Pelo Mundo

Sean Hoare sabia o quão destrutivo o News of the World podia ser

19/07/2011 00:00

Nick Davies - The Guardian

No momento em que a reputação dos jornalistas do News of the World está no fundo do poço, é preciso dizer que o ex-correspondente Sean Hoare, que morreu na segunda-feira, era um homem amável.

Na novela do escândalo das escutas telefônicas, ele se distinguiu por ser o primeiro jornalista a falar sobre o assunto, dizendo ao The New York Times, no ano passado, que seu ex-amigo e editor, Andy Coulson, tinha o encorajado ativamente a violar mensagens telefônicas.

Ele teve coragem. Mas tinha um motivo particularmente poderoso para falar. Ele sabia o quão destrutivo o News of the World poderia ser, não apenas para os alvos de suas denúncias, mas também para os jornalistas comuns que trabalhavam lá e que eram usados sem remorsos para criar determinadas manchetes.

Ao explicar por que ele resolveu falar para fora (ao NYT), ele me disse: “Eu quero corrigir um erro, levantar a tampa e expor toda essa cultura. Eu sei, todos nós sabemos que essa e outras práticas ilegais são endêmicas. Há muita intimidação. Na redação, você tem pessoas que estão sendo demitidas, desmanchando-se em lágrimas, afundando na garrafa”.

Ele sabia disso muito bem por que fora ele próprio uma vítima do News of the World. Como repórter do setor de showbusiness, ele viveu o que poderia ser chamado de uma vida privilegiada. Mas essa realidade arruinou sua saúde física: “Eu era pago para sair e usar drogas com estrelas do rock, embriagava-me com eles, tomava pílulas com eles, usava cocaína. Era muito competitivo. Você acaba indo muito além daquilo que é seu dever profissional, faz coisas que nenhuma homem sensato faria. Você está dentro de uma máquina”.

Enquanto tudo isso estava acontecendo, ele adorou. A sua origem era a classe trabalhadora, fanático torcedor do Arsenal, eleitor dos trabalhistas, que se definia como um “cláusula IV”, um socialista que ainda acreditava na propriedade pública dos meios de produção. Mas, trabalhando como repórter, subitamente encontrou-se envolvido até o pescoço com drogas e delírio.

Rapidamente chegou a uma coluna sobre mundo bizarro, no Sun, então dirigido por Coulson. Ele recorda: Havia uma sistemática no Sun. Nós arrebentávamos por boas histórias. Eu tinha um bom relacionamento com Andy. Ele me deixava fazer o que quisesse desde que trouxesse uma história. O lema era: “Eu não dou a mínima”.

Ele era um repórter nato e sempre conseguia encontrar histórias. E, ao contrário de alguns de seus colegas de tablóides, não intimidava suas fontes. Era um homem naturalmente cordial que poderia iluminar um poste com sua conversa. Ele acabou deixando o bizarro e indo para o Sunday People, dirigido por Neil Wallis e depois para o News of the World, onde Andy Coulson havia se tornado editor-adjunto. E, de maneira persistente, fez o que lhe foi dito, caiu na estrada com astros de rock, fez amizade e encheu a cara com eles, parando apenas para fazer seu texto.

Ele não fez segredo sobre a ingestão maciça de drogas. Ele me contou sobre como costumava começar o dia com um “café da manhã de uma estrela de rock”: uma linha de cocaína e um Jack Daniels – geralmente na companhia de um jornalista que agora uma posição de direção no Sun. Chegou a usar três gramas de cocaína por dia, gastando cerca de mil libras por semana. Além de álcool sem fim. Olhando para trás, podia ver o tamanho do prejuízo que estava tendo. Mas naquele momento, como lembrou, a maioria de seus colegas estava fazendo a mesma coisa.

“Sofríamos de um excesso de confiança. Pensávamos que podíamos cheirar cocaína, ir para Brown, sentar no salão vermelho com Paula Yates e Michael Hutchence”.

Toda a Fleet Street (rua onde se concentram-se várias publicações) deve ter ficado assustada quando ele começou a falar. Ele tinha comprado, vendido e cheirado cocaína com alguns dos nomes mais poderosos dos tablóides. Um deles é executivo do Daily Mirror hoje. “Eu o vi pela última vez em Little Havana”, lembrou, “às três da manhã, de joelhos. Tinha perdido seu papelote de cocaína. Eu disse a ele: “Esse não é realmente o comportamento que esperados de um experiente jornalista de um grande jornal trabalhista”. Ele respondeu: “Você tem alguma droga aí, porra?”.

A violação de mensagens telefônicas era parte do grande jogo. A ideia de que era um segredo, ou o trabalho de alguns “repórteres bandidos” o manteve quieto por algum tempo. “Todo mundo estava fazendo isso. Todo mundo era carregado por esse poder que eles tinham. Ninguém chegou perto de nos agarrar. Nós escutávamos as mensagens e as deletávamos para os nossos competidores não ouvirem; ou então trocávamos algumas com outros colegas.

No final, seu corpo não aguentava mais. Ele disse que começou a ter convulsões, que o fígado estava em um estado tão terrível que um médico lhe disse que já devia estar morto. E, quando seu estado de saúde entrou em colapso, foi demitido do News of the World por seu velho amigo Coulson.

Quando ele falou sobre as interceptações telefônicas, alguns deputados conservadores foram rápidos em atacá-lo, espalhando relatos sobre o uso de drogas e como isso significava que era desonesto. Ele estava genuinamente ofendido com as mentiras contadas pelo News e dispostou a ajudar-me e a outros repórteres que estivessem interessados na verdade. Ele também ficou ofendido quando o comissário da Scotland Yard, John Yates, o chamou para depor não como testemunha, mas como suspeito. Disseram que qualquer coisa que ele dissesse poderia ser usado contra ele e acabou se recusando a conversar com eles.

Sua saúde nunca se recuperou. Ele gostava de dizer que tinha parado de beber, e que estava procurando se tratar com um pouco de vinho tinto. Ele dizia que tinha parado de fumar, mas poderia parar para fumar um cigarro a caminho de casa. Para o bem e para o mal, era um homem da Fleet Street.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Conteúdo Relacionado