Pelo Mundo

Saramago prega retorno à filosofia para salvar democracia

20/01/2004 00:00

 

 

“Todos os dias uma comédia vergonhosa que se chama democracia é encenada. Nesta comédia, pode-se debater de tudo, menos a própria democracia. A falsidade central deste modelo reside no fato de que o poder econômico é o mesmo que o poder político. O único antídoto para reverter esse mau funcionamento da democracia é construir uma sociedade crítica que não se limite a aceitar as coisas pelo que elas parecem ser e depois não são, mas se faça perguntas e diga não sempre que for preciso dizer não. Para isso, é urgente voltar à filosofia e à reflexão”. O comentário foi feito pelo escritor português José Saramago, durante a abertura do curso “Literatura e poder. Luzes e sombras”, na Universidade Carlos III, segunda-feira (dia 19) em Madri.

Segundo a agência espanhola EFE, Saramago fez um duro diagnóstico sobre a situação atual da democracia no mundo, classificando-o como uma comédia com efeitos trágicos para a sociedade. “Nossa maior tragédia”, disse Saramago, “é não saber o que fazer com a vida”. Para o prêmio Nobel de Literatura, a reversão deste quadro exige, entre outras coisas, um retorno urgente ao estudo da filosofia. “Estamos usando nosso cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso pensar, o que se nos permite pensar”, acrescentou Saramago.

Três perguntas fundamentais

Saramago listou três perguntas que deveriam ser feitas por todos aqueles preocupados com essa situação de déficit democrático: “Por que, para que e, a mais importante, para quem, são as três perguntas fundamentais que deveríamos fazer ao primeiro-ministro, ao professor, ao pai, ao filho, quase a propósito de tudo o que ocorre”. “O problema é que isso dá um pouco de trabalho”, cutucou.

O próximo livro de Saramago, “Ensaio sobre a lucidez”, será uma espécie de testamento do autor. A obra será lançada em março em Portugal e contém uma visão pessimista sobre o sistema democrático, misturando romance, fábula, sátira e tragédia. “Espero que possa revolver a consciência dos meus leitores”, anunciou Saramago.

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