limitam à Europa. Causou consternação entre os países do G7 o fato de não se chegar a um acordo para uma declaração conjunta sobre o combate à pandemia, pois Trump insistia em chamar o coronavírus de "vírus de Wuhan" – sua maneira grosseira de atribuir culpa apenas à China.

Ações internacionais também foram dificultadas no Conselho de Segurança da ONU por objeções dos EUA quanto à terminologia.

Trump ignorou apelos insistentes pela criação de uma força-tarefa ou coalizão global para o Covid-19. Ele parece alheio à catástrofe que espreita milhões de pessoas nos países em desenvolvimento.

“A batalha de Trump contra o multilateralismo é tal que mesmo formatos como o G7 não funcionam mais”, comentou Christoph Schult na Der Spiegel. “Parece que o coronavírus está destruindo os últimos vestígios de uma ordem mundial”.

As surreais coletivas televisivas de Trump sobre o Covid-19 estão minando ainda mais o respeito pela liderança dos EUA. Trump divulga regularmente informações falsas ou enganosas, aposta em palpites, discute com repórteres e contradiz cientistas e médicos.

Embora publicamente rejeite ajuda estrangeira, privadamente Trump pediu ajuda a aliados europeus e asiáticos – mesmo àqueles, como a Coreia do Sul, que repreendera anteriormente. E ele continua caluniando a Organização Mundial da Saúde numa evidente busca por bodes expiatórios.

Aos olhos do mundo, a inexistência de um sistema de saúde justo e acessível nos EUA, a disputa acirrada entre os estados americanos pelos escassos suprimentos médicos, o número desproporcional de mortes entre minorias étnicas, as regras caóticas de distanciamento social e a falta de uma coordenação central remetem a um país pobre, em desenvolvimento, não à nação mais poderosa e influente do mundo.

Esse é um título que os EUA parecem em vias de perder – uma queda em desgraça possivelmente irreversível. O desastre doméstico desencadeado pela pandemia e a percepção global do egoísmo e da incompetência dos EUA podem mudar tudo. Segundo Walt, Trump preside com "uma fraqueza de caráter sem paralelo na história dos EUA".

Será que os americanos percebem a que ponto o patrimônio moral e financeiro de seu país caiu? Talvez neste momento de extremo estresse, isso pareça não ter importância. Mas terá mais tarde – para eles e para a futura correlação de forças geopolíticas.

Heiko Maas, ministro das Relações Exteriores da Alemanha, disse esperar que a crise obrigue os EUA a uma reflexão fundamental sobre “se o modelo da ‘América em primeiro lugar’ realmente funciona”. A resposta do governo Trump tem sido muito lenta, disse ele. “O esvaziamento das conexões internacionais tem um preço alto”, alertou.

O contínuo descontentamento com a forma como os EUA desapareceram em combate nas guerras de 2020 contra o coronavírus pode mudar a maneira como o mundo funciona.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles



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