Pelo Mundo

Reunião em Londres discute futuro da Líbia pós-Kadafi

30/03/2011 00:00

Página/12

Ainda que na véspera se esperassem respostas diplomáticas para a resolução do conflito armado na Líbia, a aliança ocidental que lidera a operação “Odisseia do amanhecer”, sob o comando da OTAN, reafirmou a “unidade” em seus esforços para pressionar e, eventualmente, derrubar o regime de Muammar Kadafi, sob o compromisso de ajudar o povo líbio a conseguir um país “democrático e livre”. Da reunião participaram mais de trinta países que conformam o “grupo de contato”, encarregado de coordenar a condição política do conflito e cuja primeira reunião será no Qatar, “o mais cedo possível”. A secretária de Estado norteamericana, Hillary Clinton, não descartou a possibilidade de “armar a oposição”. O Conselho Nacional Transitório da Líbia (CNI) enviou seu documento de adesão.

Esta foi a principal conclusão da jornada de reuniões realizada terça-feira em Londres entre representantes de mais de 35 países e organismos internacionais para discutir o futuro do país norteafricano. “A comunidade internacional está absolutamente unida e foi clara ao defender que devemos continuar nesta linha de ação, que consideramos a adequada”, assinalou o ministro britânico de Assuntos Exteriores, William Hague.
O chefe da diplomacia britânica lembrou que a conferência havia servido para reafirmar “o compromisso” dos países aliados para garantir o cumprimento das disposições estipuladas pelas recentes resoluções da ONU sobre a Líbia.

O primeiro ministro do Qatar, Hamad bin Jassim al Thani, que acompanhou Hague em seu encontro com os meios de comunicação, defendeu que o ditador líbio e seus aliados deixem o poder, evitando “mais derramamento de sangue”. O grupo de contato deverá, segundo explicou Hague, definir e “imprimir uma liderança e uma direção política geral ao esforço internacional, em estreita coordenação com a ONU, a União Africana, a Liga Árabe, a Organização da Conferência Islâmica e a União Europeia para ajudar a Líbia”.

O funcionário britânico defendeu a intervenção na Líbia dizendo que “ela está tendo êxito na proteção de civis” e enfatizando que “nenhuma das pessoas presentes (na conferência) decidirá o futuro da Líbia”, mas sim que os próprios líbios deverão decidir em liberdade o destino do país. Por outro lado, rechaçou a possibilidade de armas a oposição às forças de Kadafi, ainda que tenha considerado isso legítimo de acordo com a resolução 1973. Mas foi taxativo sobre o futuro: “Não há futuro para a Líbia com Kadafi no poder”.

Neste sentido, o titular britânico de Relações Exteriores mostrou-se “satisfeito” com o conteúdo de um documento apresentado em Londres por representantes da oposição do Conselho Nacional Transitório da Líbia (CNI). No documento, o conselho com sede em Benghazi expressa seu compromisso de criar uma “sociedade civil que reconheça o pluralismo intelectual e político” e permita “uma transição pacífica mediante instituições legais e a realização de eleições”.

O primeiro ministro David Cameron assegurou: “A razão pela qual estamos aqui é porque o povo líbio não pode alcançar esse futuro sozinho. Estamos aqui todos unidos por um mesmo propósito, que é ajudar o povo líbio nesta hora de necessidade”.

Cameron acrescentou que seu governo recebeu informes que as forças de Kadafi bombardearam (terça-feira) Misurata com incessantes ataques contra civis a partir da terra e do mar. “Kadafi está usando franco-atiradores para atacar os moradores de Misurata e deixá-los sangrando nas ruas até a morte. Cortou os alimentos, a água e a eletricidade para obrigá-los à submissão por meio da fome”.

Hillary Clinton, por sua vez, conclamou o mundo a falar com uma só voz e exigir que Kadafi renuncie para que a Líbia “pertença ao seu povo e não a um ditador”, segundo as palavras da chefe da diplomacia norteamericana”. Clinton acrescentou que somente com meios militares não se conseguirá tirar Kadafi do poder, onde está há 41 anos, e que será necessário aplicar mais sanções e maior pressão diplomática para conseguir este objetivo.

Neste sentido, a secretária de Estado defendeu a legalidade de uma eventual decisão de armar a oposição líbia, ainda que tenha assegurado que esse assunto não foi tratado na conferência internacional de Londres. “Nossa interpretação é que a resolução da ONU de 1973 retificou ou anulou a proibição absoluta de armar a qualquer pessoa na líbia, de maneira que pode haver uma transferência legal de armas se um país decidir fazê-lo”, justificou.

O Reino Unido, organizador da reunião em Londres, afirmou que quer determinar o futuro político da Líbia e que isso será tarefa do povo líbio. Os representantes da oposição líbia não participaram da reunião, ainda que um enviado dos rebeldes esteja em Londres e tenha previsto reunir-se com Hillary Clinton e seu colega britânico, William Hague, informaram funcionários norteamericanos e britânicos.

Participaram do encontro seis países árabes: Qatar, Iraque, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Tunísia e Líbano, e um país muçulmano não árabe, a Turquia. Estiveram lá também o secretário geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen e representantes da Liga Árabe e da União Africana. O chanceler italiano, Franco Frattini, disse que vários países pretendem apresentar um plano para colocar um fim rápido ao conflito, o que inclui uma proposta para um autoexílio de Kadafi, um cessar fogo e a abertura de conversações entre os rebeldes e chefes tribais líbios.

Os governantes da França e da Inglaterra, dois dos países mais envolvidos nos ataques na Líbia, exigiram renúncia imediata de Kadafi e disseram que o objetivo da conferência é “respaldar a transição” no país árabe africano.

O encontro é o primeiro do grupo de nações que, integrado por EUA, Inglaterra, França e o resto dos países da "coalizão", assumirá a liderança política da operação na Líbia, cujo comando militar passou para a OTAN.

No final da noite de segunda-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama; seu colega francês, Nicolas Sarkozy; o primeiro ministro britânico, David Cameron; e a chefe de governo alemã, a chanceler Angela Merkel, realizaram uma videoconferência para discutir a situação na Líbia, conforme informou a presidência francesa. Um pouco antes, Sarkozy e Cameron emitiram uma declaração conjunta na qual disseram que a conferência na Lancaster House, em Londres, teria como objetivo apoiar um processo político pós-Kadafi na Líbia. “A comunidade internacional poderá respaldar a transição na Líbia após uma ditadura violenta e criar as condições propícias para que o povo líbio possa decidir seu próprio futuro”, afirmou o texto.

A Inglaterra, a França e os Estados Unidos foram os principais impulsionadores da resolução do Conselho de Segurança que autorizou a imposição de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e o uso da força contra as forças de Kadafi “para proteger os civis”. Essa resolução, aprovada há dez dias, deu lugar a intensos bombardeios aliados contra forças leais ao líder líbio, iniciados no dia 19 de março, que permitiram aos rebeldes evitar uma derrota iminente e recuperar todo o terreno que tinha perdido ao longo do mês.

Tradução: Katarina Peixoto

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