Pelo Mundo

Richard Wolff: O que devasta os EUA é o capitalismo, não a COVID-19

Salon entrevista o Dr. Richard D. Wolff, cujo novo livro, "A Doença é o Sistema", explora as falhas do capitalismo

11/10/2020 15:09

(Cortesia de Richard D. Wolff)

Créditos da foto: (Cortesia de Richard D. Wolff)

 
Como já escrevi, a nova pandemia de coronavírus expôs muitas das fraquezas estruturais do capitalismo. Para racionalizar a ideologia do mercado livre que sustenta os sistemas capitalistas, os capitalistas devem ignorar fatos científicos inconvenientes (seja sobre a pandemia ou questões como aquecimento global e poluição) e devem ser mesquinhos na ajuda àqueles que sofrem com o infortúnio. Pior ainda, o capitalismo requer consumo constante para manter a prosperidade; se uma chave inglesa for jogada nas engrenagens do crescimento perpétuo, toda a economia para de funcionar, como vimos desde que as paralisações econômicas começaram em março.

Esses argumentos, e muitos outros semelhantes, são centrais para o novo livro do Dr. Richard D. Wolff, "The Sickness is the System: When Capitalism Fails to Save Us from Pandemics or Itself"

[“A Doença é o Sistema: quando o capitalismo falha em nos salvar da pandemia ou dele próprio”]. Em uma série de ensaios bem pesquisados e delineados com lógica impecável, o professor emérito de economia da Universidade de Massachusetts Amherst analisa os acontecimentos dos últimos sete meses - o que se poderia denominar a "era da COVID-19" - e explica como os horrores de 2020 são causados principalmente pelo status quo social, político e econômico. Seu livro aborda uma série de questões, incluindo como a economia quebrou não por causa de um vírus, mas porque o capitalismo é incapaz de lidar com epidemias, como o sistema de saúde dos Estados Unidos é corrompido e como a desigualdade de renda já causava um imenso sofrimento muito antes da pandemia e é sustentada por mitos econômicos.

Ele disseca como os partidos Democrata e Republicano se recusam a aceitar que o capitalismo está causando os problemas que nos afligem hoje, como o pacote de estímulo bipartidário foi lamentavelmente inadequado e como o aumento do desemprego poderia ser facilmente corrigido se nossos legisladores tivessem vontade de fazê-lo. Ele explora as conexões entre capitalismo e racismo, sexismo, o complexo industrial policial / prisional e o domínio de mega corporações como a Amazon.

Na verdade, seu livro é tão completo, tão abrangente em sua análise perspicaz, que contém, praticamente, todas as informações necessárias para quem queira entender por que o ano de 2020 foi um desastre.

"Há uma incapacidade única do sistema capitalista - quer dizer, um sistema de empresas privadas pertencentes e operadas por acionistas, famílias, indivíduos que produzem com fins lucrativos e comandam a maioria das pessoas envolvidas em cada empresa ou os empregados - esse sistema é singularmente incapaz de garantir a saúde pública", disse Wolff a Salon. “E como a saúde pública é uma demanda básica, uma necessidade das comunidades humanas, isso representa uma profunda desqualificação do capitalismo. Para resumir: não é lucrativo para um capitalista competitivo privado e voltado para o lucro produzir máscaras aos milhões, ou luvas, ou respiradores, ou camas de hospital, ou todo o resto."

Como Wolff apontou, o governo falhou em intervir e preencher o vazio deixado pelo setor privado. Isso não aconteceu porque o governo não pode produzir o que a sociedade precisa, mesmo quando isso não é lucrativo. O problema é que o governo é perfeitamente capaz de implementar tais políticas - mas só o faz quando é do interesse de um determinado setor que exerce controle sobre o Estado.

"Uma falha do governo não pode ser desculpada com base no fato de o governo não fazer ou conceber tais coisas, porque isso não é verdade", disse Wolff a Salon. “O governo faz para os militares exatamente o que deixou de fazer na manutenção da saúde pública. A saúde pública é tão improfícua para um capitalista privado quanto produzir um míssil e depois armazená-lo em algum depósito e monitorá-lo e limpá-lo e substituí-lo e repará-lo, esperando Deus sabe por quanto tempo até que a próxima guerra transforme este míssil em algo o governo compre."

Wolff observou que as empresas que fazem parte do complexo militar-industrial não fabricariam veículos, armas e similares, “a menos que o governo chegue e diga: 'Vamos comprar isso de você logo na saída da linha de montagem’. E então, às custas do governo, vamos armazená-lo, despachá-lo, monitorá-lo, limpá-lo e tudo o mais. O governo faz isso como algo natural para os militares. E não fez o mesmo pela saúde pública."

O motivo pelo qual não conseguiu fazer isso para impedir a pandemia, explicou Wolff, é porque às vezes você tem grupos de indústrias que se unem para criar um monopólio de grupo sobre um serviço que a sociedade precisa.

“É aí que entram os profissionais de saúde”, explicou Wolff. "Existem quatro grupos industriais: médicos, número um, hospitais, número dois, fabricantes de medicamentos e equipamentos, número três, e seguradoras médicas, número quatro. Esses quatro juntos operam um monopólio conjunto. Eles são a única forma de obter o atendimento de saúde, uma ou outra dimensão, que está disponível. Eles operam como um monopólio. Eles se ajudam mutuamente, coordenam seus anúncios de lobby político e comercial, e têm obtido sucesso dramático nos Estados Unidos, especialmente desde a Segunda Guerra Mundial, ao aumentar o preço dos cuidados médicos muito acima do que seria se houvesse uma concorrência genuína."

Isso não levou a melhores cuidados de saúde para os norte-americanos. Na verdade, como Wolff explicou em nossa entrevista e em seu livro, os norte-americanos pagam muito mais do que os cidadãos de outros países industrializados avançados por assistência médica e recebem resultados medíocres em troca. Lutamos contra os principais problemas de saúde pública, como obesidade, epidemia de opioides, hipertensão e diabetes. No entanto, apesar de tudo isso, o monopólio da indústria de saúde tem sido capaz de lutar com sucesso contra todas as reformas, exceto as mais modestas (como a Affordable Care Act, que até agora está se pressionando para revogar) porque se preocupa menos em servir o público do que manter seu domínio da indústria.

"A profissão médica, portanto, nunca quer que o governo se aproxime do que está fazendo, porque isso ameaçaria seu monopólio", disse Wolff a Salon. “Se o governo estivesse fazendo compras regulares, sendo o intermediário - como os governos estão praticamente em todos os outros lugares deste planeta - chamaria a atenção de um grande público para o problema do dinheiro do governo sendo usado para sustentar uma profissão. E então não haveria mais desculpa para o arranjo lunático que temos agora. O monopólio seria atacado e seria minado."

Salon também perguntou a Wolff o que pensa sobre a eleição presidencial de 2020. Em seu livro, ele deixa claro que tanto os democratas quanto os republicanos subscrevem os ideais pró-capitalistas que são destrutivos tanto para os Estados Unidos quanto para o resto do mundo. Como muitos outros na esquerda - incluindo os ex-apoiadores do principal oponente de Biden nas primárias, o socialista democrata Bernie Sanders, de Vermont - Wolff está claramente desapontado com as posições de centro-esquerda de Biden. Como tal, ele acha que eleger Biden derrotando Trump ajudará os Estados Unidos?

"Não acho que faça uma grande diferença em lidar com os problemas subjacentes, mas faz uma diferença significativa em lidar com todo um conjunto de outros problemas menos fundamentais ou menos profundamente enraizados", disse Wolff a Salon. "Então está claro para mim que, apenas para mim pessoalmente, a escolha do Sr. Biden em vez do Sr. Trump óbvia. Eu não tenho nenhum problema com as pessoas que fazem essa escolha. Eu diria que o que ouço e vejo do Sr. Biden fica muito aquém das questões que tento levantar nesse livro e no trabalho que faço em geral."

Ele acrescentou: "Lamento isso. Acho que é um erro da parte dele, mesmo dentro da perspectiva de seus objetivos."

*Publicado originalmente em 'Salon' | Tradução de César Locatelli

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