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Revolução na Tunísia, próximos passos

14/04/2011 00:00

Assessoria de Comunicação do PSOL-RS

Créditos da foto: Assessoria de Comunicação do PSOL-RS
Porto Alegre - A Tunísia foi o país que desencadeou, no início de janeiro, a série de mobilizações populares que está sacudindo o Oriente Médio e o norte da África. Depois da deposição do ditador Ben Ali – até então um amigo bem comportado do Ocidente -, o processo tunisiano saiu um pouco dos noticiários. Mas há novidades importantes acontecendo na antiga colônia francesa. Novidades que representam avanços democráticos que não existem na maioria das democracias ocidentais.

Amami Nizar, dirigente sindical da Federação de Correios e Telégrafos da Tunísia e militante da Liga de Esquerda Operária, esteve em Porto Alegre nesta quinta-feira, a convite da Fundação Lauro Campos e da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL. Nizar concedeu uma entrevista coletiva, na Câmara de Vereadores, e depois fez uma palestra sobre a revolução tunisiana.

Na coletiva, o sindicalista destacou algumas das principais conquistas da mobilização popular em seu país. Nas eleições marcadas para o dia 24 de julho haverá, por exemplo, paridade entre o número de homens e mulheres na composição das listas eleitorais. Mais do que isso, essas listas serão compostas alternando os dois sexos. Aquelas que não cumprirem esses requisitos, serão invalidadas.

Além das listas, valerá o critério da proporcionalidade, o que deve encorajar formações políticas mais programáticas. A Assembleia Constituinte que será escolhida pelo voto popular deve apresentar um grande índice de renovação. Ex-ministros e integrantes do governo de Ben Ali estão proibidos de disputar eleições nos próximos 23 anos.

Objetivo é aprofundar processo de ruptura
As eleições poderão assim, disse Nizar, aprofundar o processo de ruptura política iniciado em janeiro, mas que é resultado de um acúmulo de mobilizações mais antigo. A Tunísia, observou o sindicalista, tem uma tradição diferenciada em relação à maioria dos outros países da região. A década de 1920 viu o surgimento de um movimento sindicalista muito forte no país, característica presente até hoje. A União Geral de Trabalhadores Tunisianos (UGTT) desempenhou um papel crucial na chamada “Revolução do Jasmim”, que derrubou Ben Ali no dia 14 de janeiro.

A presença das mulheres nas mobilizações sociais do país também tem uma longa história. No dia 13 de agosto de 1956, o Código do Estatuto Pessoal outorgou às tunisianas direitos sem precedentes no restante do mundo árabe. Entre eles, a abolição da poligamia e a exigência, para o casamento, do consentimento mútuo dos futuros esposos.

As eleições de julho colocarão em debate, entre outras coisas, o modelo econômico adotado pela Tunísia nas últimas décadas. O legado do liberalismo econômico, segundo os moldes propostos pelo FMI e Banco Mundial, ajuda a entender os motivos do levante popular de janeiro: mais de 500 mil desempregados, dos quais 200 mil são jovens diplomados em universidades. Três quartos dos desempregados são jovens com menos de 34 anos. O ex-presidente Ben Ali admitia que o país tinha 100 mil famílias vivendo abaixo da linha da pobreza. Já o primeiro-ministro de Ali, Mohammed Ghannouchi, que também acabaria caindo, elevou esse número para 200 mil famílias.

O fato é que a imensa maioria da população cansou de viver sob um regime que combinava autoritarismo com exclusão social. No dia 24 de julho, a Tunísia poderá enterrar definitivamente esse capítulo de sua história.


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